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Chico Buarque

As Vitrines

Eu te vejo sair por aí
Te avisei que a cidade era um vão
– Dá tua mão
– Olha pra mim
– Não faz assim
– Não vai lá não

Os letreiros a te colorir
Embaraçam a minha visão
Eu te vi suspirar de aflição
E sair da sessão, frouxa de rir

Já te vejo brincando, gostando de ser
Tua sombra a se multiplicar
Nos teus olhos também posso ver
As vitrines te vendo passar

Na galeria, cada clarão
É como um dia depois de outro dia
Abrindo um salão
Passas em exposição
Passas sem ver teu vigia
Catando a poesia
Que entornas no chão

19 respostas em “As Vitrines”

Ele é um observador… (teu vigia) Ela é amada sem saber que o é… Ela é simples e autêntica (frouxa de rir) E ele é encantado…

O eu lírico é o admirador da moça que não o conhece, caso conheça, não sabe que é amada. Chico utiliza sua abilidade inigulável com as palavras para caracterizar os espaços e as acções da moça. Como o eu-lírico diz nos últimos 3 versos, o vigia é apenas o poeta, quem o insipira é sua amada.

Concordo com os amigos que mostraram a sua interpretação.
o diálogo em que o protagonista da historia não é respondido, é como se estivesse falando sozinho, suspirando por ela, sem que ela imagine!

– Dá tua mão…
– Olha pra mim…
– Não faz assim…
– Não vai lá não…

O que faz da música uma obra-prima é a sensibilidade com a qual Chico Buarque
conseguiu captar a imagem e pensamento
do eu lírico. Trata-se do cego pela paixão e a ‘exposição’ de sua musa, mas é a visita ao seu ponto de vista que impressiona
quem interpreta a canção. Que ao ouvir, eu acompanho a passagem dela, e os olhos dele que não piscam e seguem seus passos. Que para ele o
mundo a colore e também a vê andar. Incita-me a vontade de sentar a seu lado e
também observar a aflição do vigia que poetiza o trocar de pernas da mulher.

A impressão que tenho é que o protagonista ama a moça, a tem, mas não tem controle sobre ela. É um caso. Ela é deusa para ele. A imaginação do que sofre por amor atua fortemente, e supõe um brilho da moça que lhe causa perigo e aflição.
A canção é belíssima. Não seu como Chico consegue fazer isto. Suas músicas tem tanto talento quanto seu mau gosto político. Impressionante!

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A IMPRESSÃO QUE DÁ É QUE O PROTAGONISTA AMA (DIFÍCIL NOTAR QUE TIPO DE AMOR: DE PAI OU ADMIRADOR) DESESPERADAMENTE UMA PESSOA QUE ENVEREDOU PELA BUSCA DE “VIDA FÁCIL”, (“…Eu te vejo sumir por aí
Te avisei que a cidade era um vão
Dá tua mão, olha prá mim
Não faz assim, não vá lá, não…”) E QUE APESAR DA AFLIÇÃO COM AS INCERTEZAS DE PRINCIPIANTE NO RAMO, A MESMA, AO SE DEPARAR COM O SUCESSO DOS “PASSEIOS”, LIBERTA ALÍVIO NO SEMBLANTE COM O FINAL FELIZ DOS PROGRAMAS. “…Os letreiros a te colorir
Embaraçam a minha visão
Eu te vi suspirar de aflição
E sair da sessão frouxa de rir
Já te vejo brincando gostando de ser
Tua sombra se multiplicar…”

Asdrubal está correto. As vitrines do shopping, a sessão de cinema, a primeira vez que a filha saiu com um namoradinho. A música é a tradução do ciúme de um pai.

Essa Música é do LP “Almanaque” de 1981 em plena Ditadura Militar, onde na parte interna está escrito “MAGAZINE ANNUAL ILUSTRADO. Anecdotas, Caricaturas, Informações, Charadas, etc.” Na Época Adelaide, a mãe do Julinho, pseudônimo criado pelo autor para driblar a censura, já criava palavras cruzadas para o Jornal do Brasil.
Chico faz uma brincadeira com espelhamento e rebatimento da letra. Por Exemplo:
“Os letreiros a te colorir
Embaraçam a minha visão
Eu te vi suspirar de aflição
E sair da sessão, frouxa de rir”
Viram:
“Ler os letreiros aí troco
Embaçam a visão marinha
Vi tuas fúrias e predileção
Errar sisuda, sã fora de eixos”
Uma clara e divertida manifestação contra a Ditadura Militar.
Lindamente Melódica.

soh quem viveu a época mencionada (1981) poderia dar essa interpretação…. eu imaginava que a letra seria a descrição romântica-subversiva da vida de uma prostituta que vaga pelas madrugadas boêmias do rio de janeiro (os letreiros a te colorir) e a quem chico amava, querendo arrancá-la dessa vida através de súplicas (dá tua mão, olha pra mim, não faz assim, não vai lah não); uma mulher muito bonita que acabou se acostumando à vida mundana, saindo “da sessão, frouxa de rir” e que acaba por viver a vida “um dia, depois de outro dia”

Essa música retrata uma pessoa narcisista em fuga se perdendo a cada momento de si mesma. Algúem tenta chamá-la, trazer de volta a si mesma, à razão, mas o seu narcisismo não permite que isso aconteça. Assim, ela prefere sumir de si própria e da racionalidade e escapa de tudo.

Essa é uma das letras mais misteriosas do Chico, e sei lá.., qualquer opinião, pra mim pode se equivocar. Dizem que fala sobre ele admirando as vitrines das Galeries Lafayette em Paris. Não sei.. Mas é uma combinação letra/música (não consigo dissociar na análise) que transmite profunda espiritualidade e força poética arrebatadora.Acho que é a grande força dela.Coisa de gênio.Mas o Chico também sempre teve o melhor em termos de arranjadores e músicos.

Vi este comentário anonimo em um outro blog e concordo com ele:

“Ela é, na verdade, uma prostituta, trabalha na noite letreiros coloridos que embaraçam a visão.
Sessão é um programa, aflita nos primeiros programas frouxa de rir depois.”

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