O carnaval e a máscara simbolizam a suspensão temporária das hierarquias sociais (a "carnavalização" teorizada por Mikhail Bakhtin), onde o trabalhador pobre veste-se de rei por três dias, e o paradoxo brasileiro entre a euforia da avenida e a melancolia da Quarta-Feira de Cinzas.
📜 LINHAGEM LITERÁRIA & MUSICAL
Do poema "Carnaval" de Manuel Bandeira e das marchinhas de Noel Rosa e Lamartine Babo a Vinicius de Moraes e Tom Jobim ("A Felicidade": "Tristeza não tem fim, felicidade sim"), Chico Buarque ("Noite dos Mascarados", "Vai Passar") e Caetano Veloso ("Atrás do Trio Elétrico").
🎯 CHAVE DE LEITURA PARA O ENEM & VESTIBULARES
Nas questões sobre Carnaval na literatura e na MPB, destaque a antítese entre a fantasia coletiva de três dias e a dura realidade socioeconômica que retorna na Quarta-Feira de Cinzas.
“Vai passar / Nessa avenida um samba popular / Cada paralelepípedo da velha cidade essa noite vai se arrepiar”
Vai Passar — Chico Buarque (1984) →
“A minha gente sofrida / Despediu-se da dor / Pra ver a banda passar”
A Banda — Chico Buarque (1966) →
“Com que roupa eu vou / Pro samba que você me convidou?”
Com Que Roupa — Noel Rosa (1930) →
“Alguma coisa acontece / No meu coração”
“(Crescendo) Amanhã vai ser outro día x 3 / Hoje você é quem manda”
“Sobre a cabeça os aviões / Sob os meus pés, os caminhões”
“Fonte de mel / Nos olhos de gueixa”
“Tem certos dias / Em que eu penso em minha gente”
“Não é por estar na sua presença / Meu prezado rapaz”
“O que será que me dá / Que me bole por dentro, será que me dá”
“Caminhando contra o vento / Sem lenço e sem documento”
“Tem dias que a gente se sente / Como quem partiu ou morreu”
“Quando eu me encontrava preso na cela de uma cadeia / Foi que vi pela primeira vez as tais fotografias”
“Me larga, não enche / Você não entende nada”
“Estava a toa na vida / O meu amor me chamou”
“Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir / A certidão pra nascer, e a concessão pra sorrir”
“Eu hoje fiz um samba bem pra frente / Dizendo realmente o que é que eu acho”
“Olho para o céu / Tantas estrelas dizendo da imensidão”
“Eu fui fazer um samba em homenagem / à nata da malandragem, que conheço de outros carnavais.”
“Essa moça tá diferente / Já não me conhece mais”
“De tudo que é nego torto / Do mangue e do cais do porto”
“Mirem-se no exemplo / Daquelas mulheres de Atenas”
“Quando, seu moço, nasceu meu rebento / Não era o momento dele rebentar”
“Pai, afasta de mim esse cálice / Pai, afasta de mim esse cálice”
“Agora eu era o herói / E o meu cavalo só falava inglês”
“Ainda é cedo amor / Mal começaste a conhecer a vida”
“Preciso não dormir / Até se consumar”
Composta para a peça "Orfeu da Conceição" e o filme "Orfeu Negro", a letra revela a dimensão trágica e sublime do Carnaval: "O povo trabalha o ano inteiro / Por um momento de sonho / Pra fazer a fantasia / De rei ou de pirata ou jardineira / E tudo se acabar na quarta-feira".
Composta durante a campanha das Diretas Já, "Vai Passar" usa a passagem de uma escola de samba pelos paralelepípedos do Rio de Janeiro como alegoria da história do Brasil superando a "página infeliz da nossa história" (a ditadura).
É o processo artístico pelo qual a cultura popular subverte a seriedade oficial através do riso, da paródia, da mistura de classes na rua e da coroação simbólica dos marginalizados.