Sampa

Alguma coisa acontece
No meu coração
Que só quando cruzo a Ipiranga
E a Avenida São João…

É que quando eu cheguei por aqui
Eu nada entendi
Da dura poesia
Concreta de tuas esquinas
Da deselegância discreta
De tuas meninas…

Ainda não havia para mim Rita Lee
A tua mais completa tradução
Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruzo a Ipiranga
E a Avenida São João…

Quando eu te encarei
Frente a frente
Não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi
De mau gosto, mau gosto
É que Narciso acha feio
O que não é espelho
E a mente apavora
O que ainda não é mesmo velho
Nada do que não era antes
Quando não somos mutantes…

E foste um difícil começo
Afasto o que não conheço
E quem vem de outro sonho
Feliz de cidade
Aprende de pressa a chamar-te
De realidade
Porque és o avesso
Do avesso, do avesso, do avesso…

Do povo oprimido nas filas
Nas vilas, favelas
Da força da grana que ergue
E destrói coisas belas
Da feia fumaça que sobe
Apagando as estrêlas
Eu vejo surgir teus poetas
De campos e espaços
Tuas oficinas de florestas
Teus deuses da chuva…

Panaméricas
De Áfricas utópicas
Túmulo do samba
Mais possível novo
Quilombo de Zumbi
E os novos baianos
Passeiam na tua garoa
E novos baianos
Te podem curtir numa boa…


Letra Composta por: Caetano Veloso
Melodia Composta por:
Álbum: MUITO - DENTRO DA ESTRELA AZULADA
Ano: 1978
Estilo Musical:

63 comentários em “Sampa”

    1. Nesta linda homenagem, Caetano Veloso nos ensina com sua música que a identidade cultural é aquilo que aproxima e une os indivíduos, formando a base para que uma pessoa se sinta pertencente a um grupo social, pois não se obtém isto apenas dividindo um espaço comum ou só praticando atividades no meio em que se está inserido. É preciso mais.

      E o mergulho de Caetano na cultura paulistana é intenso, passando pela música, pela poesia, pelos movimentos de vanguarda, pela arquitetura, por questões ambientais, políticas e sociais.

      Como a se sentir parte do todo, o poeta, inspirado, compôs Sampa, que não é só uma música, ela é um verdadeiro hino, que foi feito de coração para homenagear a capital desta linda terra. É difícil que alguém diga que não sabe cantar sua melodia, com sua letra que diz muito sobre a experiência de um baiano ao chegar de ônibus em São Paulo.

      SAMPA – CAETANO VELOSO

      Alguma coisa acontece no meu coração
      Que só quando cruzo a Ipiranga e a avenida São João
      É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi
      Da dura poesia concreta de tuas esquinas
      Da deselegância discreta de tuas meninas

      Ainda não havia para mim Rita Lee
      A tua mais completa tradução
      Alguma coisa acontece no meu coração
      Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João

      Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto
      Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto
      É que Narciso acha feio o que não é espelho
      E a mente apavora o que ainda não é mesmo velho
      Nada do que não era antes quando não somos mutantes

      E foste um difícil começo
      Afasto o que não conheço
      E quem vende outro sonho feliz de cidade
      Aprende depressa a chamar-te de realidade
      Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso

      Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas
      Da força da grana que ergue e destrói coisas belas
      Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas
      Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços
      Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva

      Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba
      Mais possível novo quilombo de Zumbi
      E os novos baianos passeiam na tua garoa
      E novos baianos te podem curtir numa boa

      ANÁLISE DA LETRA DA MÚSICA “SAMPA”

      Alguma coisa acontece no meu coração

      Enquanto Vinicius de Morais provocava os amigos, ao dizer que São Paulo era o túmulo do samba,Caetano iniciou sua linda homenagem à cidade de maior força econômica brasileira, enaltecendo seus mitos e seus símbolos. Ele começou SAMPA fazendo uma paráfrase musical de RONDA, do poeta e compositor Paulo Vanzolini (Ronda, que foi lindamente interpretada por Maria Betânia, irmã do poeta e cantor baiano).

      Prova disso é que quando João Gilberto toca Sampa, ele sempre inicia com o último verso da criação inesquecível de Vanzolini: “Cenas de sangue num bar na avenida São João”, que musicalmente casa com perfeição com “Alguma coisa acontece no meu coração”. Durante a música, Caetano retomou esse artifício melódico para deixar claro que não foi uma construção feita por mero acaso…

      Que só quando cruzo a Ipiranga e a avenida São João

      E Caetano nem desconfiava que naquele momento, em 1965, estaria imortalizando o mais famoso cruzamento do Brasil: a Ipiranga com a São João. Ali ele desceu, vindo da cidade maravilhosa, cheia de praias, encantos e belezas, apregoados por seu amigo e parceiro Gilberto Gil em Aquele Abraço, antes de seguir para o exílio (nela, Gil homenageia os baianos Dorival Caymmi, João Gilberto e Caetano Veloso).

      É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi

      Ele, que havia se acostumado com o Rio de Janeiro e sua descontração, pisou na selva de concreto, como era conhecida, e ficou chocado com o que via, pois ali não daria para viver “sem lenço e sem documento”, mas teria que acompanhar o ritmo frenético paulistano, com sua diversidade cultural e sua vida noturna encantadora.

      Da dura poesia concreta de tuas esquinas

      Da deselegância discreta de tuas meninas

      Caetano, numa sacada genial, associa o Movimento Poético do Concretismo com as esquinas de São Paulo, uma clara referência aos poetas paulistas Augusto e Haroldo de Campos. Naquela época ainda não havia o São Paulo Fashion Week, e o Rio é que ditava a moda, embora a endumentária de um dos pais do Tropicalismo fosse de uma extravagência sem medidas, o que atraía risinhos discretos daquelas meninas que passavam bem perto dele. Meninas que não eram bem o estereótico da Garota de Ipanema (composição de Vinicius de Moraes de 1962), que quando caminhava, cheia de graça, gingava num doce balanço a caminho do mar e não a caminho do trabalho, como era o caso das paulistanas, em suas roupas de escritório.

      Ainda não havia para mim Rita Lee
      A tua mais completa tradução
      Alguma coisa acontece no meu coração
      Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João

      No afã de ressaltar os valores da terra da garoa, o poeta apresenta para o Brasil aquela que ainda não era tão badalada, mas que logo se consagraria como a rainha do rock, a cantora e compositora Rita Lee, líder da banda Os Mutantes (em companhia de Arnaldo Baptista e Sérgio Dias). Com o tempo, como a vaticinar a profecia de Caetano, a roqueira foi considerada a maior tradução daquilo que é São Paulo.

      Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto
      Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto

      Há muitas rivalidades entre o Rio e São Paulo, mas, deixando o bairrismo de lado, e toda a violência, o Rio de Janeiro continua lindo. Sempre foi e dificilmente deixará de sê-lo. Com tantas imagens dos recortes mágicos daquele belíssimo litoral, o baiano se assustou com tantos prédios e tanta modernidade de suas linhas arquitetônicas.

      É que Narciso acha feio o que não é espelho
      E a mente apavora o que ainda não é mesmo velho
      Nada do que não era antes quando não somos mutantes

      E o lado narcisista de Caetano aflorou, pois ali não enxergou a beleza que nele refletia, através do seu espelho interior. Tudo que vem de encontro ao que você pensa e de como vê o mundo, choca, causando impactos, deixando a sensação de expectativa frustada. Ele desejaria ser mutante para rapidamente transformar o impacto primeiro e o pavor causado em sua mente.

      E foste um difícil começo
      Afasto o que não conheço
      E quem vende outro sonho feliz de cidade
      Aprende depressa a chamar-te de realidade
      Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso

      São Paulo é assim: você se assusta no começo, mas depois se apaixona e não consegue mais sair de suas entranhas. Caetano, que vinha de um sonho “feliz cidade”, isto é, de um sonho chamado felicidade,aprendeu depressa que aquele novo mundo era a própria realidade. Não um viver de ficção, mas a cara de um Brasil que luta para tornar esta nação maior.

      Porque São Paulo é o próprio avesso de outras realidades brasileiras. Na letra, ao falar do “avesso”, na verdade Caetano dialoga com o poeta paulista Décio Pignatari, que fundou com Augusto e Haroldo de Campos o movimento estético do Concretismo, que punha ênfase no avesso das formas e brincava com a estética dos versos e das palavras.

      Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas

      Como megalópolis, São Paulo vive formando filas, para pôr ordem na casa, senão tudo se transforma em caos urbano. O paulistano adora suas “vilas”, que são os chamados bairros em outras capitais. A própria capital paulista se chamava Vila de São Paulo, da mesma forma hoje muitos “points” se encontram nas suas famosas vilas, espalhadas nas áreas nobres e também nas menos favorecidas. Como o Rio de Janeiro, São Paulo também possui suas favelas, onde vivem aqueles de menor renda aquisitiva, mas que abrigam a mão de obra que move a maior economia da América do Sul. Tudo isso não passou despercebido por Caetano Veloso, que descreveu em pormenores sua musa, que não dista daquilo que ela é ainda hoje.

      Da força da grana que ergue e destrói coisas belas

      O crescimento sustentável é o sonho dos ambientalistas e crescer sem causar impactos é uma meta a ser alcançada por aqueles empresários que não apenas desejam o enriquecimento, mas buscam também a manutenção do ecossistema existente em suas áreas de atuação, procurando manter as coisas belas, sem destruir completamente a natureza. Aqui a gente percebe já naquela época a preocupação de Caetano com as causas ambientais.

      Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas

      Para Caetano, apagar as estrelas com a fuligem da fumaça é como roubar do poeta sua fonte de inspiração.

      Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços

      Mais uma referência aos poetas e irmãos Augusto e Haroldo de Campos, construtores de versos poéticos que brincavam com os espaços, sem a preocupação da rima ou da musicalidade, mas sim da forma.

      Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva

      Uma clara homenagem ao teatro paulistano que fazia “Oficinas de Florestas” nas mãos do diretor José Celso Martinez Corrêa. Já “deuses da chuva” é uma referência clara à obra do seu amigo e poeta Jorge Mautner, que escreveu “Deuses da Chuva e da Morte” (Editora Martins – 1962).

      Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba
      Mais possível novo quilombo de Zumbi
      E os novos baianos passeiam na tua garoa
      E novos baianos te podem curtir numa boa

      Aqui no final, o poeta enaltece os Novos Baianos, que era composto, entre outros, por Moraes Moreira, Pepeu Gomes de Baby. Usa o nome do grupo para se referir a todos aqueles que vêm para São Paulo em busca de melhores oportunidades de vida.

      São Paulo é um misto de raças, de nacionalidade e de culturas. Um “pan” (conjunto, reunião) das pessoas que vêm do Sul e do Norte e de todo lugar, como também dos países vizinhos, em busca de sonhos utópicos que muitas vezes são obrigados a sepultá-los frente à dura realidade. E aquilo que parecia sonho se torna uma prisão, um “novo quilombo de Zumbi”, fazendo-os prisioneiros, vivendo atrelados aos grilhões em filas, vilas e favelas.

      A despeito de “Sampa” ter sido composta no final dos anos 70, Caetano procurou colocar nos versos a primeira impressão que teve da grande metrópole quando lá desembarcou, ainda na década de 60. Vindo de um espaço ainda muito ligado à natureza, o baiano sentiu o estranhamento diante de tudo o que viu, e procurou mostrar o conflito estabelecido entre inocência versus ciência, com esta última tornando-se responsável pela destruição dos valores realmente humanos, do aniquilamento e da insignificância do homem na cidade. Este conflito fica bem evidente nos versos: “E foste um difícil começo (…)

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      1. REINALDO SERIACOPI

        A análise é boa, mas reveria a interpretação dada ao quilombo de Zumbi, uma vez que os quilombos, ao contrário do que está escrito, eram espaço de libertação, para onde se dirigiam os escravos fugidos em busca de liberdade.

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      2. Carla Szckol

        Essa análise é péssima! Nada a ver.
        A pior parte foi sombra quilombo. Com um pouquinho de história não ia falar besteira. Quilombo não era a prisão, pelo contrário, era um território seguro pra pessoas que fugiram da escravidão, pessoas que estavam resistindo à prisão das senzalas… 🙄

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      3. Osvaldo De farias

        Sinto lhe dizer que esta letra de Caetano,
        Tida como uma homenagem a são Paulo
        Não é outra coisa senão uma crítica ácida de um retirante
        Que odeia a cidade por suas verdades
        E, que por outro lado como as pessoas já devem ter se apercebido
        Do amor incondicional que ele demonstra pelo Rio de Janeiro
        E principalmente pelos cariocas que em
        Contrapartida o agradam sobremaneira

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        1. Emerson Barcos

          Concordo contigo, é exatamente a mesma leitura que faço dessa letra, embora seja uma ótima música com uma harmonia fantástica.

