Águas de Março

10 comentários

Tom Jobim

É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol
É peroba do campo,é o nó da madeira
Caingá, candeia, é o MatitaPereira
É madeira de vento, tombo da ribanceira
É o mistério profundo, é o queira ou não queira
É o vento ventando, é o fim da ladeira
É a viga, é o vão, festa da cumeeira
É a chuva chovendo, é conversa ribeira
Das águas de março, é o fim da canseira
É o pé, é o chão, é a marcha estradeira
Passarinho na mão, pedra de atiradeira
É uma ave no céu, é uma ave no chão
É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão
É o fundo do poço, é o fim do caminho
No rosto o desgosto, é um pouco sozinho
É um estrepe, é um prego, é uma ponta, é um ponto, é um pingo pingando, É uma conta, é um conto
É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando
É a luz da manhã, é o tijolo chegando
É a lenha, é o dia, é o fim da picada
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada
É o projeto da casa, é o corpo na cama
É o carro enguiçado, é a lama, é a lama
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um resto de mato,na luz da manhã

São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração

É uma cobra, é um pau, é João, é José
É um espinho na mão, é um corte no pé

São as águas de março fechando o verão,
É a promessa de vida no teu coração

É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã, É um belo horizonte, é uma febre terçã

São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
Pau, pedra, fim, minho
Resto, toco, oco, inho
Aco, vidro, vida, ó, côtche, oste, ace, jó

São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração.


10 comments on “Águas de Março

  1. Zezin disse:

    Dá pra alguém comentar? Quero entender.

  2. Fernanda disse:

    ” Águas de mar “, o titulo já requer uma explicação.. E ao decorrer da música observamos ” É pau, é pedra, é o fim do caminho
    É um resto de toco, é um pouco sozinho
    É um caco de vidro, é a vida, é o sol
    É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol
    É peroba do campo,é o nó da madeira ” … pau, pedra .. caco de vidro.. “coisas” que se encontram no mar.. de outra forma, diz sobre caminho ..
    É uma música um pouco difícil de interpretar .

  3. Rodrigo Paulino disse:

    Águas de Março fala da construção da casa do Tom Jobim na Região Serrana… ele estava sentado em sua varanda e vendo os pedreiros trabalhando na reforma da casa que terrível foi destruída nessa terrível chuva em Janeiro que assolou toda região… A casa era no fim do caminho e relata o dia a dia da construção da mesma… Ao prestarem atenção na letra, vão perceber claramente o que digo… Abraços!

  4. Mari Malheiros disse:

    “Águas de março” fala sobre começo e, principalmente, recomeço. Na letra é possível verificar vários fenômenos naturais e artificiais que ocorrem nesse período do ano. O mês de março é marcado pelo fim do verão e início do outono. Apesar de viver num ambiente urbano, Tom retratou muito bem situações que ocorrem no campo, como “É peroba no campo, é o nó da madeira” “é um sapo, é uma rã, é um resto de mato na luz da manhã”. Também gostei do comentário do Rodrigo sobre ser sobre a construção da casa do Tom (casa nova é sempre começo de algo).

    O verão é a estação das paixões avassaladoras que não duram, com os “amores de carnaval”, é uma estação de festa, de aproveitar, e não de construir. No outono, que se inicia em março, é que a vida retorna a sua habitualidade. Por isso, as chuvas do fim do verão marcam esse recomeço, “é a promessa de vida no teu coração”.

    Ainda, é interessante lembrar, que o sertanejo nordestino acredita que se chover no dia 19 de março, o dia de São José, Pai Adotivo de Cristo, o inverno será de muita fartura. Como já mencionei, Tom vivia numa paisagem urbana e acredito que não tenha tido a intenção de lembrar isso, mas é uma maneira que também podemos interpretar.

  5. João Zaviyalov disse:

    Além de tudo é preciso perceber os elementos românticos e realistas na letra.Chamar Elis Regina para gravá-la com ele não foi por acaso.Tom achava que a música soava melhor se fosse na voz de uma mulher.Após conversas chegou-se ao ponto de os dois gravarem-na.Tanto que nas faixas restantes do disco de 1974 Elis é quem faz os vocais restantes e Tom, somente fica ao piano.Águas de Março pode ser encarada como o recomeço da nova vida de Tom.Já que neste período o Maestro temia morrer de cirrose ou ser esquecido, pois já não fazia tanto sucesso.

  6. marcos disse:

    Essa música é muito complexa mesmo…. mas olhe o trecho e se concordam. Como morei em interior ( infância ) associe logo uma cena corriqueira, avistar um pasarinho, pegar a baladeira e o abater ao chão ….
    Passarinho na mão,
    pedra de atiradeira
    É uma ave no céu,
    é uma ave no chão
    É um regato,
    é uma fonte,
    é um pedaço de pão

  7. marcos disse:

    sa música é muito complexa mesmo…. mas olhe o trecho e se concordam. Como morei em interior ( infância ) associe logo uma cena corriqueira, avistar um pasarinho, pegar a baladeira e o abater ao chão ….
    Passarinho na mão, ( a ave ao alcance)
    pedra de atiradeira ( a baladeira pronta)
     É uma ave no céu, ( estado antes do tiro )
    é uma ave no chão( estado depois do tiro)
    É um regato, ( um laguinho? )
    é uma fonte, ( de água ? )
    é um pedaço de pão ( és a questão, o passarinho virou alimento do atirador ? )

  8. Ildefonso Cunha Neto disse:

    Gente, para mim essa musica é claramente uma referencia a ditadura militar. Pensem comigo:

    ”São as Águas de Março fechando o verão”, lembrem que a ditadura militar foi instaurada em 31 de março, fechando assim as portas para a liberdade de expressão.

    ”É promessa de vida no seu coração” A partir dai, ficou apenas uma promessa de liberdade e vida no coração dos brasileiros oprimidos. Todas essas promessas não estavam na boca das pessoas, mas no coração.

    ”É pau, é pedra, é o fim do caminho” fica claro a referencia da censura, da repressão e do fim da liberdade pelos militares.

    ” Pau, pedra, fim, minho
    Resto, toco, oco, inho
    Aco, vidro, vida, ó, côtche, oste, ace, jó ” – Agora no final fica claro na minha mente uma cena de um protesto reprimido, através de vários fleches de palavras rápidas, sem sentido e oprimidas ao decorrer do verso.

    Há outros versos que me fazem pensar na ditadura. Não sei se essa é realmente a interpretação certa, porém é a que consegui pegar.

  9. Paulo disse:

    Essa letra é igual “AVOHAI” de Zé Ramalho. Só quem a compôs que entende. O comentário do Rodrigo Paulino me convenceu. É aquilo mesmo.

  10. Yuri disse:

    Algumas músicas que ganham uma certa aura de mistério podem possuir um significado mais simples do que parece. Na minha opinião, essa música expõe uma crítica velada e com um ar de sarcasmo às autoridades, devido ao fato das enchentes se repetirem todo ano, vitimando inúmeras pessoas, causando morte e destruição. A música possui uma harmonia e uma levada triviais, ao mesmo tempo em que descreve um cenário de desolação, triste. Um paradoxo. É como se essas tragédias anunciadas tivessem se tornado episódios corriqueiros, triviais, ao ponto de virarem poesia.

    Não esqueçamos que essa música foi feita no contexto do Regime Militar, onde os artistas precisavam usar de toda criatividade para escapar da censura prévia. Sendo essa letra uma crítica, a chance de censura era grande.

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