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Chico Buarque

Eu te amo

Ah, se já perdemos a noção da hora
Se juntos já jogamos tudo fora
Me conta agora como hei de partir

Ah, se ao te conhecer
Dei pra sonhar, fiz tantos desvarios
Rompi com o mundo, queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir

Se nós nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas
Diz com que pernas eu devo seguir

Se entornaste a nossa sorte pelo chão
Se na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu

Como, se na desordem do armário embutido
Meu paletó enlaça o teu vestido
E o meu sapato inda pisa no teu

Como, se nos amamos feito dois pagãos
Teus seios ainda estão nas minhas mãos
Me explica com que cara eu vou sair

Não, acho que estás te fazendo de tonta
Te dei meus olhos pra tomares conta
Agora conta como hei de partir.

8 respostas em “Eu te amo”

Trecho retirado do trabalho de Peter Dietrich, que pode ser encontrado na íntegra em http://www.fflch.usp.br/dl/semiotica/downloads/dietrich_euteamo.pdf

Análise da letra Eu te Amo, de Tom Jobim e Chico Buarque.

Para a análise de uma canção, poderíamos partir indiferentemente do componente verbal ou
musical. Isso porque o sentido de uma canção, como vimos, é construído justamente na interação
entre letra e melodia. A escolha de iniciar a análise pela letra é meramente didática: se fosse adotado
o procedimento inverso, o resultado seria o mesmo.
Ah, se já perdemos a noção da hora / Se juntos já jogamos tudo fora
Me conta agora como hei de partir
Ah, se ao te conhecer / Dei pra sonhar fiz tantos desvarios
Rompi com o mundo queimei meus navios
Me diz pra onde é que ainda posso ir
Se nós, nas travessuras das noites eternas / Já confundimos tanto as nossas pernas
Diz com que pernas eu devo seguir
Se entornaste a nossa sorte pelo chão / Se na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu
Como, se na desordem do armário embutido / Meu paletó enlaça teu vestido
E o meu sapato ainda pisa no teu
Como, se nos amamos feito dois pagãos / Teus seios ainda estão nas minhas mãos
Me explica com que cara eu vou sair
Não, acho que estás te fazendo de tonta / Te dei meus olhos pra tomares conta
Agora conta como hei de partir
O primeiro aspecto que podemos observar nesta letra é a exposição de um sentimento único,
em tudo especial. O amor relatado pelo narrador não é apenas intenso. Ele é, literalmente, visceral.
Podemos verificar esse fato principalmente nos versos: “Já confundimos tanto as nossas pernas/ Diz
com que pernas eu devo seguir”, “Se na bagunça do teu coração/ Meu sangue errou de veia e se
perdeu”, “Te dei meus olhos pra tomares conta”. Sujeito que ama e objeto amado se entrelaçam e se
confundem: “Meu paletó enlaça teu vestido/ E o meu sapato ainda pisa no teu”. Nestes versos
podemos perceber que a proximidade entre os amantes é tanta que chega mesmo a superar o conceito
de proximidade: estamos diante de um amor que chamaremos de ‘fusional’. No regime deste amor
fusional a continuidade é absoluta: não se pode perceber os contornos do sujeito e do objeto. Essa
continuidade plena repercute diretamente na percepção dos limites espácio-temporais. O mundo em
que este amor acontece não faz fronteira com o mundo externo (“Rompi com o mundo queimei meus
navios”), nem tampouco é limitado temporalmente (“perdemos a noção da hora”, “noites eternas”). A
conseqüência inevitável desta configuração é a diluição da individualidade do narrador – fato que
intensifica o teor passional do que está por vir.
No início da canção, esta relação de amor fusional está relatada em tempo passado:
“perdemos”, “jogamos”, “Rompi”, “queimei”, “confundimos”, etc… No presente, temos um sujeito
atônito, surpreendido por um acontecimento inesperado. Na composição deste efeito de sentido, a
noção de andamento é crucial. Em seu “Musicando a Semiótica” (1998: 54), Luiz Tatit elabora um
pequeno modelo para descrever esse fenômeno, a partir de uma passagem escrita pelo poeta Paul
Valéry nos seus famosos Cahiers:
Função objetal função subjetal
surpresa o que já é não é ainda
espera o que não é ainda já é
O foco da nossa leitura recai sobre o que o semioticista chamou de “função subjetal” (1998:
54). A função subjetal pode ser entendida como a medida do andamento do sujeito. A função objetal,
por sua vez, reflete o andamento do objeto. É o descompasso entre esses andamentos que gera os
efeitos de sentido descritos: surpresa ou espera. A surpresa acontece quando o objeto acelera demais,
e se antecipa ao sujeito. Em outras palavras: o sujeito não consegue acompanhar o andamento das
coisas. O que “já é”, pois de fato já aconteceu, para o sujeito “não é ainda”. O objeto surpreende o
sujeito.
A surpresa para o narrador de “Eu te amo” se manifesta como uma ruptura. Ainda imerso
naquele ‘amor fusional’, este sujeito não consegue acompanhar o andamento do objeto que acelera e
“escapa”. Para ele, esta ruptura de fato não existe (não é ainda): “Teus seios ainda estão nas minhas
mãos”. Ela nos é apresentada sempre como fato absurdo, impossível. O sujeito que restaria de uma
