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Edson Matosinho
28 Maio, 2015
"Coluna do professor Pasquale
Terminei o texto da semana passada com uma referência a esta passagem de "Sampa", de Caetano Veloso: "Alguma coisa acontece no meu coração ("¦) / É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi da dura poesia concreta das tuas esquinas...". Perguntei ao leitor o que entende (além do óbvio) da passagem "da dura poesia concreta das tuas esquinas". Para "ajudar", lembrei que a capital paulista é o berço de um movimento artístico importante.
Pois bem. Que movimento é esse? É justamente o "concretismo" ("...a dura poesia concreta..."), engendrado em São Paulo na década de 40 por Haroldo e Augusto de Campos, Décio Pignatari, José Lino Grünewald, entre outros. No concretismo, a arte materializa (concretiza) visualmente o que expressa, por meio de diversos recursos. Na poesia concreta, o texto não se vale da palavra só como elemento de significado; vale-se dela como elemento também imagético, sonoro, ideogramático, ideográfico. No concretismo, enfim, a palavra é um "tijolo", que participa da construção de uma mensagem visual, sonora, transmitida por uma sintaxe ideogramática.
Vamos traduzir isso com um exemplo concreto (perdão pelo trocadilho), o poema "Beba Coca-Cola", do grande Mestre Décio Pignatari:
Reprodução
Leia de novo, com toda a atenção do mundo, para não se deixar levar pelo piloto automático, isto é, para não ler "beba" onde está escrito "babe", por exemplo. Note a importância do visual e do sonoro para a composição da mensagem do poema, que desemboca no estranhamento causado por "cloaca", palavra que contém os fonemas presentes em "cola", em "coca" e em "caco". Se o leitor não sabe o que é "cloaca", vale a pena ir a um dicionário.
Na letra de "Sampa", ao se referir à poesia concreta, Caetano reitera a importância dessa estética na sua produção e na de outros grandes nomes da poesia musical brasileira, como Gilberto Gil, Walter Franco, Jorge Portugal, Paulo Leminski, Arnaldo Antunes, entre outros. Muitas das letras desses nossos grandes autores devem ser ouvidas com o texto nas mãos, para que a poesia seja não só ouvida, mas também vista.
Por que será que em "Sampa" Caetano escreveu "Eu vejo surgir teus poetas de campos e espaços / Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva"? "Campos" aí é uma referência direta aos irmãos Campos (Haroldo e Augusto), dois dos pais da poesia concreta brasileira. Em "tuas oficinas de florestas", é preciso levar em conta a elipse do verbo: "(vejo surgir) tuas oficinas de florestas", ou seja, as oficinas (= industrialização) surgem das florestas, mas... Mas com "oficinas" Caetano faz referência a um dos mais importantes centros de cultura de São Paulo e do Brasil, o teatro Oficina, fundado em 1958.
E lá vou eu repetir o que já disse aqui inúmeras vezes: a (boa) leitura vai muito além da mera decodificação dos caracteres, letras, palavras etc. É preciso perceber o texto no contexto, o que implica conhecer os assuntos dos quais o texto fala e, consequentemente, conhecer também os textos com os quais ele dialoga. Letra de música não é só um blá-blá-blá para preencher a melodia, sobretudo no caso da (boa) música brasileira, em que as letras muitas vezes são verdadeiras obras-primas. É isso."
S
Sérgio Darwich
12 Fev, 2013
"A primeira vez que ouvi e vi Caetano Veloso cantar Sampa foi na tv, num especial sobre ele, o Caetano, realizado pela tv Bandeirantes, de São Paulo. Me emocionei muito ao ouvir este sama-choro de grande beleza e profundidade poética. Ele traduziu o que é São Paulo de forma precisa, elegante e crítica. Há, no entanto, paulistanos/paulistas burros e de direita, conservadores e cegos, (como há também nordestinos, cariocas, mineiros, gaúchos, paraenses e paranaenses burros, cegos e de direita, pois só entendem o que é bom aquilo que é elogioso e que adere sem críticas e sem alguma pessoalidade aquilo que diz que lhe pertence, como a cidade de São Paulo - que não pertence a ninguém, pois é uma cidade do mundo. Morei por 17 anos em São Paulo e, certamente, é uma ciade mutante, que destrói coisas belas, sim; é só recordar dos lindos casarões da Av. Paulista que foram postos abaixos para que se construíse os espigões que agora estão lá. Há claro a deselegância discreta das moças de São Paulo. E isto é real. Isto quer dizer que muitas meninas lindas de Sampa se vestem mal, combinam mal as roupas. Vestem calsas de moleton com casaco jeans ou vestidos longos roxos com botas brancas, blusas estampadas e casaco de couro azul marinho. São discretas, mas deselegantes. Ao contrário do norte e nordeste onde as meninas, quando são deselegantes são também muito indiscretas e espalhafatosas. Mas eu vejo isso com muito bom humor. ;E, sim, muito engraçado e poético. Tem a dura poesia concreta das esquinas - q nada mais são do que as informações sintéticas das propagandas luminosas do alto dos prédios, que informam, divulgam uma marca de produto com extrema precisão e síntese, que é mais vista do que lida - e isto influenciou a poesia conreta dos poetas concretos de Sampa. caetano cita Deuses da Chuva e da Morte de Jorge Mautner, cita Ronda, cita a poesia concreta, cita Panamérica é um livro de Agripino de Paula, cita a banda Os Mutantes, cita Rita Lee, cita um monte de coisas interessantes e bonitas de Sampa sem deixar de ver que ela tem, sim, muitos problemas e "feiosidades". São Paulo é apaixonante, sem ser bela. Como muitas mulheres que, sem ser bonitas, apaixonam."
