Palavra intraduzível da língua portuguesa, a saudade articula a dor da distância e o prazer de recordar quem ou o que se ama, desdobrando-se na tradição brasileira das "Canções do Exílio" — do estudante romântico em Coimbra aos artistas exilados em Londres nos anos 1970.
📜 LINHAGEM LITERÁRIA & MUSICAL
De Gonçalves Dias ("Canção do Exílio", 1843), Casimiro de Abreu e Oswald de Andrade ("Canto de Regresso à Pátria", 1925) a Tom Jobim e Vinicius ("Chega de Saudade", 1958), Caetano Veloso ("London, London" / "Terra"), Gilberto Gil ("Back in Bahia") e Belchior.
🎯 CHAVE DE LEITURA PARA O ENEM & VESTIBULARES
O ENEM cobra com altíssima frequência a rede intertextual da "Canção do Exílio": compare o nacionalismo idealizado de Gonçalves Dias com a crítica irônica de Oswald de Andrade, Murilo Mendes, Drummond e Chico Buarque.
“Não permita Deus que eu morra, / Sem que eu volte para lá”
Canção do Exílio — Gonçalves Dias (1843) →
“Vai minha tristeza e diz a ela / Que sem ela não pode ser / Diz-lhe numa prece que ela regresse”
Chega de Saudade — Tom Jobim (1958) →
“Não quero lhe falar, meu grande amor / Das coisas que aprendi nos discos”
Como Nossos Pais — Elis Regina (1976) →
“Não quero lhe falar meu grande amor das coisas que aprendi nos discos / Quero lhe contar como eu vivi e tudo o que aconteceu comigo”
“Oi, coração / Não dá pra falar muito não”
“Quando eu me encontrava preso na cela de uma cadeia / Foi que vi pela primeira vez as tais fotografias”
“Um dia a areia branca / Seus pés irão tocar”
“Oh, musa do meu fado / Oh, minha mãe gentil”
“O que será que me dá / Que me bole por dentro, será que me dá”
“Tem dias que a gente se sente / Como quem partiu ou morreu”
“Se eu quiser falar com Deus / Tenho que ficar a sós”
“A novidade / Que tem no Brejo da Cruz”
“Como num romance / O homem dos meus sonhos”
“Estava a toa na vida / O meu amor me chamou”
“Quando olhaste bem nos olhos meus / E o teu olhar era de adeus”
“Alô, alô, marciano / Aqui quem fala é da Terra”
“Ele sabe dos caminhos dessa minha terra / No meu corpo se escondeu, minhas matas percorreu”
“Eu sei que vou te amar / Por toda a minha vida”
“De tudo que é nego torto / Do mangue e do cais do porto”
“Mirem-se no exemplo / Daquelas mulheres de Atenas”
“Quando, seu moço, nasceu meu rebento / Não era o momento dele rebentar”
“Pai, afasta de mim esse cálice / Pai, afasta de mim esse cálice”
“Caminhando contra o vento / Sem lenço e sem documento”
“Agora eu era o herói / E o meu cavalo só falava inglês”
“Alguma coisa acontece / No meu coração”
“Preciso não dormir / Até se consumar”
“Amou daquela vez / Como se fosse a última”
Desde as cantigas de amigo trovadorescas e o Renascimento português, "saudade" sintetiza em um único vocábulo o sentimento agridoce de falta amorosa, distância geográfica e fidelidade da memória.
Destacam-se "Sabiá" (Chico Buarque & Tom Jobim), "Sampa" e "London, London" (Caetano Veloso), "Back in Bahia" e "Aquele Abraço" (Gilberto Gil) e "O Bêbado e a Equilibrista" (João Bosco & Aldir Blanc, imortalizada por Elis Regina).
Logo no primeiro verso ("Vai, minha tristeza, e diz a ela..."), o eu lírico transforma a própria tristeza em mensageira amorosa, pedindo o regresso da amada porque "há menos peixinhos a nadar no mar" do que os beijos que ele quer dar.