Belchior

A Palo Seco

Se você vier me perguntar por onde andei
No tempo em que você sonhava
De olhos abertos, lhe direi
Amigo, eu me desesperava

Sei que assim falando pensas
Que esse desespero é moda em 76
Mas ando mesmo descontente
Desesperadamente, eu grito em português
Mas ando mesmo descontente
Desesperadamente, eu grito em português

Tenho vinte e cinco anos
De sonho e de sangue
E de América do Sul
Por força deste destino
Um tango argentino
Me vai bem melhor que um blues

Sei que assim falando pensas
Que esse desespero é moda em 76
E eu quero é que esse canto torto
Feito faca, corte a carne de vocês
E eu quero é que esse canto torto
Feito faca, corte a carne de vocês

Tenho vinte e cinco anos
De sonho e de sangue
E de América do Sul
Por força deste destino
Um tango argentino
Me vai bem melhor que um blues

Sei que assim falando, pensas
Que esse desespero é moda em 76
E eu quero é que esse canto torto
Feito faca, corte a carne de vocês
E eu quero é que esse canto torto
Feito faca, corte a carne de vocês

0 comentário sobre “A Palo Seco

  • Jhonatan Costa disse:

    Em ” A Palo Seco” , Bel trata sobre os desprazeres, a opressão e o enquadramento em que um país em plena ditadura impõe um jovem cheio de sonhos de paz, harmonia, união e amor entre seus semelhantes. O nome remete ao cantar ” seco”, ao canto sem nenhum tipo de máscara ou censura. Remete ao canto do oprimido, transmitindo ao seu opressor que o mesmo está vivo, pelejando e deseja que o ” canto torto “, aquele canto que não é pra soar bonito, nem que agrade o senso comum, que passe uma mensagem de resistência.

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  • Mário Xavier disse:

    Jonhata, obrigado pelo seu comentário. Nasci em plena Ditadura militar, em 1967, em Pedreiras – MA. Realmente, em 1976, como o autor fala, vivíamos um período ditatorial, que perdurou de 1964 a 1985, ou seja, 21 anos. Lembro- me que quando o (a) professor (a) entrava na sala de aula, ficávamos todos de pe para cumprimentar. Anos depois, fui saber o período que vivi. Mário Xavier – Abreu e Lima – PE, 27 06 2020, às 11h55min.

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  • Luciano Viegas disse:

    Interessante, também nasci em Pedreiras MA, 1973, mas tenho poucas lembranças desse clima quase militar na escola, exceto talvez pela obrigatoriedade de execução do hino nacional antes do início das aulas! De toda sorte, quando crianças, vemos a vida sob outra ótica, às vezes até por conta da proteção familiar (q o diga o filme ” a vida é bela”, de 1994).

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  • Ricardo disse:

    “Tenho 25 anos, de sangue, de sonho e se América do Sul.” Em outras palavras: minha terra é América do Sul. Sou latino americano. “Por força desse destino, o tango argentino me faz bem melhor que o blues”, ou seja, eu não tenho como negar minha identidade e ela me faz amar e valorizar as coisas da minha terra. O Tango é da minha terra. Mas a “americanização” do mundo através da manipulação em massa fazia Sul americanos conhecer e gostar do blues sem ao menos saber o que é o tango argentino.

  • José Luiz de Jesus disse:

    Lembrando também Caro Ricardo, que Blues é canto triste que retrata as condições e o contesto social do povo negro americano mais especificamente no Sul da America do Norte, o sofrimento e exploração dos brancos sobre este povo escravizado e perseguido.

  • Thiago Teles disse:

    Tem uma análise e cover dessa música (eu tocando ela voz e violão com minha namorada) no meu canal do Youtube (é só ir lá no: youtube.com/cincolinhas).
    Como a obra do Belchior quase em sua integralidade, essa música pode ser interpretada de mais de uma maneira, mas eu gosto mais da interpretação que eu cheguei aí embaixo.
    No caso devemos lembrar que essa é uma canção do disco “Alucinação”, onde Belchior em todas suas canções aborda temas reais, concretos, dos problemas do povo brasileiro, e tem a intenção de acordar as massas dessa “alucinação”, desse delírio acerca de uma falsa realidade criada a partir de um discurso musical romântico que dominava na época da ditadura, em entorpecimento da realidade. Em outras palavras, enquanto a Jovem Guarda cantava sobre um amor norte-americanizado e sobre coisas que destoavam da verdadeira realidade de um povo oprimido pela ditadura, Belchior vinha cantando ‘Como Nossos Pais’, dizendo que “eu sei que o amor é uma coisa boa, mas também sei que qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa” (o que é uma chamada poética para realidade e desconstrução do torpor coletivo).
    “A Palo Seco” vai no mesmo caminho: é uma canção sobre esse momento onde pairava o “fantasma” do Comunismo na América latina e os EUA pra barrar essa influência comunista no seu “quintal”, financiava o surgimento das ditaduras (no Brasil basta pesquisar sobre a “Operação Brother Sam”) e junto disso vinha impondo sua cultura como uma forma de doutrinação política.
    Por isso nessa canção Belchior estava falando com os EUA: “Se você vier me perguntar por onde andei, no tempo em que você SONHAVA” (em referência ao ethos do ‘American Dream’); “De olhos abertos lhe direi: amigo eu me desesperava” (porque enquanto lá nos EUA havia um crescimento econômico, desenvolvimento social que acompanhava o ‘Welfare State’ e tudo o mais, aqui na América Latina, foi uma época de graves crises, fome, desemprego etc.).
    E por isso o Belchior lança diversos ataques que manifestam essa rejeição dele a cultura ianque: ” Sei que assim falando pensas que esse desespero é moda em 76; mas ando mesmo descontente, desesperadamente eu grito em português” (vamos lembrar que pouco tempo antes aconteceu a ‘Marcha contra a Guitarra Elétrica’, então esse ‘desespero’ podia parecer uma ‘modinha’, mas pra Belchior não. E ele ainda dizia ‘eu grito em português’, pra dizer que ele fazia diferente de tantos artistas que começaram a gravar canções em inglês ou, quando não, tinham o péssimo costume da Jovem Guarda de fazer traduções ao invés de compor as próprias músicas com um espírito e cara brasileira).
    Belchior diz: “Tenho vinte e cinco anos de sonho e de sangue e de América do Sul. Por força deste destino, um tango argentino me vai bem melhor que um blues”.
    Acho que isso fala por si só e dispensa explicações.
    Belchior de fato gritava desesperadamente em português, e é como se gritasse: “Alto lá, USA! Para de imposição cultural pro lado de cá, porque aqui no Brasil o pingo é mais embaixo. Nossa realidade é diferente da sua. Enquanto vocês tentam viver um ‘sonho americano’, meu povo sofre e passa fome, eu e meu disco estamos preocupados em falar sobre a realidade, em desconstruir esse monte de ‘ALUCINAÇÃO’ coletiva.”
    De certa maneira, o álbum Alucinação por inteiro é sobre isso.

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