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      4. Há tempos, que leio sobre as interpretações desta melodia.
        Alguma coisa acontece no meu coração…
        Av Ipiranga parece, que o Caetano procurou o riacho do grito da independência e viu só concreto e águas poluídas e afirmou que Narciso acha feio o que não reflete sua imagem mau gosto e por aí vai…
        Muito.profundo…

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  1. Sérgio Soeiro

    A despeito de “Sampa” ter sido composta no final dos anos 70, Caetano procurou colocar nos versos a primeira impressão que teve da grande metrópole quando lá desembarcou, ainda na década de 60. Vindo de um espaço ainda muito ligado à natureza, o baiano sentiu o estranhamento diante de tudo o que viu, e procurou mostrar o conflito estabelecido entre inocência versus ciência, com esta última tornando-se responsável pela destruição dos valores realmente humanos, do aniquilamento e da insignificância do homem na cidade. Este conflito fica bem evidente nos versos: “E foste um difícil começo (…) E quem vem de outro sonho feliz de cidade / Aprende depressa a chamar-te de realidade…”. Os versos de “Sampa” expressam o fascínio e a repulsa, o conflito diante do novo e desconhecido, deixando implícita a ambigüidade da questão: Seria a felicidade possível naquela cidade?
    Conhecer seus segredos, seus mistérios, encantar-se com sua sedução, atingir o topo das realizações, enfim tornar realidade os seus sonhos, eis o que todos os migrantes esperam ao chegar em “Sampa”.
    A emoção ao “cruzar a Ipiranga com a São João” se dá pelo fato que ele desceu do ônibus que veio do Rio de Janeiro cujo ponto final era exatamente naquela esquina. Diante dos seus olhos lá estavam a Cinelândia, o bar Jeca, e o Brahma.
    No verso “Da dura poesia concreta e tuas esquinas…” ele faz uma homenagem aos poetas paulistanos criadores do movimento modernista, onde se incluía a poesia concreta.
    “A deselegância discreta de tuas meninas…” Se dá pelo fato de que naquele tempo Caetano era uma figurinha um tanto quanto exótica, daí sua grande cabeleira ter chamado a atenção das meninas que cochichavam com risinhos discretos.
    Enquanto atravessava a São João para a Ipiranga, ainda atônito, procurava na multidão um rosto com quem pudesse se identificar, e na sua visão tropicalista achou de mau gosto o jeito dos paulistanos, mas também faz uma auto-crítica e considera que o erro estético não está, necessariamente, nos paulistanos, mas sim nele mesmo, pois sua mente se “apavora no que ainda não é mesmo velho / nada do não era antes” (da visão que trazia da sua cidade) e que ele talvez ainda não seja capaz de alcançar aquela modernidade pois ainda não é um “mutante”, e aqui ele faz uma homenagem aos seus amigos do grupo “Mutantes”, bem como à Rita Lee.
    Refeito do primeiro impacto, o sentimento seguinte foi de solidão, pois embora no meio da multidão, não encontrava a sua própria imagem refletida nas feições dos paulistanos.
    Diante da realidade do momento acha que encontrou o avesso do que sonhava.
    Para se justificar da decepção, fala do lado ruim do que vê: filas, poluição, o povo oprimido, da modernidade, o novo excluindo o antigo, tudo tão diferente da simplicidade da sua terra natal.
    No verso “da força da grana que ergue e destrói coisas belas…” quer mostrar a dualidade para o bem e para o mal que existe em tudo e em todos.
    Quando cita “Panaméricas”, ele se refere a um amigo escritor paulistano, José Agripino de Paula, autor do livro “Panamérica”.
    “Túmulo do samba” é uma expressão atribuída a Vinicius de Moraes que afirmava que os compositores paulistas não possuíam ritmo e gingado de sambistas, que batizou São Paulo como o túmulo do samba, e considerava que o único local onde se fazia samba de verdade era nos “Quilombos”.
    E por fim já aclimatado com a garoa, ele, junto com seus amigos baianos, curtem “Sampa” numa boa.

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    1. Osvaldo De farias

      Voce esta errado Sergio…
      Está música é uma crítica ácida a são Paulo
      Que Caetano odeia dentre outras coisas pelo modo racista
      Que paulistas tratam nordestinos é principalmente baianos como ele.
      Mas principalmente pelo maior inferno astral vivido por ele
      Na cidade , quando do exílio forçado imposto a ele é a Gilberto Gil
      Na Inglaterra.
      ‘Debaixo dos caracóis dos seus cabelos’ , de Roberto Carlos
      Para Caetano , marcou está data.

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  2. Gostaria de deixar aqui registrado que os comentários de Sérgio Soeiro são maravilhosos e nunca deixe de comentar.Tenho difilculdade de interpretação mais estou tentando melhorar, ou aprender se isso é possível.Só tenho uma curiosidade Sérgio trabalha em qual área????

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    1. Osvaldo De farias

      Isabel, Sérgio não é o cara.
      Seus comentários são fundados em impressões pessoais demais.
      Quando se analisa letras vc n pode se deixar ir pela poesia aparente ,
      Mas procurar fatos nela (havendo, é claro).

      PS: Se vc gosta de escrever, é gosta de caras que fazem isto bem
      De verdade, eu recomendo por exemplo, Inácio Araújo da folha de são Paulo, crítico de música dos melhores.

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  3. Sérgio Soeiro

    Isabel, boa tarde.
    Olha, fico completamente envaidecido pelas gentis palavras de apoio. Muito obrigado, MESMO!. É gratificante saber que algo que fazemos com tanto prazer lhe esteja sendo útil. Acredite, faço isto por puro hobby. De tão apaixonado por música, desde bem novinho fuçava tudo que estivesse ao meu alcance para fazer pesquisas sobre meus ídolos e sobre as idéias que me inquietavam. Quanto mais carregadas de metáforas, maior era o desafio de desvendá-las, e, lógico, maior a satisfação. Mas não há nada de acadêmico nesse processo; eu apenas pesquiso e procuro colocar a minha visão. Creio que os autores preferem assim. Você não vai acreditar: trabalho com Engenharia Elétrica. Não é meu sonho, claro, mas tudo o que consegui até hoje devo à minha profissão. Se um dia eu ficar rico, me dedicarei mais às letras.
    Um abraço.
    PS: Se houver alguma letra de música que você deseje desvendar, terei prazer (se estiver ao meu alcance, claro) em ajudá-la.

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  4. Gustavo Monteiro

    Tuas oficinas de florestas é uma referência ao Teatro Oficina, de Zé Celso Martinez Correia, outra marca paulistana.