S
Sérgio Soeiro
06 Nov, 2008
"A despeito de “Sampa” ter sido composta no final dos anos 70, Caetano procurou colocar nos versos a primeira impressão que teve da grande metrópole quando lá desembarcou, ainda na década de 60. Vindo de um espaço ainda muito ligado à natureza, o baiano sentiu o estranhamento diante de tudo o que viu, e procurou mostrar o conflito estabelecido entre inocência versus ciência, com esta última tornando-se responsável pela destruição dos valores realmente humanos, do aniquilamento e da insignificância do homem na cidade. Este conflito fica bem evidente nos versos: "E foste um difícil começo (...) E quem vem de outro sonho feliz de cidade / Aprende depressa a chamar-te de realidade...". Os versos de “Sampa” expressam o fascínio e a repulsa, o conflito diante do novo e desconhecido, deixando implícita a ambigüidade da questão: Seria a felicidade possível naquela cidade?
Conhecer seus segredos, seus mistérios, encantar-se com sua sedução, atingir o topo das realizações, enfim tornar realidade os seus sonhos, eis o que todos os migrantes esperam ao chegar em “Sampa”.
A emoção ao “cruzar a Ipiranga com a São João” se dá pelo fato que ele desceu do ônibus que veio do Rio de Janeiro cujo ponto final era exatamente naquela esquina. Diante dos seus olhos lá estavam a Cinelândia, o bar Jeca, e o Brahma.
No verso “Da dura poesia concreta e tuas esquinas...” ele faz uma homenagem aos poetas paulistanos criadores do movimento modernista, onde se incluía a poesia concreta.
“A deselegância discreta de tuas meninas...” Se dá pelo fato de que naquele tempo Caetano era uma figurinha um tanto quanto exótica, daí sua grande cabeleira ter chamado a atenção das meninas que cochichavam com risinhos discretos.
Enquanto atravessava a São João para a Ipiranga, ainda atônito, procurava na multidão um rosto com quem pudesse se identificar, e na sua visão tropicalista achou de mau gosto o jeito dos paulistanos, mas também faz uma auto-crítica e considera que o erro estético não está, necessariamente, nos paulistanos, mas sim nele mesmo, pois sua mente se “apavora no que ainda não é mesmo velho / nada do não era antes" (da visão que trazia da sua cidade) e que ele talvez ainda não seja capaz de alcançar aquela modernidade pois ainda não é um “mutante”, e aqui ele faz uma homenagem aos seus amigos do grupo “Mutantes”, bem como à Rita Lee.
Refeito do primeiro impacto, o sentimento seguinte foi de solidão, pois embora no meio da multidão, não encontrava a sua própria imagem refletida nas feições dos paulistanos.
Diante da realidade do momento acha que encontrou o avesso do que sonhava.
Para se justificar da decepção, fala do lado ruim do que vê: filas, poluição, o povo oprimido, da modernidade, o novo excluindo o antigo, tudo tão diferente da simplicidade da sua terra natal.
No verso “da força da grana que ergue e destrói coisas belas...” quer mostrar a dualidade para o bem e para o mal que existe em tudo e em todos.
Quando cita “Panaméricas”, ele se refere a um amigo escritor paulistano, José Agripino de Paula, autor do livro "Panamérica".
“Túmulo do samba” é uma expressão atribuída a Vinicius de Moraes que afirmava que os compositores paulistas não possuíam ritmo e gingado de sambistas, que batizou São Paulo como o túmulo do samba, e considerava que o único local onde se fazia samba de verdade era nos “Quilombos”.
E por fim já aclimatado com a garoa, ele, junto com seus amigos baianos, curtem “Sampa” numa boa."