Lô Borges

Paisagem da janela

Da janela lateral do quarto de dormir
Vejo uma igreja, um sinal de glória
Vejo um muro branco e um vôo pássaro
Vejo uma grade, um velho sinal

Mensageiro natural de coisas naturais
Quando eu falava dessas cores mórbidas
Quando eu falava desses homens sórdidos
Quando eu falava desse temporal
Você não escutou

Você não quer acreditar
Mas isso é tão normal
Você não quer acreditar
E eu apenas era

Cavaleiro marginal lavado em ribeirão
Cavaleiro negro que viveu mistérios
Cavaleiro e senhor de casa e árvores
Sem querer descanso nem dominical

Cavaleiro marginal banhado em ribeirão
Conheci as torres e os cemitérios
Conheci os homens e os seus velórios
Quando olhava da janela lateral
Do quarto de dormir

Você não quer acreditar
Mas isso tão normal
Você não quer acreditar
Mas isso tão normal
Um cavaleiro marginal
Banhado em ribeirão
Você não quer acreditar

0 comentário sobre “Paisagem da janela

  • Feita em parceira com Fernando Brant (letra), onde Lô fez a melodia. Fernando Brant, autor da letra, relembra, segundo a revista folha de São Paulo, 8 de abril 2002: “Compus essa música quando ainda morava na casa dos meus pais, em Belo Horizonte”. Brant faz uso da metalinguagem para falar de si mesmo dentro da canção.

    ”Da janela lateral do quarto de dormir
    Vejo uma igreja, um sinal de glória
    Vejo um muro branco e um vôo pássaro
    Vejo uma grade, um velho sinal”

    – Brant revela que esses primeiros versos são resultado de sua observação do quarto de sua casa no bairro dos funcionários em BH. Onde da janela ele vê a igreja de Lourdes, um muro branco, pássaros voando, uma grade (que pode ser da janela) e um velho sinal.

    “Mensageiro natural de coisas naturais
    Quando eu falava dessas cores mórbidas
    Quando eu falava desses homens sórdidos
    Quando eu falava deste temporal”

    – Aqui começa a imaginação, a recordação e a narração metafórica. Brant era repórter da revista “O cruzeiro” que lhe propiciou contato com as mais diversas realidades e se coloca como mensageiro (repórter e letrista) das coisas que acontecem na vida cotidiana. Quando ele expressa: “quando eu falava”, é provável que o autor se referisse a sua atividade como jornalista, como letrista. Ele, como jornalista, é o mensageiro dos diversos acontecimentos que rodeavam sua vida. Cores mórbidas e homens sórdidos podem fazer referência aos militares, governantes e ao contexto político de 1972, quando o Brasil vivia o regime militar que era visto pelo clube da esquina como algo terrível. Ressalta-se, assim, que temporais pode fazer referência a situação conflitante ocasionada pela ditadura militar.

    “Você não escutou
    Você não quer acreditar
    mas isto é tão normal
    Você não quer acreditar
    e eu apenas era”

    – Através destes versos o autor revela sua preocupação social com a humanidade. Os homens, por estarem tão acostumados à violência, fome e demais atribulações, já cauterizaram sua mente. São indiferentes e despreocupados. Brant, que é mensageiro, já falou e fala, mas não querem acreditar porque ele é um simples mensageiro natural, ao que parece.

    “Cavaleiro marginal
    lavado em ribeirão
    Cavaleiro negro que viveu mistérios
    Cavaleiro e senhor de casa e árvores
    sem querer descanso nem dominical”

    – Brant ao falar, mesmo que os homens não escutem, é, segundo ele mesmo, apenas um cavaleiro marginal, ou seja, alguém que vive nessa realidade triste, agonizante, mas não faz parte dela. A palavra cavaleiro tem sentido poético, metafórico, e pode significar uma luta para, através das palavras, denunciar as mazelas dessa realidade. Lavado em ribeirão denota o banho revigorante do cavaleiro que está em batalha e que não descansa nem aos domingos. Ao se referir a si mesmo como cavaleiro negro o autor pode estar fazendo alusão ao fato de ter que compor suas músicas tendo que esconder suas convicções políticas devido a censura do regime militar. Os mistérios podem ser as coisas que o autor viveu ao realizar seu trabalho como jornalista, sob a censura do regime militar. Pois sabe-se que durante o regime a atividade jornalística sofreu grande represália e pressão por parte dos militares.

    “Cavaleiro marginal banhado em ribeirão
    conheci as torres e os cemitérios
    conheci os homens e os seus velórios
    quando olhava da janela lateral
    do quarto de dormir”

    – Ele é o cavaleiro que vive dentro dessa realidade de Minas Gerais, mas não faz parte dela, pois se coloca como marginal, está à margem. Revela que participa de fatos desagradáveis, mas que apesar de tudo se banha “no ribeirão”. Neste último verso Brant revela que, através da janela de seu quarto, ele vê as torres, os prédios, — pois o bairro dos funcionários, no qual ele morava, era um bairro em construção e abrigava os funcionários públicos de Minas — os habitantes. De sua janela era possível ver um cemitério, onde se realizavam velórios, obviamente. Tudo isso enquanto ele olhava da janela do seu quarto, da janela lateral.

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  • Maria das Graças de Freitas Moraes disse:

    Muito intetessante sua interpretação. Nunca imaginei que tivesse tantos eventos por detrás da letra. Outrora, tempos difíceis.

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