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  5. Jorge João Grego

    Linda a letra, amei a interpreteção também. Gosto de pensar que “nada do que não era antes quando não somos mutantes” além da homenagem ao grupo, também refere-se a uma sensação experimentada pelos migrantes, imigrantes, ao chegarem à sua nova cidade, seu novo destino… não é fácil, tornamo-nos mutantes, é algo que não volta mais para trás. Antes não éramos mutantes, ou não nos percebíamos como tal. É uma sensação assustadoramente nova, daí o “a mente apavora o que não é mesmo velho…”

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  6. José Aparecido

    Gostaria apenas de acrescentar sobre a frase “E os novos baianos te podem curtir numa boa” ..Um duplo sentido, Os Novos Baianos,(Baby, Pepeu, Moraes Moreira e Paulinho Boca de Cantor), grupo da Bahia que recentemente também chegara em São Paulo e que aqui, em São Paulo, todo nordestino, preconceituosamente é chamado de baiano.

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  7. Gente, no trecho : ” É que Narciso acha feio o que não é espelho ” … qual a interpretação para isso?

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  8. Norma Suely Perrut

    Conhece o mito de Narciso? Narciso era um jovem rapaz que, um dia, mirando-se nas águas de um lago, viu sua própria imagem e, encantado com a beleza, ali ficou admirando-se. Um dia tentou tocá-la, caiu e morreu afogado. No local nasceu a flor a qual chamamos Narciso.
    Caetano diz que “Narciso acha feio o que não é mesmo espelho”, o que quer dizer que Narciso acha feio o que não é a sua própria imagem. Relacionando à canção, isso mostra o estranhamento dele ao que vê em sua chegada a São Paulo.

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  9. Olá! envio por aqui um recado para sérgio, seria possível analisar letras de Carlinhos Brown? procuro analisar mas encontro uma grande dificuldade, se puder me ajudar ficarei grata. Obrigada!

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  10. thiago machado

    o camarada ai acho que interpretou erroneamente essa parte dos “mutantes” pelo menos no meu entender a palavra mutantes leva o sentido de mutável : ou seja nada do que não era antes (nada de novo)quando não somos mutantes(mutáveis)

    também no trecho “por que és o avesso do avesso do avesso do avesso” leia-se “por que és você mesmo”
    quando estudei raciocínio lógico quantitativo aprendi que uma negação de negação é uma verdade logo quando ele disser avesso do avesso ele diz que não és o avesso, quando disse-lo três vezes pois será o avesso e quatro vezes volta a não ser o avesso sendo ele mesmo
    Caetano conhecedor do assunto demonstra em sua letra que aos olhos leigos(Baianos) ela pode parecer complexa, fria, disritmizada ou seja o avesso de seu entendimento para boa cidade, mas quem a repara e sobre ela reflete percebe que mesmo com a aparência de avesso(demonstrada por 4 avessos)ela não o é.

    espero ter ajudado!

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  11. Em “da força da grana que ergue e destrói coisas belas…”
    acredito que ele refere-se ao fato de São Paulo ser o centro econômico do país, o qual naquele período urbanizava-se cada vez mais, fato observado, por exemplo, através da expansão da mancha urbana, com a construção de casas, edifícios, ou seja, com toda a grana daquela cidade, destruíam coisas belas
    (mata atlântica) e erguiam edifícios (também belos).

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  12. elaine graziele

    olá!!acredito que com essa música caetano veloso queira mostrar a dura verdade de um sertanejo que vai tentar a vida numa cidade grande e quando lá chega se depara com uma realidade totalmente diferente da por si vivida até aquele momento.atenta ainda para o fato da dificuldade do começo de vida em uma metrópole principalmente quando não há indícios de identificação do mesmo com esta cidade,porém o compositor declara que quem vem de outro sonho feliz de cidade aprende depressa a acostumar-se com a nova realidade.a partir do momento que este se acostuma com a nova vida passa a sofrer a triste desigualdade presente no país onde os menos favorecidos tendem a sofrer nas filas de emprego,nas vilas e até mesmo nas favelas,pois o desenvolviemnto industrial favoreceu apenas os já favorecidos.naum poderei deixar de relatar ainda que na quinta linha do penúltimo paragráfo caetano cita a poluição ambiental causada pela fumaça das fábricas se sobrepondo as estrelas do céu,e essa fumaça transforma os campos,florestas,poetas,deuses da chuva em utopias.e através dessas utopias é que os nordestinos,todos preconceituosamente chamados de baianos podem passear na garoa de sao paulo e a curtir numa boa!!!!

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  13. Gostei da interpretação feita para esse poema. E gostria de dar uma pequena contribuição. Quando Caetano fala “Eu vejo surgir teus poetas
    De campos e espaços” está fazendo uma homenagem aos poetas Augusto e Haroldo de Campos. É interessante notar também a sonoridade dos versos “…sonho feliz de cidade” que sugere a palavra “felicidade”

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  14. Essa música pode ser analisada sobre várias perspectivas, imigração, conseqüências da urbanização, desigualdade social… E muito mais… Sou professora de geografia e costumo usar essa música quando trato de espaço urbano. Os alunos analisam em conjunto a letra, mas cada vez sai uma nova analise para a letra de Caetano.

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  15. William (fonoaudiólogo)

    Olá gente!

    Olha… Acho q o termo “sertanejo” julgado por Elaine Graziele, se encaixaria melhor como nordestino mesmo! Sertanejo = Alguém que vem do Sertão. Diferente da Realidade de caetano!

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  16. ” Ainda não havia para mim Rita Lee
    A tua mais completa tradução” filha de amaricano com cearence Rita Lee se encaixa como a mais completa tradução.

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  17. filha de americano com uma cearence “Rita Lee Ainda não havia para mim Rita Lee
    A tua mais completa tradução”
    nem precisa explicar pq ,né?

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  18. Ainda não havia para mim Rita Lee, no meu entender, refere-se à música “Minas de Sampa” de Rita Lee que, segundo Caetano, é a mais completa tradução das “tuas meninas”.

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  19. Pedro Paulo

    O que a maioria ainda não comentou é que essa música, além de uma “fábula” da migração de um nordestino a uma grande cidade, também é uma homenagem ao MODERNISMO. O eu-lírico, ao conhecer a cidade, não entende “a dura poesia concreta de tuas esquinas”, numa referência à poesia concreta (além da óbvia referência ao concreto do asfalto). “Quando te encarei frente a frente não vi o meu rosto. Chamei de mau gosto o que vi…” se refere às más críticas que a feira de arte moderna recebeu na época da sua realização (em 1922). O eu-lírico a princípio não se identifica com a arte, mas aos poucos ele vai compreendendo. “a mente apavora o que não é nem mesmo velho” reflete isso: o medo do novo. O modernismo foi um movimento de mudanças radicais na arte, e Caetano aproveita para fazer a ponte com o movimento do qual ele mesmo fez parte, a TROPICÁLIA, que pode ser considerada um “revival” do modernismo na década de 60. Ele faz isso citando os Mutantes, fazendo um trocadilho com ser “mutável”, aberto a novas tendências. Os versos finais da música, porém, fogem um pouco do tema fazendo uma crítica social à cidade de São Paulo.

