O Meu Guri
Quando, seu moço
Nasceu meu rebento
Não era o momento
Dele rebentar…
Já foi nascendo
Com cara de fome
E eu não tinha nem nome
Prá lhe dar…
Como fui levando
Não sei lhe explicar…
Fui assim levando
Ele a me levar…
E na sua meninice
Ele um dia me disse
Que chegava lá…
Olha aí!
Olha aí!
Olha aí!
Aí o meu guri
Olha aí!
Olha aí!
É o meu guri
E ele chega…
Chega suado
E veloz do batente
E traz sempre um presente
Prá me encabular…
Tanta corrente de ouro
Seu moço
Que haja pescoço
Prá enfiar…
Me trouxe uma bolsa
Já com tudo dentro
Chave, caderneta
Terço e patuá…
Um lenço e uma penca
De documentos
Prá finalmente
Eu me identificar…
Olha aí!
Olha aí!
Aí o meu guri
Olha aí!
Olha aí!
É o meu guri
E ele chega…
Chega no morro
Com o carregamento
Pulseira, cimento
Relógio, pneu, gravador…
Rezo até ele chegar
Cá no alto
Essa onda de assaltos
Está um horror…
Eu consolo ele
Ele me consola…
Boto ele no colo
Prá ele me ninar..
De repente acordo
Olho pro lado
E o danado
Já foi trabalhar
Olha aí!
Olha aí!
Aí o meu guri
Olha aí!
Olha aí!
É o meu guri
E ele chega…
Chega estampado
Manchete, retrato
Com venda nos olhos
Legenda e as iniciais…
Eu não entendo essa gente
Seu moço
Fazendo alvoroço
Demais…
O guri no mato
Acho que tá rindo
Acho que tá lindo
De papo pro ar
Desde o começo
Eu não disse
Seu moço
Ele disse que chegava lá…
Olha aí!
Olha aí!
Olha aí!
Aí o meu guri
Olha aí!
Olha aí
É o meu guri…(3x)
nao sei queria saber
Trata-se de uma linda e critica letra que no caso, o guri, se trata de um ladrao da sociedade.
”Chega no morro
Com o carregamento
Pulseira, cimento
Relógio, pneu, gravador…”
Complementando a análise da Giovanna. O ponto de vista relatado é o da inocente mãe de um bandido. Ela enxerga o filho como um trabalhador que sempre leva “compras” pra casa… Iludida, ela ainda se preocupa com o trajeto do filho, com medo que ele seja assaltado.
No fim ele aparece nos jornais, mas não pelo sucesso como empresário, político, ou qualquer outra coisa que orgulhasse a mãe. E sim como um criminoso.
Ela parece aliviada com sua morte: “Acho que está lindo de papo pro ar”.
Retificando uma afirmação apenas. A mãe do “Guri” não é inocente ou iludida quanto a atividade do filho. Ela cria em sua mente um filho trabalhador, sabendo esta não ser a verdade.
Isso fica claro na reportagem de jornal em que ele é identificado com venda nos olhos, legendas e iniciais. O que indica ser um menor incluso na vida do crime. E é a mãe que, relata tal coisa.
Ela não se espanta ao vê-lo morto, no mato, visto que era de seu conhecimento que, mais dia, menos dia, esse seria o destino de seu filho.
Ele apareceu no jornal mas talvez a mãe não saiba nem ler. Entendo que ela seja iludida justamente por acreditar ser o filho um trabalhador, coisa que ele não é.
A “bolsa já com tudo dentro” seria uma bolsa roubada. A mãe, de tão inocente, que acha que o documento dentro desta bolsa pode ser usado pra sua identificação.
a mãe é inocente. veja a precoupação dela em ele ser assaltado. e quando vê o guri morto, ela pensa que ele finalmente encontrou descando depois de uma vida de tanto trabalho. Veja que ela fala orgulhosa que ele chegaria lá.
A letra também relata mto o valor que as pessoas dão à busca diária da realização pessoal, explicito na letra qdo diz, - Ele um dia me disse que chegava lá.
E acredito que essa inocência da mãe tbm é aparente qdo ela acredita que o sucesso está em aparecer nos jornais, ou seja, estar na mídia, na boca do povo.
Acredito que a censura da época da ditadura obrigava os compositores a terem que se esforçar muito para poderem divulgar sem problemas suas obras, o resultado foram músicas incríveis, como esta.
Na minha opinião a mãe cria uma imagem falsa do filho, pois não quer crer que seja um bandido…
como senpre as maes nao enchergao a verdade
O que deveria estar em questão aqui não é a mãe do guri, mas o descaso social e político a que estão expostas as pessoas de baixa renda. A figura mãe iludida representa a própria sociedade que finge não ver um problema tão explícito e se exime de qualquer responsabilidade, por crianças que adentram ao mundo do crime, adolescentes viciados em drogras e jovens mortos em consequencia de tudo isso. Não está em questão julgar a mãe, mas a própria sociedade omissa, iludida e que não se sente responsável por tantas vidas que são ROUBADAS do nosso convívio. Não se julga no caso a Mãe do Guri, mas a cada um de nós que prefere desviar o assunto e culpar “as mães” à assumir sua própria culpa.
Simplesmente Chico Buarque, o maior letrista do Brasil, junto com Noel Rosa, interpreta de forma brilhante um momento atual (sempre atual) de uma realizade brasileira. Atentem que a canção é de 1981 e decorridos 28 anos, parece que fala de um momento de 2009. Somente um gênio criativo como Chico pode eternizar numa canção (dentre tantas canções de sua lavra) um momento como esse. Chico, parabéns por nos encantar nos últimos 40 anos de nossas vidas.
Esiopoeta@gmail.com
A mãe representa a sociedade que fecha os olhos para os seus problemas.
Exatamente, Chico que expressar o pouco caso que a sociedade faz com as crianças desse país, as quais encaramos todos os dias nos faróis, perambulando nas ruas e já aceitamos e assumimos o fim delas: “eu não disse que ele chegava lá”. Já sabemos que serão futuros marginais e nos mantemos inertes: “olha aí”. Só olhamos mesmo, não fazemos nada.