I
Ismael Bastos
18 Jun, 2014
"A música “Homenagem ao malandro” de autoria de Chico Buarque faz parte da peça teatral escrita por ele mesmo (Chico Buarque) denominada “Ópera do Malandro”, executada em 1978.
Na análise desta música, vou dividi-la em três partes:
1ª parte
Eu fui fazer um samba em homenagem
à nata da malandragem,
que conheço de outros carnavais.
Eu fui à Lapa e perdi a viagem,
que aquela tal malandragem
não existe mais.
Aqui, Chico começa contando a história de um cara que vai tentar relembrar os velhos tempos e encontrar seus velhos amigos no Bairro da Lapa, bairro que na primeira metade do Século XX era o ponto de encontro dos “malandros”.
O malandro no qual Chico Buarque se refere era o típico homem boêmio e mulherengo que freqüentava as noites no Bairro da Lapa no Rio de Janeiro que adorava uma “cachaça”, mulheres, o samba e era dado a cometer alguns “trambiques”. Era um típico homem de modos do “jeitinho brasileiro”.
Chico vai à Lapa e não encontra aquela turma de malandros que parece não existir mais, quando ele diz na canção – “Eu fui à Lapa e perdi a viagem, que aquela tal malandragem não existe mais.” Aí ele percebe que neste espaço geográfico, há uma nova configuração nos modos e nos costumes, e que na verdade a mudança não está no fato de que não exista mais malandragem e sim por que o tipo de malandragem agora é outro, como poderemos ver na próxima parte.
2ª parte.
Agora já não é normal,
o que dá de malandro regular profissional,
malandro com o aparato de malandro oficial,
malandro candidato a malandro federal,
malandro com retrato na coluna social;
malandro com contrato, com gravata e capital,
que nunca se dá mal.
Agora aqui nessa parte, ele desenvolve o enredo sobre essa mudança comportamental dos malandros, onde além dos trajes, os costumes também mudaram, tendo então agora o malandro uma postura que poderíamos dizer de certa forma mais “socialmente aceito”, tendo um papel aparentemente mais responsável e mais sóbrio que o malandro de outrora.
Mas como aplicar essa comparação para o ensino da geografia para alunos do 2º e/ou 3º ano do ensino médio?
É que o capitalismo trouxe consigo uma forma de transformação radical na sociedade e em quase todo o mundo, e que por trás dessa aparente sobriedade, e dessa aparente imagem que causa o respeito e a admiração que as pessoas no geral nutrem por aquelas que comandam a situação e tem o poder em suas mãos, há muitas malandragens enrustidas.
Poderíamos comparar as situações lembrando que o Brasil até os anos 30 era muito pouco industrializado e que possuía um mero papel de abastecer o mercado mundial com produtos da produção primária, posição característica dos países recém-descolonizados na divisão internacional do trabalho. A partir do momento em que o Brasil entra na era industrial, uma nova ordem se estabelece, e onde podemos dizer que essa nova malandragem recebe um caráter mais institucional, quando o Chico diz – “o que dá de malandro regular profissional, malandro com o aparato de malandro oficial”. Esse aparato de malandro oficial pode muito bem ser relacionada com o que Marx denominou no capítulo XXIV do Capital, onde ele aborda sobre a acumulação primitiva do capital, que foi obtida num primeiro momento através da rapinagem e da exploração de uma quantidade grande de pessoas.
O modo de produção capitalista como dito acima tende a conformar os modos e os costumes e a configurar o espaço inserido neste modelo de sociedade, tanto que a imagem se torna um fator de extrema importância como neste trecho: “malandro candidato a malandro federal, malandro com retrato na coluna social” – fazendo referências às pessoas que almejam adentrar na classe política e para a conquista desse objetivo vemos os candidatos a cargos eletivos praticando aqueles atos que todo político clássico faz em períodos eleitorais que é cumprimentar o povo nas ruas, comer pastel na feira, abraçar as senhoras donas de casa, beijar criancinhas, etc.. Temos também, os membros da alta classe em seus belos trajes e as mulheres com seus belos vestidos e jóias deslumbrantes posando para fotos que são divulgadas para o público em geral que fica enamorado por esse modo de viver, e que dessa forma o povo acaba reproduzindo mesmo sem condições para tal, esse modelo de vida que desperta o seu desejo platônico.
No trecho: “malandro com contrato, com gravata e capital, que nunca se dá mal”, entramos aí no empresariado que controla não só seus subalternos em suas fábricas, mas também, a vida na sociedade ao redor, pois ele (o empresariado) está no comando da situação e sempre cria mecanismos que satisfaçam os seus interesses, pois além de submeter o proletariado, também controla o Estado, este (o Estado) que acaba instituindo políticas que em sua maior medida, institucionaliza a divisão de classes que favorecem a burguesia.
Para finalizar a segunda parte, podemos afirmar segundo Chico Buarque nesta canção que a malandragem na sociedade capitalista é muito presa à imagem de pessoas que possuem alguns vícios, não gostam muito de trabalhar, não levam relacionamentos amorosos muito a sério, praticam algumas contravenções, não sendo considerada malandragem pelo senso comum as práticas de exploração do trabalho, as arbitrariedades repressivas do Estado, as sabotagens competitivas do mercado, etc..
3ª parte
Mas o malandro para valer, não espalha,
aposentou a navalha,
tem mulher e filho e tralha e tal.
Dizem as más línguas que ele até trabalha,
Mora lá longe chacoalha,
no trem da central
Como já foi dito neste trabalho, o modo de produção capitalista re-configura os modos de vida, tanto que o malandro de outrora acaba deixando de lado os seus costumes antigos de farra, samba, mulher, cerveja e futebol e acaba entrando no mercado de trabalho por conta das suas necessidades vitais e também por conta das novas necessidades que este modo de vida acaba impondo a ele. Ou seja, ele acaba se “proletarizando”, e como o seu salário só permite que ele satisfaça em sua maior parte, as suas necessidades mais imediatas, ele acaba tendo que morar na periferia, como diz neste último trecho da música: “dizem as más línguas que ele até trabalha, mora lá longe e chacoalha no trem da Central.”"