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  20. A INTERPRETAÇÃO DAS MÚSICAS DO ARTISTA SÃO DIVERSAS, NO ENTANTO HÁ UM CONSENSO DENTRE O QUE ELE QUERIA DIZER EM MUITOS TRECHOS DAS MÚSICAS .TENHO DÚVIDAS EM MUITOS DESSES TRECHOS E SE ALGUÉM SOUBER GOSTARIA DE SABER. EX; ” PANAMÉRICAS DE ÁFRICAS UTÓPICAS , DEPOIS , MAIS POSSÍVEL QUILOMBO DE ZUMBI” ” E EU SUPERBACANA VOU SONHANDO ATÉ EXPLODIR COLORIDO NO SOL, NOS CINCO SENTIDOS NADA NO BOLSO OU NAS MÃOS UM INSTANTE MAESTRO SUPER-HOMEM SUPERFLIT SUPERVINC SUPERVIVA SUPERSHELL SUPERQUENTÃO ” QUERIA SABER O SIGNIFICADO É ISSO POR ENQUANTO

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  21. GRANDE GÓES

    Caetano relata a triste realidade dos imigrantes nordestinos, na maioria os baianos que chegam à cidade de São Paulo, tendo certa decepção, observando a dura poesia concreta das esquinas em que é observado um grande número de pessoas utilizando drogas, fazendo de praças e viadutos suas moradas, da deselegância das meninas que vêem a principal fonte de renda a prostituição.O imigrante nordestino chega e não consegue vê o que sempre viu em seus sonhos, que seria a facilidade em chegar e mudar de vida, chamando o que vê de mal gosto, fazendo uma analogia com o mito de Narciso, que só conseguia vê o que era belo quando via seu próprio rosto no espelho(lago), ou seja o resto tudo era feio, nordestino não consegui vê nada de belo, para ele tudo o que era visto era de mau gosto, e a mente apavora o que ainda não mesmo velho, ele ainda tinha a capacidade de se adaptar no lugar de grande urbanização, com novas culturas e novos costumes, apesar de não ser um mutante. É como todo começo é sempre difícil, principalmente que sempre viveu em cidade pacata do interior, terá que depressa entender a nova realidade, por que é do avesso, do avesso, do avesso, ou seja, o imigrante chega e descobre que era tudo diferente do que pensava, começou a observar que para tudo é fila, tudo é dificuldade, principalmente do povo que que vive nas favelas sem segurança e com condições subumanas de vida, achando o estilo de vida uma verdadeira opressão. A força da grana que ergue e destrói coisas belas são grandes construções como arranha-céus que destroem a natureza e causam impactos ambientais reduzindo áreas verdades e expulsando espécies de animais, sendo difícil acordar e ouvir canto de galo e passarinho. Da feia fumaça que sobe apagando as estrelas, grande número de indústrias e veículos que liberam grande quantidade de fumaça contaminando o meio ambiente, impedindo que o céu estrelado seja visto de forma nítida. Na verdade devido a grande quantidade de negros baianos que chegam à São Paulo, Caetano chega a comparar São Paulo como novo quilombo de zumbi, e esses baianos apesar da dificuldades podem curtir a cidade numa boa.

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  22. Cristóvany Fróes

    Sampa, música que é mais um hino de São paulo;
    empregada na visão de um nordestino que ,de repente
    se vê confuso nessa metrópole…Letra empregada em segunda pessoa, falando diretamente à cidade.
    “É que quando eu cheguei por aqui
    Eu nada entendi
    Da dura poesia
    Concreta de tuas esquinas
    Da deselegância discreta
    De tuas meninas…”
    O narrador fala de uma poesia, até então, pouco revelada, a poesia que há construída com areia e cimento, dura poesia nas esquinas, ou seja, mendigos, prostitutas, entre outras situações. E a “deselegância discreta de tuas meninas” , são as diversas formas de vestir e o próprio comportamento das meninas de outrora em São Paulo.
    “Ainda não havia para mim Rita Lee
    A tua mais completa tradução”
    A cantora Rita Lee é comparada a própria cidade, talvez pelo seu jeito louco, complexo e inigualável.
    “Quando eu te encarei
    Frente a frente
    Não vi o meu rosto
    Chamei de mau gosto o que vi
    De mau gosto, mau gosto
    É que Narciso acha feio
    O que não é espelho
    E a mente apavora
    O que ainda não é mesmo velho
    Nada do que não era antes
    Quando não somos mutantes…”
    É citado o mito Narciso, para falar da beleza. Assim como Narciso, o narrador tinha outro conceito de beleza, diferente do que ele vê.
    “E a mente apavora o ainda não é mesmo velho…” A dificuldade em aceitar o “novo” e “Nada do que não era antes Quando não somos mutantes…” explica a visão estabelecida em sua mente.
    “E foste um difícil começo
    Afasto o que não conheço
    E quem vem de outro sonho
    Feliz de cidade
    Aprende de pressa a chamar-te
    De realidade
    Porque és o avesso
    Do avesso, do avesso, do avesso…”
    E fala do difícil começo, realidade de todo nordestino na capital e, também da aceitação de uma realidade posta pelo novo espaço, além de caracterizar a metrópole como avesso do avesso, por ela ser incompreendida.
    Do povo oprimido nas filas
    Nas vilas, favelas
    Da força da grana que ergue
    E destrói coisas belas
    Da feia fumaça que sobe
    Apagando as estrêlas
    Eu vejo surgir teus poetas
    De campos e espaços
    Tuas oficinas de florestas
    Teus deuses da chuva…
    A antonímia é colocada para falar dos oprimidos e
    da força do dinheiro que ergue, mas destrói a natureza, também da poluição do ar que obstrui a visão das estrelas. Os poetas de Campos e espaço são os irmão Alfredo de Campos e Augusto de Campos, escritores da poesia concreta.
    As oficinas de florestas são os parques ecológico como: O Ibirapuera, Horto, Água Branca, Parque do estado, entre outros…os deuses da chuva pode ser uma referência a os Demônios da garôa, fizeram muito sucesso na época.
    Panaméricas
    De Áfricas utópicas
    Túmulo do samba
    Mais possível novo
    Quilombo de Zumbi
    E os novos baianos
    Passeiam na tua garoa
    E novos baianos
    Te podem curtir numa boa…
    Panaméricas são as misturas de povo, inclusive os negros e suas utópicas visões de uma outra África.
    E “mais possível novo quilombo de Zumbi”, refere-se ao sonho de liberdade que o negro retirante carrega. “Os novos baianos”, com artigo definido “os” é uma alusão a banda baiana que fez muito sucesso no Brasil, inclusive em São paulo. E novos baianos, assim de forma indefinida é para falar da grande quantidade de baianos que já povoavam essa mágica metrópole.
    Fantástico!!!

