"A letra desta canção, criada na época da ditadura militar, descreve o desencanto do cantador, que pretende realizar algo, mas é interrompido no seu ato de expressão pela roda-viva que derruba tal realização ("Carrega a viola pra lá").
A letra se inicia com a mais completa desilusão: "Tem dias que a gente se sente/ como quem partiu ou morreu", em que o crescimento do mundo implica na atrofia do indivíduo ("A gente estancou de repente/ ou foi o mundo, então, que cresceu"). E continua entre a vontade do sujeito de decidir seu destino, e a oposição da roda-viva que não permite a concretização daquela vontade ("A gente quer ter voz ativa/ no nosso destino mandar/ mas eis que chega a roda-viva/ e carrega o destino pra lá"). O refrão nos remete às cantigas de roda, porém quebra toda a inocência por meio da devora do tempo que em sua efemeridade perturba até o "coração", centro emotivo do ser ("Roda mundo, roda-gigante/ roda-moinho, roda pião/ o tempo rodou num instante/ nas voltas do meu coração"). Nesses versos há aceleração do ritmo,representando, dessa maneira, o rodar. Na 2ª estrofe aparece a tentativa de resistir ("A gente vai contra a corrente/ até não poder resistir"). Ir contra a corrente para lutar e construir, traçar objetivos. A volta do barco pode referir às pessoas ligadas à luta contra a ditadura, mas que não puderam concretizar o que desejavam ("Na volta do barco é que sente/ o quanto deixou de cumprir"). Tem-se a vontade de embelezar (ou mudar) o mundo, representada pela imagem de "cultivar roseiras", porém mais uma vez chega a roda-viva e destroi a roseira: ("Mas eis que chega a roda-viva e carrega a roseira para lá") derrubando mais um objetivo traçado. Lembre-se que a rosa é a flor-símbolo do socialismo. A roda-viva acabou também com a sensualidade, do remelexo da mulata - símbolo da miscigenação e do carnaval - que não consegue dançar rodando sua saia ("A roda da saia, a mulata/ não quer mais rodar, não senhor"). Não há nem a possibilidade se fazer serenata nem de sambar, pois a roda-viva influi em outras rodas ("Não posso fazer serenata/ a roda de samba acabou". Assim, a roda-viva impede que haja canto, alegria, dança, carnaval, samba. Chico Buarque faz menção ao canto simbolizado pela viola, que também a roda-viva lhe tira para que não cante ("A gente quer ter voz ativa/ viola na rua a cantar/ mas eis que chega a roda-viva/ e carrega a viola para lá"). Tudo que tem relação com a música é destruído, censurado usando para isso a imagem da fogueira que queima tudo: ("O samba, a viola, a roseira/ Um dia a fogueira queimou"). Tudo não passou de ilusão dissolvida pela brisa ("Foi tudo ilusão passageira/ Que a brisa primeira levou"). Por fim, o mais doloroso e grave, é que até mesmo a saudade é levada pela roda-viva que assim impede o indivíduo de preservar a própria memória ("No peito a saudade cativa/ faz força pro tempo parar/ mas eis que chega a roda-viva/ e carrega a saudade pra lá").
Essa letra sem alegria, ânimo, sem esperança, sem crença até parece que prevê a futura edição do Ato Institucional Nº5, que iniciou os "Anos de chumbo", o período mais obacuro da história recente do Brasil.
A letra de "Roda Viva" possibilita várias interpretações. Para uns a "roda-viva" é a representação do próprio governo militar. Sendo assim, a letra denuncia a repressão, a censura e o autoritarismo implantados no país pelos militares. Para outros, a roda viva representa a indústria cultural, show business, portanto, configurando-se como uma crítica à manipulação da arte pela comercialização e a luta em vão do artista contra isto: ("A gente quer ter voz ativa/ No nosso destino mandar/ Mas eis que chega a roda-viva/ E carrega o destino pra lá"). De qualquer modo, "roda viva" indica sempre a impotência, a situação de estar-se submetido a um poder maior, mais forte do que nossa vontade."
