Águas de Março

9 comentários

Tom Jobim

É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol
É peroba do campo,é o nó da madeira
Caingá, candeia, é o MatitaPereira
É madeira de vento, tombo da ribanceira
É o mistério profundo, é o queira ou não queira
É o vento ventando, é o fim da ladeira
É a viga, é o vão, festa da cumeeira
É a chuva chovendo, é conversa ribeira
Das águas de março, é o fim da canseira
É o pé, é o chão, é a marcha estradeira
Passarinho na mão, pedra de atiradeira
É uma ave no céu, é uma ave no chão
É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão
É o fundo do poço, é o fim do caminho
No rosto o desgosto, é um pouco sozinho
É um estrepe, é um prego, é uma ponta, é um ponto, é um pingo pingando, É uma conta, é um conto
É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando
É a luz da manhã, é o tijolo chegando
É a lenha, é o dia, é o fim da picada
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada
É o projeto da casa, é o corpo na cama
É o carro enguiçado, é a lama, é a lama
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um resto de mato,na luz da manhã

São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração

É uma cobra, é um pau, é João, é José
É um espinho na mão, é um corte no pé

São as águas de março fechando o verão,
É a promessa de vida no teu coração

É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã, É um belo horizonte, é uma febre terçã

São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
Pau, pedra, fim, minho
Resto, toco, oco, inho
Aco, vidro, vida, ó, côtche, oste, ace, jó

São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração.


9 comments on “Águas de Março

  1. Zezin disse:

    Dá pra alguém comentar? Quero entender.

  2. Fernanda disse:

    ” Águas de mar “, o titulo já requer uma explicação.. E ao decorrer da música observamos ” É pau, é pedra, é o fim do caminho
    É um resto de toco, é um pouco sozinho
    É um caco de vidro, é a vida, é o sol
    É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol
    É peroba do campo,é o nó da madeira ” … pau, pedra .. caco de vidro.. “coisas” que se encontram no mar.. de outra forma, diz sobre caminho ..
    É uma música um pouco difícil de interpretar .

  3. Rodrigo Paulino disse:

    Águas de Março fala da construção da casa do Tom Jobim na Região Serrana… ele estava sentado em sua varanda e vendo os pedreiros trabalhando na reforma da casa que terrível foi destruída nessa terrível chuva em Janeiro que assolou toda região… A casa era no fim do caminho e relata o dia a dia da construção da mesma… Ao prestarem atenção na letra, vão perceber claramente o que digo… Abraços!

  4. Mari Malheiros disse:

    “Águas de março” fala sobre começo e, principalmente, recomeço. Na letra é possível verificar vários fenômenos naturais e artificiais que ocorrem nesse período do ano. O mês de março é marcado pelo fim do verão e início do outono. Apesar de viver num ambiente urbano, Tom retratou muito bem situações que ocorrem no campo, como “É peroba no campo, é o nó da madeira” “é um sapo, é uma rã, é um resto de mato na luz da manhã”. Também gostei do comentário do Rodrigo sobre ser sobre a construção da casa do Tom (casa nova é sempre começo de algo).

    O verão é a estação das paixões avassaladoras que não duram, com os “amores de carnaval”, é uma estação de festa, de aproveitar, e não de construir. No outono, que se inicia em março, é que a vida retorna a sua habitualidade. Por isso, as chuvas do fim do verão marcam esse recomeço, “é a promessa de vida no teu coração”.

    Ainda, é interessante lembrar, que o sertanejo nordestino acredita que se chover no dia 19 de março, o dia de São José, Pai Adotivo de Cristo, o inverno será de muita fartura. Como já mencionei, Tom vivia numa paisagem urbana e acredito que não tenha tido a intenção de lembrar isso, mas é uma maneira que também podemos interpretar.

  5. João Zaviyalov disse:

    Além de tudo é preciso perceber os elementos românticos e realistas na letra.Chamar Elis Regina para gravá-la com ele não foi por acaso.Tom achava que a música soava melhor se fosse na voz de uma mulher.Após conversas chegou-se ao ponto de os dois gravarem-na.Tanto que nas faixas restantes do disco de 1974 Elis é quem faz os vocais restantes e Tom, somente fica ao piano.Águas de Março pode ser encarada como o recomeço da nova vida de Tom.Já que neste período o Maestro temia morrer de cirrose ou ser esquecido, pois já não fazia tanto sucesso.

  6. marcos disse:

    Essa música é muito complexa mesmo…. mas olhe o trecho e se concordam. Como morei em interior ( infância ) associe logo uma cena corriqueira, avistar um pasarinho, pegar a baladeira e o abater ao chão ….
    Passarinho na mão,
    pedra de atiradeira
    É uma ave no céu,
    é uma ave no chão
    É um regato,
    é uma fonte,
    é um pedaço de pão

  7. marcos disse:

    sa música é muito complexa mesmo…. mas olhe o trecho e se concordam. Como morei em interior ( infância ) associe logo uma cena corriqueira, avistar um pasarinho, pegar a baladeira e o abater ao chão ….
    Passarinho na mão, ( a ave ao alcance)
    pedra de atiradeira ( a baladeira pronta)
     É uma ave no céu, ( estado antes do tiro )
    é uma ave no chão( estado depois do tiro)
    É um regato, ( um laguinho? )
    é uma fonte, ( de água ? )
    é um pedaço de pão ( és a questão, o passarinho virou alimento do atirador ? )

  8. Ildefonso Cunha Neto disse:

    Gente, para mim essa musica é claramente uma referencia a ditadura militar. Pensem comigo:

    ”São as Águas de Março fechando o verão”, lembrem que a ditadura militar foi instaurada em 31 de março, fechando assim as portas para a liberdade de expressão.

    ”É promessa de vida no seu coração” A partir dai, ficou apenas uma promessa de liberdade e vida no coração dos brasileiros oprimidos. Todas essas promessas não estavam na boca das pessoas, mas no coração.

    ”É pau, é pedra, é o fim do caminho” fica claro a referencia da censura, da repressão e do fim da liberdade pelos militares.

    ” Pau, pedra, fim, minho
    Resto, toco, oco, inho
    Aco, vidro, vida, ó, côtche, oste, ace, jó ” – Agora no final fica claro na minha mente uma cena de um protesto reprimido, através de vários fleches de palavras rápidas, sem sentido e oprimidas ao decorrer do verso.

    Há outros versos que me fazem pensar na ditadura. Não sei se essa é realmente a interpretação certa, porém é a que consegui pegar.

  9. Paulo disse:

    Essa letra é igual “AVOHAI” de Zé Ramalho. Só quem a compôs que entende. O comentário do Rodrigo Paulino me convenceu. É aquilo mesmo.

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