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  23. Cesar Daldosso

    Essa música é uma crítica destrutiva à cidade de São Paulo. Conseguimos enxergar alguns elogios em meio a alguns parágrafos, porém Caetano trata basicamente da feiosidade de São Paulo. Acho injusto colocarem-na como “Hino ou ode à São Paulo”, pois, apesar de entender a beleza da letra, não vejo elogios que pudessem dar esse título à música.

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  24. Sem um lindo nordestino, um espetáculo de Baiano chamado Caetano, quem faria poesia de extasiada beleza para doar, de coração aberto, a São Paulo? a terra da garôa ,do charme, e também do preconceito,? só mesmo o nosso baiano com sua sutil sensibilidade

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  25. Céa Castro

    É que um baiano ‘Baiano’ falou, escreveu, disse, intrepretou o que viu em São Paulo… SAMPA! Tudo tão simples… Óbvio… Único… Se alguém tão
    especial… Não… Rsrsrs… Sei la, línguagem poética??? Tão simples… Amor, Paixão, de quem vem ou vai… Não sei bem, pra Saõ Paulo ou de São Paulo?… Parabéns São Paulo… Parabéns Caetano… Simplesmnte PARAbéns! São GRANDES assim pra mim… Tão perto e tão longe de mim.

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  26. Lamento que a agressiva letra colocada na música de outro autor – Vanzolini – seja considerada por alguns, uma homenagem a São Paulo. Mau gosto, feio, deselegância! É natural que se tenha de aceitar o gosto do autor pela beleza, bom gosto e elegância das meninas de onde ele veio. Mas eu não faria comentários desairosos sobre o interior da Bahia e suas meninas, que sequer conheço. A mim, paulistano, me ofende profundamente ouvir alguém de fora falando da deselegância das meninas paulistanas, ou da feiura de São Paulo, ou de nosso mau gosto e capacidade de destruir coisas belas. Os diferentes padrões de beleza dos narizes e cabelos não devem ser objeto de crítica em letras de música. A preferência do autor pelo tipo de nariz e cabelo com que a família dele foi brindada pela natureza não dá o direito de ofender quem tem nariz e cabelo diferente.

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  27. Eduardo, concordo com sua leitura, não entendo como podem chamar “Sampa” de hino a SP. No máximo um hino ao próprio autor e suas impressões da cidade. Só achei infeliz sua conclusão: ao atacar nariz e cabelos você comete o mesmo erro que Caetano.

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  28. Wellington Santana Jr.

    “Sampa” é uma “crítica destrutiva” à cidade de São Paulo?? Francamente… Imagino que os habitantes da cidade preferissem um retrato mais utópico de São Paulo em seu hino, mas mantenham a sensibilidade necessária para perceber a sutileza de Caetano em enaltecer a cidade.
    Desculpas minhas aos paulistanos que se sentirem ofendidos, mas São Paulo não é de fato uma cidade bela. Entretanto, não deixa de ser admirável. Centro econômico do país, maior pólo da tecnologia e progresso científico do Brasil. Caetano enxergou isso bem e, mesmo não vendo beleza em São Paulo à sua chegada, critica A SI MESMO pela própria incapacidade de 1) não perceber o valor da cidade à primeira vista (afirmando que “Narciso acha feio o que não é espelho”) e 2) não conseguir se adaptar às constantes transformações da metrópole (fato evidenciado em trechos como “e à mente apavora o que ainda não é mesmo velho/Nada do que não era antes quando não somos mutantes” ou “afasto o que não conheço”).
    Só quem vem de outra realidade consegue perceber a beleza dessa música e o quanto Caetano teve que abrir o coração para a compor. Show de sensibilidade!
    Parabenizo Cristóvany Fróes pela sua leitura da música. Estou certo de que é a interpretação mais fidedigna das reais intenções de Caetano.

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  29. Também não gosto da musica em sua totalidade, mas vejo como alguem que ainda não consegue interpretar a cidade como um todo, São Paulo é uma cidade linda e complexa, que tem a união de antigo e novo, que se muda constantemente e que se adapta asmudanças, São Paulo é uma megalópolis, sendo uma das maiores cidades do mundo, no Brasil, se fosse um estado, só seria menor que o próprio estado de SP, em questão financeira, logo, entendo que não seja facil, alguem de fora interpretar a cidade de SP.AMO SP, e também não posso considerar a musica o Hino de minha terra, há musicas melhores que nos representam.

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  30. Olha pessoal, temos que olhar para essa musica com olhares positivos. Na minha opinião a musica retrata bem a realidade paulista, porem, é notoria em alguns fragmentos da mesma uma representaçao imaginARIA DO Autor.

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  31. Aff, a musica é bem complicada, porem argumenta bem a realidade de sao paulo.em alguns fragmentos e notoria a imagnaçao do autor.

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  32. Nunca pensei que houvesse tanta dualidade de interpretações sobre esta música… para quem vem de fora, se apavora com a enormidade da cidade, a selva de pedra, a confusão… mas pouco a pouco vai-se encontrando poesia nas esquinas, nas pessoas, e descobre-se muito mais do que a enormidade da cidade. Que convenhamos, por si só não é bonita, mas procurando nos detalhes, é possível encontrar muita beleza! E pouco a pouco entranha-se, e torna-se uma realidade concreta, e que aprendemos a amar! É tão simples, e sim, tão real sobre a cidade!

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  33. e se nos paulistanos resolvessemos falar através de musicas todas as coisas ruins e feias que se tem no nordeste começando pelo povo pela sujeira e pela pobreza quem ja foi a salvador sabe do que falo muitos questionam em musicas e poemas as partes ruins cidade de sao paulo mas a cada dia que passa sao mais e mais imigrantes chegando minha sáo paulo eu te amo e nao seria uma musica imbecil de uma pessoa mais imbecil ainda que nem daqui é que mudaria todo meu amor por vc nao interessa se é cantor, autor ou poeta

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  34. Kaiser Schwarcz

    Adoro esta música. Para mim, que sou carioca e moro em São Paulo, é uma excelente tradução das primeiras impressões que a capital causa ao imigrante, não só ao nordestino.

    Como toda letra, esta deve ser analisada levando-se em conta o contexto da época e do próprio momento da vida o autor.

