"Tratado sobre Interpretação da letra "Flores"
Inicialmente consideremos que qualquer texto possa ser interpretado
em linguagem denotativa (literalmente), conotativa(não-literal) e mista.
Para as artes tem mais alcance utilizar a conotativa, pois nos trará maiores
benefícios e aplicabilidade. Pois eu não me interessaria por alguém que destruiu
fisicamente seu próprio canteiro considerando que isto não me afetaria muito, mas a interpretação
literal não estaria errada, simplesmente seria a mais insignificante.
A mista como muitos estão usando para esta música também não está errada, mas
se não há referência a fatos reais, a uma homenagem a alguém, a uma biografia, porque usá-la?
porque considerar que o início da música(relato do passado) é conotativo, e a descrição do presente
(o enterro) é denotativa?
Mas continuemos com a introdução: outros erros frequentes de interpretação:
1) Erro: querer saber a opnião dos autores: uma vez escrita a letra da música e lançada ao público,
não interessa a opnião de seus autores, a letra tem vida própria dentro dos significados possíveis, se os autores expressam
que queriam dizer tal coisa, isto só é válido se eles conseguiram dizer, se usaram corretamente as palavras e seus significados.
A informação dos autores seria útil apenas em relação a nomes próprios (caso exista, que não é o que ocorre nesta música),
no sentido histórico a saber a quem se referia, mas mesmo assim, uma vez lançada a homenagem ou referência a alguém pode
também ser usada para os de mesmo nome.
2) Outro erro: achar que a música em sua interpretação conotativa possa significar qualquer coisa: na interpretação conotativa,
com certeza as palavras alcançam vários significados, muito mais que os significados literais, mas estes significados são restringidos
pelo uso geral que se faz destas figuras de linguagem, e também da análise do texto em conjunto para se verificar os significados possíveis
dentro da estética. E claro pode também se criar um significado novo e para tanto deve estar dentro de uma lógica (metafórica, metonímica, hiperbólolica, etc...)
de criação e referência lógica com seu significado literal. Ainda durante o tempo os significado das palavras podem mudar, e o que vale é o significado atual,
podendo ser apenas informado pelo significado histórico (mas aqui precisaria de muitas décadas e séculos, que não é o caso)
Assim, fiquemos com a interpretação completamente conotativa. E passemos às frases:
"Olhei até ficar cansado
De ver os meus olhos no espelho"
Fez uma análise introspectiva e não gostou do que viu
(Cansou de ser egoísta, de só ver a si próprio)
"Chorei por ter despedaçado
As flores que estão no canteiro"
ficou triste por ter magoado as pessoas que o cercavam,
os seus amigos e conhecidos, que estão no seu círculo íntimo de convivência, o seu canteiro.
Os punhos e os pulsos cortados
E o resto do meu corpo inteiro
Não-literal: considerando tudo que aconteceu deseja socar o espelho (punhos cortados)
e se matar (pulsos cortados) E o resto do meu corpo inteiro ( e se sente todo cortado por dentro)
Observe que não há verbo, do relato do passado, ele passa para o presente apenas com descrições,
e não afirma que fez algo.
Há flores cobrindo o telhado
E embaixo do meu travesseiro
Há flores por todos os lados
Há flores em tudo que eu vejo
Descrição do próprio enterro
é assim que ele se sente, novamente apenas um sentimento,
enterro não-literal.
A dor vai curar essas lástimas
O soro tem gosto de lágrimas
As flores têm cheiro de morte
A dor vai fechar esses cortes
Após a morte fictícia, agora ele analisa a possibilidade
de cura, e considera que o remédio é amargo (soro tem gosto de lágrimas)
e quer o renascimento: a dor será nescessária para fechar os cortes
Flores
Flores
As flores de plástico não morrem
Ele morreu porque era verdadeiro (ainda que egoísta era verdadeiro = sofreu e querendo mudar renasceu)
Já os falsos não morrem, não sentem, não se importam.
Assim ele diz que apesar de tudo que ele fez nunca foi falso."
