Canoeiro

Domingo de tardezinha, eu estava mesmo a toa
convidei meu companheiro, pra ir pescar na lagoa
Levemos a rede de lanço
Ai, ai fomos pescar de canoa

Eu levei meus apreparos pra dar uma pescada boa
Eu sai logo sereno, levando minha canoa
Cada remada que eu dava
Ai, ai dava um balanço na proa

Fui descendo rio abaixo, remando minha canoa
A canoa foi rasgando foi deitando as taboa
A garça avistei de longe
Ai, ai chega perto ela avoa

O rio tava enchendo muito, fui encostando a canoa
Eu entrei numa vazante fui sai noutra lagoa
Fui mexendo aquele lodo
Ai, ai onde os pintado amoa

Prá pegar peixe dos bão, da trabalho a gente soa
Eu jogo timbó na água, que a peixaria atordoa
Jogo a rede e dou um grito
Ai, ai os dourado amontoa

Ferreirinha

Eu tinha um companheiro por nome de Ferreirinha
Nós lidava com a boiada desde nós rapazinho
Fomos buscar um boi bravo no campo de Espraiadinho
Era vinte e dois quilômetros da cidade de Pardinho

Nós chegamo no tal campo cada um seguiu prum lado
Ferreirinha foi num potro redondão muito cismado
Já era de tardezinha e eu já estava bem cansado
Não encontrava o Ferreirinha e nem o tal boi arribado

Naquilo avistei o potro que vinha vindo assustado
Sem arreio e sem ninguém fui ver o que tinha se dado
Encontrei o Ferreirinha numa restinga deitado
Tinha caído do potro e andou pelo campo arrastado

Quando vi meu companheiro meu coração se desfez
Apeei do meu cavalo com tamanha rapidez
Chamava ele por nome chamei duas ou três vez
E notei que estava morto pela sua palidez

Pra deixar meu companheiro é coisa que eu não fazia
Deixar naquele deserto alguma onça comia
Tava ali só eu e ele e Deus em nossa companhia
Veio muitos pensamentos só um é que resolvia

Pra levar meu companheiro vejam quanto eu padeci
Amarrei ele pro peito e numa árvore suspendi
Cheguei meu cavalo embaixo e na garupa desci
E com o cabo do cabresto eu amarrei ele depois

Eu saí pelo tal campo tão triste tão amolado
Era um frio do mês de junho seu corpo estava gelado
Já era uma meia-noite quando eu cheguei no povoado
Deixei na porta da igreja e fui chamar o delegado

A morte deste rapaz mais do que eu ninguém sentiu
Deixei de lidar com gado minha inclinação sumiu
Quando lembro essa passagem franqueza me dá arrepio
Parece que a friagem das costa ainda não saiu

Boi soberano

Me alembro e tenho saudade
Do tempo que vai ficando
Do tempo de boiadeiro
Que eu vivia viajando

Eu nunca tinha tristeza
Vivia sempre cantando
Mês e mês cortando estrada
No meu cavalo ruano

Sempre lidando com gado
Desde a idade de quinze ano
Não me esqueço de um transporte
Seiscentos boi cuiabano
No meio tinha um boi preto
Por nome de Soberano

Na hora da despedida
O fazendeiro foi falando
Cuidado com este boi
Que nas guampa é leviano

Este boi é criminoso
Já me fez diversos dano
Toquemo pela estrada
Naquilo sempre pensando

Na cidade de Barretos
Na hora que eu fui chegando
A boiada estourou, ai
Só via gente gritando
Foi mesmo uma tirania
Na frente ia o Soberano

O comércio da cidade
As portas foram fechando
E na rua tinha um menino
De certo estava brincando

Quando ele viu que morria
De susto foi desmaiando
Coitadinho debruçou
Na frente do Soberano

O Soberano parou, ai
Em cima ficou bufando
Rebatendo com o chifre
Os bois que vinha passando
Naquilo o pai da criança
De longe vinha gritando

Se esse boi matar meu filho
Eu mato quem vai tocando
E quando viu seu filho vivo
E o boi por ele velando

Caiu de joelho por terra
E para Deus foi implorando
Sarve meu anjo da guarda
Deste momento tirano

Quando passou a boiada
O boi foi se arretirando
Veio o pai dessa criança
Me comprou o Soberano
Este boi sarvô meu filho
Ninguém mata o Soberano