    Além disso deve-se levar em conta que os versos de Caetano na época da tropicália muitas vezes falavam de mais de um tema ao mesmo tempo.

    “Alguma coisa acontece
    No meu coração
    Que só quando cruzo a Ipiranga
    E a Avenida São João…”

    O cruzamento da Av. São João com a Ipiranga era na época o centro cultural e São Paulo. Mais ou menos o que é hoje a Av. Paulista. O impacto de andar por essa região era o mesmo causado hoje pela Paulista nos nos visitantes de fora; a estupefação e a dificuldade de interpretar tantas informações contraditórias.

    “É que quando eu cheguei por aqui
    Eu nada entendi”

    O mesmo sentimento de dificuldade de interpretação da cidade.

    “Da dura poesia
    Concreta de tuas esquinas”

    Aqui o poeta se refere ao movimento artístico do concretismo, que teve seu foco brasileiro na São Paulo da década de 1950, com poetas como Augusto e Haroldo de Campos, Décio Pignatari e Ferreira Gullar. É um elogio à arte paulistana da época que influenciou fortemente a tropicalia.

    Caetano também brinca aqui com as palavras pois “concreta” remete também ao concreto/cimento presente em toda parte nos prédios e monumentos de São Paulo.

    “Da deselegância discreta
    De tuas meninas…”

    Elegância é a qualidade do que possui harmonia e leveza de forma. Aqui Caetano afirma que as paulistanas tinha uma discreta ausência desses atributos.
    Por um lado indica estranheza do baiano com o comportamento e aparência das paulistanas do início da década de 1960, muito diferente das mulheres nordestinas. Por outro, a bossa nova, da qual caetano era fã, havia iniciado um movimento de rejeição à harmonia musical perfeita com o uso de acordes diossonantes. Isso pode indicar que apesar da estranheza, as paulistanas eram admiradas por Caetano deviso à sua falta de “harmonia” estética.

    “Ainda não havia para mim Rita Lee
    A tua mais completa tradução”

    Concordo com as avaliações feitas anteriromente. Rita Lee, filha de nordestino com americano era um retrato da São Paulo antropofágica que inspiraria a tropicalia. Com sua música ‘minas de sampa’ ela traduzia para o imigrante a beleza feminina paulistana.

    “Quando eu te encarei
    Frente a frente
    Não vi o meu rosto

    É que Narciso acha feio
    O que não é espelho
    E a mente apavora
    O que ainda não é mesmo velho”

    Aqui há uma autocrítica do poeta mais maduro, reconhecendo que o mau juízo feito da capital paulista quando de sua chegada era fruto da rejeição ao novo e ao que era diferente da conhecida sociedade baiana.

    “Chamei de mau gosto o que vi
    De mau gosto, mau gosto

    Nada do que não era antes
    Quando não somos mutantes…”

    Caetano a princípio julgara como mau gosto devido à falta de senso estético o que na verdade era um senso estético novo e ‘mutante’, considerável mau gosto apenas sob uma ótica estética conservadora. Aqui há nova refeência à banda de Rita Lee, que integrou o movimento tropicalista e ‘mutava’ a estética musical paulistana e brasileira.

    “E foste um difícil começo
    Afasto o que não conheço
    E quem vem de outro sonho
    Feliz de cidade
    Aprende de pressa a chamar-te
    De realidade
    Porque és o avesso
    Do avesso, do avesso, do avesso…”

    Um difícil começo para o imigrante por ser uma sociedade redicalmente diferente da nordestina. Como já disse antes, a primeira reação foi uma avesão ao desconhecido. Para quem vinha de uma cidade como Salvador, um sonho feliz na avaliação do poeta, Sampa representava a dura realidade ‘concreta’ das contradições brasileiras. O ‘avesso do avesso, do avesso, do avesso’ nada mais é que o real.

    “Do povo oprimido nas filas
    Nas vilas, favelas”

    A opressão das classes sociais desfavorecidas que impera nas grandes cidades.

    “Da força da grana que ergue
    E destrói coisas belas
    Da feia fumaça que sobe
    Apagando as estrêlas”

    Aqui Caetano nota os males que acompanham o desenvolvimento econômico e industrial, do qual São Paulo era e é o maior expoente brasileiro. O crescimento da cidade destruía a natureza ao redor, desmatando as florestas e poluindo os rios, mas também erguia os prédios, monumentos e espaços públicos, além da arte paulistana.

    “Eu vejo surgir teus poetas
    De campos e espaços”

    Apesar desses males, São Paulo produz arte e poesia.

    “Tuas oficinas de florestas
    Teus deuses da chuva…”

    “Panaméricas
    De Áfricas utópicas”

    Todas as américas. A presença de pessoas das mais diversas origens étnicas. Também se refere ao livro PanAmérica de Josá Agripino de Paula, que fala da cultura popular das Américas. A obra tem tendência surreal e influenciou a tropicalia.

    “Túmulo do samba
    Mais possível novo
    Quilombo de Zumbi”

    Caetano parafraseia Vinicius de Moraes que considerava o samba paulistano inferior ao carioca e ao baiano. Independente disso era o lugar mais provável para que os mais pobres conseguissem sua independência social/econômica.

    “E os novos baianos
    Passeiam na tua garoa
    E novos baianos
    Te podem curtir numa boa…”

    Os Novos Baianos eram o grupo musical nascido na Bahia formado por Pepeu Gomes, Paulinho Boca de Cantor, Baby Consuelo, Dadi e Moraes Moreira, entre outros. Mas também eram os jovens baianos da tropicália; Caetano, Gil, Bethânia. Todos eles passeavam pela garoa de Sampa e ‘curtiam’ a cidade.

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  35. Tem muitos comentários repetitivos. Parece que as pessoas não leem o que já foi descrito em outras análises. Se não tiver nada diferente para acrescentar, melhor não escrever nada.

