Dois corações

Da idade de doze anos 
José e Maria se amavam 
Mais o véio pai da moça 
Com isso não concordava 
Nas cartas que ele escrevia 
Com tristeza ela contava 
E’ mió nóis dois fugi 
Outro jeito não achava

Combinaram de encontrá 
Na mata do Tombadô 
Maria saiu de casa 
A má sorte acompanhô 
Bem na vorta do caminho 
Uma onça lhe pegô 
Só o seu chalinho branco 
No lugar ali ficô

José conheceu o chalé 
Pela mata foi entrando 
A trança dos seus cabelos 
Na picada foi achando 
Chegou na bera do rio 
Dotro lado foi nadando 
E numa gruta de pedra 
A onça tava esperando

José viu Maria morta 
Dentro da gruta pulô 
Puxô do seu revorve 
Nessa hora ele negô 
arrancô do seu punhá 
e com fera lutô 
e treis corpo ali sem vida 
dentro da gruta ficô

E chegô uns caçadô 
José inda pode falá 
Avise a minha famia 
Que eu não posso mais vortá 
Maria morreu por mim 
Por ela eu devo findá 
Não casemo aqui na terra 
Lá no céu nóis vai morá

Luar do sertão

Não há, ó gente, ó não
Luar como esse do sertão

Ó, que saudade do luar da minha terra
Lá na serra branquejando folhas secas pelo chão
Esse luar cá na cidade tão escuro
Não tem aquela saudade
Do luar lá do sertão

Se a Lua nasce por detrás da verde mata
Mas parece um Sol de prata
Prateando a solidão
E a gente pega a viola que ponteia
E a canção e a Lua cheia
No nascer do coração

Não há, ó gente, ó não
Luar como esse do sertão

Coisa mais bela neste mundo
Não existe
Do que ouvir um galo triste
No sertão se faz luar
Parece até que a alma da Lua é que diz canta
Escondida na garganta
Desse galo a soluçar

Ai quem me dera
Que eu morresse lá na serra
Abraçado a minha terra
E dormindo de uma vez
Ser enterrado numa cova pequenina
Onde a tarde a sururina
Chora a sua viuvez

Não há, ó gente, ó não
Luar como esse do sertão

Moreninha linda

Meu coração tá pisado
Como a flor que murcha e cai
Pisado pelo desprezo
Do amor quando se vai
Deixando a triste lembrança
Adeus para nunca mais

Moreninha linda do meu bem querer
É triste a saudade longe de você

O amor nasce sozinho
Não é preciso plantar
A paixão nasce no peito
Farsidade no olhar
Você nasceu para outro
Eu nasci pra te amar

Moreninha linda do meu bem querer
É triste a saudade longe de você

Eu tenho meu canarinho
Que canta quando me vê
Eu canto por ter tristeza
Canário, por padecer
Da saudade da floresta
Eu, saudades de você

Moreninha linda do meu bem querer
É triste a saudade longe de você

Cortando estradão

Montado a cavalo, cortando o estradão,
Assim é a vida que leva um peão,
Não tenho morada, não tenho rincão,
E não tenho dona no meu coração.

Montar burro bravo, é minha paixão,
Não encontro macho que jogue eu no chão,
Pra jogar um laço, também sou dos bons,
Em qualquer rodeio eu sou campeão !

Ai, como é bom viver sozinho no mundo,
Sem nada pensar,
O Sol vem saindo, eu já vou partindo,
E, quando anoitece, estou noutro lugar,
O Sol vem saindo, eu já vou partindo,
E, quando anoitece, estou noutro lugar.

Se olho no bolso, me falta dinheiro,
Amanso dois burros por trinta cruzeiros !
Se pego o transporte de uma boiada,
Eu sou convidado pra ser boiadeiro.

Ai, como é bom viver sozinho no mundo,
Sem nada pensar,
O Sol vem saindo, eu já vou partindo,
E, quando anoitece, estou noutro lugar,
O Sol vem saindo, eu já vou partindo,
E, quando anoitece, estou noutro lugar.

Se olho no bolso, me falta dinheiro,
Amanso dois burros por trinta cruzeiros !
Se pego o transporte de uma boiada,
Eu sou convidado pra ser boiadeiro.

Chico Mineiro

Cada vez que me “alembro”
Do amigo Chico Mineiro
Das viage que nois fazia
Era ele meu companheiro

Sinto uma tristeza
Uma vontade de chorar
Alembrando daqueles tempos
Que não mais há de voltar

Apesar de eu ser patrão
Eu tinha no coração
O amigo Chico Mineiro
Caboclo bom decidido
Na viola era dolorido e era o peão dos boiadeiro

Hoje porém com tristeza
Recordando das proeza
Da nossa viage motin

Viajemo mais de dez anos
Vendendo boiada e comprando
Por esse rincão sem fim

Caboclo de nada temia
Mas porém, chegou um dia
Que Chico apartou-se de mim

Fizemos a última viagem
Foi lá pro sertão de Goiás
Fui eu e o Chico Mineiro
Também foi o capataz

Viajamos muitos dias
Pra chegar em Ouro Fino
Aonde nós passemo a noite
Numa festa do Divino

A festa tava tão boa
Mas antes não tivesse ido
O Chico foi baleado
Por um homem desconhecido

Larguei de comprar boiada
Mataram meu cumpanheiro
Acabou-se o som da viola
Acabou-se o Chico Mineiro

Despois daquela tragédia
Fiquei mais aborrecido
Não sabia da nossa amizade
Porque nois dois era unido

Quando vi seu documento
Me cortou meu coração
Vim saber que o Chico Mineiro
Era meu legítimo irmão

Tristeza do Jeca

Nestes verso tão singelo
Minha bela, meu amor
Pra você quero contar
O meu sofrer e a minha dor
Eu sou quem nem o sabiá
Quando canta é só tristeza
Desde o gaio onde ele está

Nesta viola eu canto e gemo de verdade
Cada toada representa uma saudade

Eu nasci naquela serra
Num ranchinho beira chão
Tudo cheio de buraco
D’onde a Lua faz clarão
Quando chega a madrugada
Lá no mato a passarada
Principia um baruião

Nesta viola eu canto e gemo de verdade
Cada toada representa uma saudade

Vou parar com a minha viola já não posso mai cantar
Pois o jeca quando canta tem vontade de chorar
O choro que vai caindo
Devagar vai se sumindo, como as água vão pro mar

Nesta viola eu canto e gemo de verdade
Cada toada representa uma saudade