"A canção Roda-viva, de Chico Buarque faz parte da famosíssima peça de mesmo nome, escrita em 1967 e que, um ano depois, sob a direção de José Celso Martinez Corrêa, recebeu montagem à altura, no teatro Oficina. Chico Buarque, que até então era "a única unanimidade brasileira", nas palavras de Millôr Fernandes, chocou parte de seu público com a radicalidade crítica e o tom francamente agressivo da peça.
Mas vamos à letra Roda-viva: ela tem um chão histórico específico, ou seja, os obscuros anos da ditadura. É desse tempo que ela data e é o que esse tempo representou para a experiência brasileira que ela aborda e cifra. Eu falei em "cifra"? Sim, a palavra cifra tem, além da acepção comercial que conhecemos, o sentido de explicação de escrita hermética, enigmática, e, por extensão, passa a significar essa própria escrita. Decifrar é justamente tirar a cifra, tornar o texto claro, interpretá-lo. Como dissemos, a composição de Chico se originou em meio ao turbilhão da instauração da ditadura militar no Brasil. Ditadura que representava, para a cultura, simplesmente o fim da liberdade de expressão. Um meio muito utilizado na época (e, de um modo geral, em períodos não democráticos, no Brasil e em outros países) para driblar a censura foi a metáfora, o despistamento, a linguagem figurada, a cifra. Alguns escritores e jornalistas falavam aparentemente de flores e rouxinóis, quando estavam se referindo à situação político-social brasileira.
O que é roda-viva? Roda-viva é, conforme os dicionários, movimento incessante, corrupio, cortado; é ainda confusão, barulho. O texto menciona ações frustradas pela roda-viva.
Na letra a roda-viva está associada à morte, ao contrário do que indica a palavra. A roda ceifa, arranca aquilo que ainda está em desenvolvimento: a gente estancou de repente. A gente parou (de crescer) de repente. Note-se como é expressivo o uso de estancar, que nos faz lembrar imediatamente de sangue. Somos abortados na capacidade de decidir o próprio destino, de adquirir autonomia como um rio é barrado, como um fluxo de sangue é estagnado.
Essa espécie de vendaval arrebata a voz, o destino das pessoas e a capacidade de exprimir artisticamente seu sofrimento:arrebata-lhes ainda a viola . A roda-viva arrebata da gente a roseira há tanto cultivada e que não teve tempo de exibir tudo o que prometia.
A composição é cortada por dois movimentos: um expressa a ação empenhada, o trabalho sistemático, o desejo de ser o sujeito da própria história. A esse movimento pertence o querer ter voz ativa, o ir contra a corrente (da roda-viva), o cultivo ininterrupto da rosa, o tocar viola na rua e a saudade de tudo isso (na medida em que a saudade pode ajudar a reorganizar o pensamento e a luta). O outro movimento expressa a ação abortiva exercida pela roda-viva. Esse movimento vem expresso numa frase reiterada: "Mas eis que chega a roda-viva e carrega (o que quer que seja) pra lá". A conjunção "mas" sinaliza justamente essa mudança de direção, sinaliza ação adversa. A frase "eis que chega..." vem sempre ligada na letra a um tipo de estribilho, a uma fórmula aparentemente ingênua, que lembra as cantigas de roda: "roda mundo, roda gigante/ roda-moinho, roda pião/ o tempo rodou num instante nas voltas do meu coração". Essa fórmula, inocente na aparência, dado seu teor caótico e quase surrealista (típico de enigmas, cantigas de ninar etc.) e a referência a brinquedos infantis (roda-gigante, pião), tem o efeito de exprimir um desnorteio, uma situação absurda, fora do esquadro. De fato, não é possível conceber a ditadura como algo natural. Ela não pertence à ordem da razão.
Esses movimentos descritos na letra são, portanto, de trabalho em curso e de sucessiva frustração. Isso descreve muito a experiência brasileira, tanto do ponto de vista social e político como do ponto de vista cultural. Quando estávamos começando a engatinhar na democracia, é instalado o regime totalitário, para o qual não existem indivíduos. Sufoca-se até a saudade (já cativa) de outros tempos.
Mas esse ambiente de tanto mal-estar foi filtrado por Chico Buarque com muita cautela: era preciso despistar a censura, daí a profusão de rodas e de versos encantatórios; era preciso dizer a verdade, daí o tumulto e a sensação de frustração advinda da mesma profusão de rodas, que diríamos serem antes de trator."