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  36. Sérgio Darwich

    A primeira vez que ouvi e vi Caetano Veloso cantar Sampa foi na tv, num especial sobre ele, o Caetano, realizado pela tv Bandeirantes, de São Paulo. Me emocionei muito ao ouvir este sama-choro de grande beleza e profundidade poética. Ele traduziu o que é São Paulo de forma precisa, elegante e crítica. Há, no entanto, paulistanos/paulistas burros e de direita, conservadores e cegos, (como há também nordestinos, cariocas, mineiros, gaúchos, paraenses e paranaenses burros, cegos e de direita, pois só entendem o que é bom aquilo que é elogioso e que adere sem críticas e sem alguma pessoalidade aquilo que diz que lhe pertence, como a cidade de São Paulo – que não pertence a ninguém, pois é uma cidade do mundo. Morei por 17 anos em São Paulo e, certamente, é uma ciade mutante, que destrói coisas belas, sim; é só recordar dos lindos casarões da Av. Paulista que foram postos abaixos para que se construíse os espigões que agora estão lá. Há claro a deselegância discreta das moças de São Paulo. E isto é real. Isto quer dizer que muitas meninas lindas de Sampa se vestem mal, combinam mal as roupas. Vestem calsas de moleton com casaco jeans ou vestidos longos roxos com botas brancas, blusas estampadas e casaco de couro azul marinho. São discretas, mas deselegantes. Ao contrário do norte e nordeste onde as meninas, quando são deselegantes são também muito indiscretas e espalhafatosas. Mas eu vejo isso com muito bom humor. ;E, sim, muito engraçado e poético. Tem a dura poesia concreta das esquinas – q nada mais são do que as informações sintéticas das propagandas luminosas do alto dos prédios, que informam, divulgam uma marca de produto com extrema precisão e síntese, que é mais vista do que lida – e isto influenciou a poesia conreta dos poetas concretos de Sampa. caetano cita Deuses da Chuva e da Morte de Jorge Mautner, cita Ronda, cita a poesia concreta, cita Panamérica é um livro de Agripino de Paula, cita a banda Os Mutantes, cita Rita Lee, cita um monte de coisas interessantes e bonitas de Sampa sem deixar de ver que ela tem, sim, muitos problemas e “feiosidades”. São Paulo é apaixonante, sem ser bela. Como muitas mulheres que, sem ser bonitas, apaixonam.

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  37. Prudêncio Caetano

    A música é uma metáfora, usei muito num curso de PNL, Alguma coisa acontece no meu coração ( uma âncora emocional), ‘é que narciso acha feio o que não é espelho’, diz sobre que só consideramos o que é igual a nos, ‘um difícil conheço afasto o que não conheço’, fala do medo no novo, da insegurança diante das novidades, quando cita Rita Lee, acredito que seja porque a Rita fazia traduções das músicas dos Beatles, a deselegancia discreta das suas meninas, São Paulo é isso, tudo junto e misturado, não existe moda em SP, é um lugar de mulheres lindas e de estilo variado, quanto ao avesso do avesso do avesso do avesso, acredito que o poeta quer dizer, não tente entender São Paulo, não é pra ser sentido é pra ser vivido.

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  38. Várias interpretações da mesma música, por esta razão que nunca concordei com interpretação de texto em concurso público, cada um interpreta de uma forma, há várias formas de interpreta. 42 comentários duas ou três pessoas concordaram em um ou outro parte da poesia.

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  39. Uma das letras simples e facilmente compreensíveis de Caetano, não por isso menos bela. Narra sua experiência com São Paulo. Não vejo sentido em interpretar o que ele quer dizer com a letra; considero evidente que o eu lírico se sente inapto, diferente, e que sua visão da cidade é fatídica, do concreto de das filas. O talento de Caetano Veloso está nas analogias e relações que ele compõe para retratar sentimentos simples como insegurança e apreensão. Apenas da mente desse mestre podemos desfrutar de recursos tão ricos e peculiares a ele como a referência a narciso, o avesso do avesso’, a poluição que apaga as estrelas, sua multiplicidade em Panaméricas de Áfricas utópicas etc.

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  40. Edson Matosinho

    Coluna do professor Pasquale
    Terminei o texto da semana passada com uma referência a esta passagem de “Sampa”, de Caetano Veloso: “Alguma coisa acontece no meu coração (“¦) / É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi da dura poesia concreta das tuas esquinas…”. Perguntei ao leitor o que entende (além do óbvio) da passagem “da dura poesia concreta das tuas esquinas”. Para “ajudar”, lembrei que a capital paulista é o berço de um movimento artístico importante.

    Pois bem. Que movimento é esse? É justamente o “concretismo” (“…a dura poesia concreta…”), engendrado em São Paulo na década de 40 por Haroldo e Augusto de Campos, Décio Pignatari, José Lino Grünewald, entre outros. No concretismo, a arte materializa (concretiza) visualmente o que expressa, por meio de diversos recursos. Na poesia concreta, o texto não se vale da palavra só como elemento de significado; vale-se dela como elemento também imagético, sonoro, ideogramático, ideográfico. No concretismo, enfim, a palavra é um “tijolo”, que participa da construção de uma mensagem visual, sonora, transmitida por uma sintaxe ideogramática.

    Vamos traduzir isso com um exemplo concreto (perdão pelo trocadilho), o poema “Beba Coca-Cola”, do grande Mestre Décio Pignatari:

    Reprodução

    Leia de novo, com toda a atenção do mundo, para não se deixar levar pelo piloto automático, isto é, para não ler “beba” onde está escrito “babe”, por exemplo. Note a importância do visual e do sonoro para a composição da mensagem do poema, que desemboca no estranhamento causado por “cloaca”, palavra que contém os fonemas presentes em “cola”, em “coca” e em “caco”. Se o leitor não sabe o que é “cloaca”, vale a pena ir a um dicionário.

    Na letra de “Sampa”, ao se referir à poesia concreta, Caetano reitera a importância dessa estética na sua produção e na de outros grandes nomes da poesia musical brasileira, como Gilberto Gil, Walter Franco, Jorge Portugal, Paulo Leminski, Arnaldo Antunes, entre outros. Muitas das letras desses nossos grandes autores devem ser ouvidas com o texto nas mãos, para que a poesia seja não só ouvida, mas também vista.

    Por que será que em “Sampa” Caetano escreveu “Eu vejo surgir teus poetas de campos e espaços / Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva”? “Campos” aí é uma referência direta aos irmãos Campos (Haroldo e Augusto), dois dos pais da poesia concreta brasileira. Em “tuas oficinas de florestas”, é preciso levar em conta a elipse do verbo: “(vejo surgir) tuas oficinas de florestas”, ou seja, as oficinas (= industrialização) surgem das florestas, mas… Mas com “oficinas” Caetano faz referência a um dos mais importantes centros de cultura de São Paulo e do Brasil, o teatro Oficina, fundado em 1958.

    E lá vou eu repetir o que já disse aqui inúmeras vezes: a (boa) leitura vai muito além da mera decodificação dos caracteres, letras, palavras etc. É preciso perceber o texto no contexto, o que implica conhecer os assuntos dos quais o texto fala e, consequentemente, conhecer também os textos com os quais ele dialoga. Letra de música não é só um blá-blá-blá para preencher a melodia, sobretudo no caso da (boa) música brasileira, em que as letras muitas vezes são verdadeiras obras-primas. É isso.

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