"Bom, algumas observações aqui foram interessantes, mas não retratam inteiramente como eu percebo essa canção. Sim, concordo com o tom professoral narrador, ao estilo "meninos eu vi", descrevendo os horrores de lutar contra a ditadura. Mas creio que não foi só a ditadura militar a qual os jovens queriam lutar contra. A ditadura de tudo. A ditadura da classe média conservadora em uma época em que ter pais separados era considerado tão "indesejável" quanto ter filhos homossexuais hoje em dia (afinal no discurso da maioria hoje. A revolução de costumes pela qual o Brasil passava na década de sessenta é um importante ingrediente que acompanhou a revolta contra a ditadura política ao ponto de as duas coisas se confundirem no espaço iberoamericano - coisa que não aconteceu no resto do mundo ocidental, onde continuava a prevalecer a democracia. A juventude a qual o narrador se refere lutava pela liberdade de tudo: de poder eleger o seu próprio destino, de poder casar sem ser virgem, de poder não ter que casar porque a namoradinha engravidou, de poder experimentar drogas, de poder escolher qual religião, de poder escolher seus proprios amigos, de poder caminhar e cantar (contra a ditadura ao estilo "Para não dizer quer não falei de flores"), ou sem lenço (revolucionário comunista) ou documento (como era exigido de todo cidadão trabalhador perante a ditadura) (ao estilo de Caetano Veloso), de nao querer se conformar em aspirar a rotineira vida de classe média cujo objetivo foi sempre ter um bom casamento, uma boa familia, um bom emprego. Os jovens então pregavam que tinham direito a errar por conta própria, que preferiam aprender da vida com empregos não-convencionais (viver do esporte, das artes, pq não?) a almejar passar num concurso público e virar telefonista ou office-boy de uma grande firma na cidade grande. Queriam romper o esquema de que se alguém não se casasse até os 22 anos e não tivesse um filho até os 25, a pessoa estava velha e passada. Esta mesma juventude, em alguns casos extremos, chegava inclusive a ser reacionária a tudo o que cheirasse essa classe média conservadora - eram contra o que se falasse em inglês, contra a Jovem Guarda, contra a introdução da guitarra elétrica (yankee) na música popular (autêntica) brasileira, contra o que não fosse engajado - chegando a vaiar o Caetano Veloso no 3o Festival da Canção quando este queria cantar o tema "É proibido proibir" com o "não-engajado e brejeiro" Odair José.
A luta contra tudo isso foi extremamente desgastante para essa geração. E depois de um período extremamente desgastante tanto para essa geração quanto para a junta militar, acontece em 1979 a anistia aos exilados. Os revolucionários de antes, agora mais velhos, sabem que também têm uma família para sustentar. A sobrevivência ao sistema fez com que essa geração conseguisse progressos (a anistia e a promessa de que um dia a ditadura iria embora foi em si uma grande conquista política, assim como a sociedade brasileira passa a ser mais tolerante com comportamentos menos ortodoxos ... o divórcio foi legalizado em 1977!) mas também fez com que ela tivesse que se enquadrar de alguma forma. O aborto nunca foi legalizado, a Elis teve que cantar o Hino Nacional em um evento da ditadura e, de certa forma, a sobrevivência ao sistema, dentro do sistema, nos aproximou dos nossos pais em todos os bons e maus sentidos. Afinal, quem não teme a retaliação violenta da ditadura, querendo proteger mulher, marido, filhos, familiares e amigos? Quem não quer prover o melhor padrão de vida aos seus? Por mais lúdico e libertário possa parecer viajar pelo Brasil-continente ou pela América Latina, criar raízes e ter alguma estabilidade coadunam com propiciar um lar para a sua família. E quem sabe, tal geração pôde então se ver, com horror em alguns casos, nos seus próprios pais. De reacionário, passou-se a ser conservador; de vendido, passou-se a ser pragmático.
Em 2012, muita gente ainda acredita no âmago da metamorfose ambulante de alguns políticos brasileiros. Para melhor ou para pior. Talvez este maravilhoso tema já seja a nossa síntese como nação. Gostamos de mudanças, mas não de rupturas e revoluções. Tudo no Brasil muda em qq direção, mas sempre a passos lentos. Muito lentos."