Super-Heróis

Raul Seixas

Compositor(a) da letra: Raul Seixas e Paulo Coelho

Álbum da letra: GITA

Ano de lançamento: 1974

6 comentários

Hoje é segunda-feira e decretamos feriado
Chamei Dom Paulo Coelho e saímos lado e lado
Lá na esquina da Augusta quando cruza com a Ouvidor
Não é que eu vi o Sílvio Santos
Não é que eu vi o Sílvio Santos
Sorrindo aquele riso franco e puro
Para um filme de terror
Como é que eu posso ler
Se eu não consigo concentrar minha atenção
Se o que me preocupa no banheiro ou no trabalho
É a seleção
(Vê se tem Kung Fu aí em outra estação)

Já na outra esquina
Dei três vivas ao rei Faiçal
O povo confundiu pensando que era o carnaval
Então eu disse a Dom Paulete: eu conheço aquele ali
Não é possível, dom Raulzito
Não é possível, dom Raulzito
Quem que no Brasil não reconhece o grande trunfo do xadrez
Saí pela tangente disfarçando uma possível estupidez
Corri para um cantinho pra dali sacar o lance de mansinho
(Adivinha quem era? Mequinho!)

Lá em Nova York todo mundo é feliz
Vi o Marlon dançando o último tango de Paris
Pedi cerveja e convenci ao garçom do botequim
A não pagar o tal do casco
Ele aceitou, pois sou um astro!
E duma cobertura no Leblon
Quelé acena dando aquela
Enquanto o povo embaixo grita
É o Rei Quelé despenca da janela
É quando, a 120, o Fittipaldi passa e quem ele atropela
(Meu Deus! Mequinho no chão, mais três velas)

Vamos dar viva aos grandes heróis
Vamos em frente, bravos cowboys
Avante! Avante! Super-Heróis
Ai-oh Silver!
Shazan




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6 comentários para a letra “Super-Heróis

  1. Rafael disse:

    A música fala de uma das muitas formas do governo manter a população apática :a utilização de figuras populares para politicagem,ou seja,a mesma coisa que os imperadores romanos faziam quando o país passava por dificuldades:montar um circo para manter a população entretida e afastada da política.ele previu o Brasil do futuro:”Como é que eu posso ler se eu não consigo
    concentrar minha atenção
    Se o que me preocupa no banheiro, ou no trabalho
    é a seleção”
    O futebol no Brasil se tornou um meio tão eficiente de controle da população,que vários países estão tentando importar o espírito brasileiro do futebol para tentar fazer do futebol um esporte nacional.

  2. Fernando R. disse:

    Ele canta Kelé, em lugar de Pelé. Será que rei criou algum caso com o uso do seu nome?
    Agora, aquela do Fitipaldi atropelar o Mequinho (enxadrista brasileiro famoso nos anos 70), aí tem alguma simbologia, de um ícone do esporte sobrepujar um ícone do raciocíno. Será?

  3. Gerson Lopes de Sousa disse:

    pra mim umas das mais inteligentes canções do Raulzito

    meu comentário é basicamente oq o Rafael acima escreveu
    Super Herois Fitipaldi, Rei “kELÉ” NA verdade é o Pelé, Seleção….e simbolicamente o Silvio Santos. Raul era um gênio sem mais

  4. Aroldo Gasparini disse:

    Eu concordo com os outros comentários, só quero completar. A música foi lançada em 1974, mesmo ano que Fitipaldi foi bicampeão mundial na F1 e também mesmo ano que Mequinho foi eliminado do Torneio de Candidatos que era uma eliminatória para o torneio mundial de xadrez. Pode ser isso que Raul quis dizer.

  5. Dorival Martins Jr." disse:

    Lendo pa comentarios anteriores e pesquisando alguns nomes mencionados, realmente podemos dizer que seja uma das músicas mais inteligentes de Raul Seixas. Ele menciona: “Enquanto o povo embaixo grita: É o Rei,Quelé despenca da janela”. Quelé (Clementina de Jesus) foi uma “rainha” do samba. Neta de escravos ela atingiu uma fama tardia tendo uma curta carreira. Portanto, mais uma vez o futebol ofusca a arte, pois enquanto o povo embaixo grita “é o rei” (Pelé é conhecido por essa alcunha), Quelé (cuja fonética é similar) “despenca da janela”. Segundo: “É quando, a 120 (km), o Fittipaldi passa e quem ele atropela? Meu Deus! Mequinho no chão, mais três velas”. Pelé e Fittipaldi ganhavam os holofotes com o futebol e as corridas, enquanto isso Quelé e Mequinho (ícones da arte e do raciocínio) ficavam em segundo plano.
    Raul também menciona o Rei Faiçal. Faiçal da Arábia Saudita foi um monarca soberano em seu país assassinado pelo seu meio-irmão em 1975 (ano da música). Mas “O povo confundiu pensando que era carnaval”. Raul aí poderia apontar que o povo se preocupa mais com o Carnaval e as festas do que com a política e questões de interesse global.
    Após este trecho, ainda na segunda parte da música, é apresentado o que parece ser um diálogo entre Raul e Paulo Coelho, onde, aparentemente, os dois discutem a respeito da identidade de uma figura pública, Mequinho. O fato é, houve um receio a respeito de terem identificado corretamente ou não o enxadrista brasileiro. Como ambos escreveram essa música, é difícil dizer quem o reconheceu e quem duvidou que se tratava de fato de Mequinho. “Quem que no Brasil não reconhece o grande trunfo do xadrez? Saí pela tangente disfarçando uma possível estupidez”. Dizendo ser uma estupidez não reconhecer “um grande trunfo do xadrez”. Afinal, sabemos mais a respeito das fofocas da novela, que de como andam a educação e Cultura no país. Em 2018 muitas pessoas descobriram a existência do Museu Nacional devido às notícias do incêndio ocorrido. Porém até então esse, que era um dos maiores museus da América Latina, era pouco conhecido pela população brasileira.
    Na sequência: “Lá em Nova York todo mundo é feliz. Vi o Marlon dançando o último tango de Paris”. Uma clara referência à Marlon Brando que estrelou o filme “Último tango em Paris (1972)”.

    Enfim. É notável a genialidade desta música que Raul Seixas e Paulo Coelho escreveram. Deixaram claro que os “super-heróis” do povo são os astros midiáticos, que mantém a população distraia enquanto o povo esquece da cultura, da arte, e o mais importante, de pensar, questionar e ter senso crítico. Já que, como a música aponta, o povo se preocupa com futebol, corredores, televisão (Silvio Santos), cinema; mas não com política global, cultura, educação, arte, entre outras coisas que nos fazer ter senso crítico.
    (Dorival Martins Jr.”)

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    • Marcelo disse:

      Genial a música. Excelente retórica sobre a letra. Desconfiava que sim, havia cunho político, como a cultura do pão e circo. Parabéns.