cisão é um sujeito incompleto, incapaz, sem pernas para andar e sem sangue nas veias (“Diz com que
pernas eu devo seguir”, “Meu sangue errou de veia e se perdeu”).
A teoria semiótica prevê que um sujeito só pode realizar uma ação se for dotado de
determinadas competências. Essas competências são traduzidas pelos chamados verbos modais:
/querer-fazer/, /dever-fazer/, /poder-fazer/ e /saber-fazer/. Um sujeito que possui estas competências
está apto para a ação que é, invariavelmente, a conquista do objeto almejado. No entanto, a ausência
(ou o conflito) de competências coloca um entrave à realização desta ação. A partir deste econômico
modelo, a semiótica é capaz de descrever um número consideravel de situações passionais. Temos
então sujeitos que querem mas não devem, devem mas não podem, podem mas não sabem, etc…
Estas configurações compõem o nível narrativo da análise.
Para obter as competências, o sujeito precisa de um doador, que é denominado destinador. O
destinador instaura o sujeito ao fornecer o /querer/ e o /dever/. Posteriormente, qualifica-o para a ação
doando o /poder/ e o /saber/. A figura do destinador é imprescindível: sem ele não há sujeito nem
narrativa.
Com isso podemos entender melhor a situação em que se encontra nosso narrador. Logo no
início ele afirma: “Se ao te conhecer/ Dei pra sonhar fiz tantos desvarios/ Rompi com o mundo
queimei meus navios”. Podemos ver que a relação estabelecida entre o narrador e sua amada, aqui
apenas designada como ‘tu’, vai muito além de uma relação sujeito-objeto. É a partir dela que o
sujeito passa a sonhar – uma das muitas manifestações da modalidade do /querer/. Ela se configura
não só como objeto de desejo, mas também destinador deste sujeito que deseja. O terceiro verso desta
estrofe estabelece um outro parâmetro para esta relação. Ao “romper com o mundo” e ao “queimar os
navios”, o sujeito afirma que não aceita mais outros possíveis destinadores. Essa configuração
explica a inviabilidade do narrador enquanto sujeito fora desta relação. Sem seu destinador, e sem a
possibilidade de eleger outros destinadores, sua condição de sujeito ficaria simplesmente
insustentável.
Contrapondo-se então à ruptura e descontinuidade, temos um sujeito que nega os limites, que
quer durar. Freante ao projeto de concentração apresentado pelo objeto (que impõe limites, que
concentra a individualidade, que marca o tempo) o sujeito reafirma um projeto de expansão (que
nega os limites, que promove a difusão, que dilui). Este é o mecanismo central desta letra, que
posteriormente será retomando na análise melódica.
De um modo geral, as análises de letras de canções se voltam exclusivamente para o plano de
conteúdo. No entanto, existe em “Eu te amo” um aspecto importante que pode ser observado no
plano de expressão desta letra.
Ah, se já perdemos a noção da hora
Se juntos já jogamos tudo fora
Me conta agora como hei de partir
Se nós, nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas
Diz com que pernas eu devo seguir
Não, acho que estás te fazendo de tonta
Te dei meus olhos pra tomares conta
Agora conta como hei de partir
Uma das principais características da semiótica greimasiana é a possibilidade de descrever
fenômenos observáveis no plano do conteúdo e no plano de expressão utilizando os mesmos
procedimentos metodológicos. Esta capacidade permite a descrição de efeitos poéticos sem a
necessidade de abandonar o campo teórico, o que confere à análise o rigor desejado.
No plano de expressão, a rima pode ser considerada como um mecanismo de desaceleração. A
recorrência de uma mesma sonoridade a intervalos regulares provoca a percepção de um ritmo. Ao
fluxo instável e irregular (acelerado) da fala se sobrepõe a regularidade da rima (desaceleração). No
trecho ressaltado, este procedimento é utilizado de uma maneira peculiar. A repetição regular da
sonoridade em “hora” e “fora” (estabilidade) aparece antecipada no terceiro verso (“agora”). A rima
“acelera”, e aparece antes do esperado (surpresa). O mesmo acontece nas duas outras estrofes. Assim
como no plano de conteúdo o sujeito é surpreendido por um objeto que se antecipa, temos no plano
de expressão uma rima que se antecipa – e surpreende.

O texto inteiro revela a tentativa desesperada do eu-lírico para evitar uma separação inevitável.Por isso
o texto inteiro é argumentativo, direcionado p/con-
vencer a amada a ficar. Na 1ª estrofe, usa o pron.nós, para mostrar os momentos partilhados em conjunto.De-
pois parte para o “eu” com: rompi c/o mundo, queimei
navios (metáforas) e “meu paletó enlaça o teu vestido
meu sapato ainda pisa no teu (metonímias), cujo fim é
mostrar a relação visceral que sempre tomou conta dos
dois, por isso “com que cara eu vou sair”?

2
1

Para mim a música mais linda de amor que já existiu, eu sempre que escuto fico pensando em ‘argumentação’ no sentido de não ir embora…de não sair…

Quanda retórica para analisar uma música que é totalmente um plágio dos propósitos de um poema de Gregorio de Mattos. O chico não teve tanto trabalho pra sincronizar as ideias originais do amor escancarado sugerido por Gregorio.

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