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Análise de Admirável Gado Novo: contexto e inspiração
Vamos começar pela história da música e o contexto em que ela foi escrita. O ano era 1979 e, aqui no Brasil, o último presidente da ditadura civil-militar, João Baptista Figueiredo, tinha acabado de assumir o poder.
Nas ruas, continuava a luta incansável pela liberdade de expressão, enquanto na arte misturavam-se os sentimentos de cansaço e de esperança.
Músicas da Ditadura
Créditos: Divulgação
Ao escrever Admirável Gado Novo, Zé Ramalho usa não só desse contexto, mas também de toda a sua trajetória de dificuldades desde a infância no sertão da Paraíba.
A música é um misto de crítica à exploração do trabalho e à manipulação psicológica/intelectual. A principal inspiração é uma obra literária!
A referência a Admirável Mundo Novo
Como fica claro no título, a música faz referência ao livro Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. Esse livro traz uma história distópica, de ficção futurista, onde um governo central e autoritário se encarrega de manter a população “feliz” durante todo o tempo, evitando qualquer tipo de conflito ou desentendimento.
Capa do livro Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley
Capa do livro Admirável Mundo Novo / Créditos: Divulgação
Dentro da história, os seres humanos são divididos em castas, e uma delas, a mais baixa, é biologicamente fabricada para servir, fazer o trabalho pesado, sem reclamar e sem sequer ter qualquer consciência sobre o quão injusta é a situação.
Foi dessa história que veio a inspiração para o uso da palavra gado, afinal, é isso que o gado faz no campo: apenas obedece, ainda que inconscientemente.
Análise da letra de Admirável Gado Novo
Agora que você já entendeu de onde vieram as inspirações, é hora de interpretar a letra de Admirável Gado Novo!
Vocês que fazem parte dessa massa
Que passa nos projetos do futuro
É duro tanto ter que caminhar
E dar muito mais do que receber
Logo na primeira frase, já vemos que a intenção do compositor é ser direto. Ele não está falando sobre uma personagem, pelo contrário, faz um discurso direcionado ao ouvinte, e se posiciona como estando fora da massa.
A massa aqui vem daquela ideia de homogeneidade — ninguém gosta que a massa do bolo fique com os ingredientes visíveis, né? É preciso misturar ao ponto de tornar tudo perfeitamente igual.
No caso da música, a massa são os cidadãos, usados como construtores dos projetos que seus líderes têm para o futuro. Uma população usada como massa de manobra, como diria nosso amigo Regino em O Rei do Gado.
Nos dois últimos versos da primeira estrofe, a música fala sobre a dura realidade do trabalhador, que sempre ganha menos do que produz. Algumas análises afirmam que é uma referência ao conceito de mais-valia, de Karl Marx.
E ter que demonstrar sua coragem
À margem do que possa parecer
E ver que toda essa engrenagem
Já sente a ferrugem lhe comer
Apesar de todos os contratempos, o trabalhador precisa manter a postura e a coragem, já que é dela que depende seu sustento.
No entanto, esse sistema de trabalho, ou mesmo o funcionamento da economia, já demonstram defeitos que indicam um colapso próximo. Mais uma vez, pode-se entender o trecho como uma crítica ao capitalismo e à exploração da força de trabalho.
Ê, ô, ô, vida de gado
Povo marcado, ê!
Povo feliz!
Ê, ô, ô, vida de gado
Povo marcado, ê!
Povo feliz!
Nas fazendas, existe o hábito de marcar o gado com o ferrete, um instrumento de metal que é aquecido até ficar em brasa e depois é prensado contra o couro do animal.
Gado marcado
Gado marcado / Créditos: Divulgação
Assim, a queimadura com as iniciais do dono identifica o rebanho e organiza o domínio do fazendeiro. Depois desse processo, diz-se que aquele é um gado marcado.
O refrão da música faz referência a essa marcação, e também ao estado de felicidade forçada em Admirável Mundo Novo. Ou seja, estando devidamente manipulados dentro do controle dos líderes, reina no povo a falsa ideia de felicidade.
Lá fora faz um tempo confortável
A vigilância cuida do normal
Os automóveis ouvem a notícia
Os homens a publicam no jornal
Assim como no livro, a música fala da situação de normalidade enquanto tudo e todos estão sob controle. Na obra, existe uma pílula chamada soma que é dada aos cidadãos sempre que algum problema surge.
Ela garante que tudo fique sempre sob controle do governo. Enquanto a vigilância está lá fora, a vida segue dentro do esperado."