"Essa música me acompanha desde criança. Me lembro de tê-la escutado e, mesmo sem entender o que era dito, me tocava profundamente.
Na pré adolescência, eu a ouvia e o sentimento era o mesmo de não entendimento, porque ainda não conhecia o amor romântico, mas de compreensão profunda que me levava a chorar mesmo ouvindo repetidas vezes. Chorava em todas as vezes e depois de tanto ouvir e tanto chorar me sentia como um copo vazio mas cheio de paz. Era eu ainda muito ingênua. A inocência infantil.
Daí com 17 anos me apaixonei pela primeira vez e, desde o início, intuitivamente, sabia que não seria eterno como de fato não foi. Ganhei do namorado um CD (época dos cds kkkkk) do Chico Buarque vestido com uma casaco estilo Dick tracy. Meu namorado sabia que eu adorava essa música, mas só a tinha no vinil então não dava pra ouvir no carro (uno mille vermelho cintilante). Daí ele me deu o cd e ouvíamos essa música repetidas vezes. Sempre tive essa mania de ouvir várias vezes a mesma música. Enfim, namoramos quase 2 anos, mas o amor começou a cair doente já ao final do primeiro ano. Tínhamos uma diferença de idade relevante à época, eu 17 e ele, 12 anos mais velho, ou seja 29 anos quando iniciamos o namoro. No início, havia muito encantamento da minha parte com certeza. A presença dele me dava segurança que eu nunca havia experimentado e nossa conexão parecia mágica, ao menos pra mim, ainda muito ingênua.
Durante alguns anos após o término que ocorreu por eu haver percebido da parte dele uma perda significativa do interesse no relacionamento, de forma imatura, talvez, decidi terminar a fim de não perder as memórias iniciais que eram tão boas. Talvez o amor só estivesse mudando e eu não me adaptei e assim terminei na esperança de que, assim fazendo antes de começarem os desentendimentos, em algum tempo haveria o retorno pq acreditava que havia verdade naquilo.
Passados 2 anos nos reencontramos: ele estava namorando, mas foi me procurar sabe lá Deus pra quê?! Rs
Eu também tinha acabado de iniciar um namoro e, por isso, nada aconteceu e eu cheguei a questioná-lo se seria adequado ele me procurar quando já estava em outro relacionamento... nunca mais o vi.
Sinceramente, acho que nunca mais o verei.
Hoje entendo como funciona a mente de um homem e quão distinta é da de uma mulher.
Então, aos 42 anos, essa música é compreendida por mim como o amor que só os inocentes são capazes de sentir, primeiro na fase da inocência infantil (ingenuidade). Depois, essa capacidade de amor é perdida pelas desilusões (processo necessário e natural na vida) e, consequentemente, pela perda da inocência e a vida se tornando dura porque nos tornamos rígidos para defender nossos sentimentos sem perceber que essa defesa já os retira de nós quando são eles, os sentimentos que lubrificam a engrenagem da vida. Mas, com o tempo, surge a necessidade de se desfazer do ego construído/forjado pela necessidade de sobrevivência (que também é uma ilusão que tem origem no medo de se ferir) na vida real, porque a necessidade de retornar à inocência parece a única saída de uma vida que se torna mesquinha por tanta casca de proteção. Difícil arrancar cada casca, cada camada, mas chega um tempo -o da delicadeza - em que se retorna à origem da inocência e assim o sentimento do amor é novamente possível, mas desta vez de forma consciente e, não mais, por meio da inocência ignorante de uma criançaa qual não retorna mais. Volta-se a ser poroso, penetrável e vulnerável, sem que isso signifique uma exposição a riscos, mas ao contrário, um sinal de que crescemos e hoje somos fortes a ponto de poder amar com o significado mais amplo da palavra amor que não necessariamente precisa estar direcionado a algo ou alguém, mas que existe em nós por si mesmo e já basta. O que vier ou retornar só se for para somar.
Então, no final das contas essa música na minha humilde interpretação atual nada mais é do que o reencontro do meu ego com o meu verdadeiro eu que, unidos, me proporcionam uma caminhada suave e delicada pela vida que retorna ao encantamento e ao estado de presença dos tempos infantis, só que de uma forma consciente.
Mas, daqui a mais 42 anos, certamente, minha interpretação já terá mudado...."
M
Monica Giudice
21 Nov, 2022
"Essa canção retrata a trajetória revestida das várias nuances que o sentimento do amor apresenta com a passagem do tempo e das circunstâncias.
Duas pessoas, em algum momento da vida, encontram-se e e por esses mistérios da vida, percebem uma sintonia imediata, e consequente nascimento do amor.
Como todo início, este encontro de vidas, de almas, quiça, é marcado pelo desejo de vivenciar com calma e dedicação todas as possibilidades junto à pessoa amada. Existe uma preocupação de conhecer o outro/a com todo o cuidado de quem, sem pressa, deseja explorar as sensações, a anatomia, os detalhes, conhecendo cada pedacinho do outro. Ao mesmo tempo, existe a vontade de não perder nenhum segundo sequer, para que essa experiência sensorial, amorosa, cuidadosa, seja explorada com a plenitude e intensidade do desejo visceral e sensual.
O segundo momento, aponta que a intensidade e a urgência vai arrefecendo e o amante se compromete a reavivar, buscando na essência que um dia os uniu, a motivação para reavivar e manter o cultivar do sentimento. E promete fazer isso até o momento em que, percebendo o amor já adoecido pela incapacidade de ambos se entenderem, a fim de evitar que aquela linda base se dissolva, decide partir.
Então, no momento em que as mágoas, as máculas, as mazelas, não mais fizerem sentido diante da preciosidade que aquele amor encerra e significa, se consolida a promessa da retomada da proximidade no tempo permeado pela delicadeza, em que prevalece o vínculo inabalável do amor-amigo, do amor-zelo, dos pequeninos carinhos e atenções que alimentam e consolidam o amor, o sexo, o convívio, a vida. O amor verdadeiro, em todas as suas acepções, prevalece.
Neste momento, acontece o verdadeiro comprometimento porque aquele amor raro e precioso sobreviveu a todos os dissabores, para, então, ser vivido em toda a sua completude.
Quem não quer um amor assim?"