"Muita gente ouve esta música e nem se liga que há uma história sendo contada. Os mais atentos percebem: a música é claramente sobre uma tentativa de suicídio. Se o suicídio foi levado a cabo ou não, este é o ponto de discordância. Uma pá de gente, incluindo o Julio, acha que o narrador morreu e está sendo velado. Eu já acho que o cara não conseguiu morrer. Um verso em especial parece em total concordância com a primeira tese:
"Há flores cobrindo o telhado"
O telhado aí, em sentido figurado, seria a tampa do caixão do defunto. Sim, é normal haver flores jogadas na tampa do caixão. Porém, no verso seguinte:
"E embaixo do meu travesseiro"
O travesseiro aí, nesta teoria, só poderia ser uma parte acolchoada do caixão na altura da cabeça, já que ninguém é enterrado com travesseiro. Certo? Mas não se coloca flores debaixo do acolchoamento. E, se colocassem flores entre o acolchoamento e o narrador, ele deveria dizer ao invés "E em cima do meu travesseiro". Fora que, se seguirmos esta teoria, alguns outros versos ou parecem fora de contexto ou perdem o sentido cronológico que eu acredito que a letra possua (ninguém toma soro depois de já estar dentro de um caixão, em outras palavras).
Reconheço que esta interpretação do telhado é muito interessante e algo que eu não tinha pensado antes. Mas o fato é que desde a época do Titãs Acústico, quando ouvi a música pela primeira vez, a música para mim sempre foi sobre uma tentativa frustrada de suicídio. Senão, vejamos:
Começa a história. Estando há algum tempo deprimido (por motivos desconhecidos, mas tenho minhas "teorias", que exporei na próxima seção :D), o narrador volta para casa. Neste dia específico, ele (ou ela) tem um descontrole emocional e desconta a raiva e frustração em algumas flores no canteiro do quintal, antes de entrar em casa. Chegando em seu quarto, idéias perturbadoras surgem em sua mente. Sozinho em casa, deprimido e angustiado com a decisão que deverá tomar, o narrador se fita fixamente no espelho, com o olhar vago e pesado. É daí que começa a narração: "Olhei até ficar cansado / De ver os meus olhos no espelho".
"Chorei por ter despedaçado / As flores que estão no canteiro": neste momento, o narrador se sente um merda total que não vale nem as flores que ele acabara de destruir. Na sua visão distorcida pela depressão, sua vida só trazia desgraça e destruição, para si e para os outros. Então, aos prantos, ele toma a decisão: vai se cortar. "Os punhos e os pulsos cortados / E o resto do meu corpo inteiro". Este verso possui uma ambigüidade. Se houver uma vírgula ("E o resto do meu corpo, inteiro"), isto quer dizer que ele cortou somente os pulsos; mas se não tiver a vírgula então isto significaria que ele se cortou todo. Este detalhe seria importante para fazer um provável diagnóstico de Transtorno de Personalidade Borderline, o que faria todo o sentido de acordo com a minha teoria. Mas esta suposição não é crucial pra elucidar o ponto de discórdia, então sigamos adiante considerando apenas o fato de que ele cortou os pulsos.
O sangue começa a se esvair no chão do quarto. Enfraquecido, o narrador cai no chão, ao lado da cama. O vermelho do sangue lembra as flores (rosas?) de seu canteiro. Neste momento, o narrador começa a ver flores em tudo à sua volta: "Há flores cobrindo o telhado / E embaixo do meu travesseiro / Há flores por todos os lados". Alteração mental é um sintoma presente em casos de choque hipovolêmico (causado por grande perda de sangue)[1], não sendo incomum haver delírio[2]. Se bem que não podemos descartar a possibilidade de o narrador ter usado algum narcótico antes. Enfim, caído no chão ele vê flores no teto do quarto (como Lester Burnham em "Beleza Americana", só que sem a adolescente gostosa) e em tudo o mais. "Telhado" e "travesseiro" foram palavras escolhidas para manter a rima; não passam de exemplos do caso mais geral, "Há flores em tudo que eu vejo". Logo depois da confusão mental vem o desmaio pela falta de sangue no cérebro. Se o sangramento persistir, a pessoa pode entrar em coma e morrer.
O narrador retoma a consciência no hospital. Provavelmente alguém chegou em casa (algum parente?) e o encontrou desmaiado. O socorro foi rápido e evitou a sua morte. Agora ele se encontra num quarto do hospital, já fora de perigo. Ele se sente fraco, com dor no corpo e nos locais dos cortes. O impulso insano que o levou a tentar se matar passou, mas ainda não passaram a tristeza e a angústia que o causou. "A dor vai curar estas lástimas / O soro tem gosto de lágrimas". Alguma visita deixou flores em seu quarto. Isto o lembra da experiência passada: "As flores têm cheiro de morte". Resignado, o narrador reflete sobre a vida e a morte e vê que sua atitude impulsiva não era a única saída para seu problema: o próprio tempo faz com que a dor emocional acabe passando. As feridas emocionais se fecharão junto com as físicas. Mas enquanto não fecharem totalmente, haverá dor. "A dor vai fechar estes cortes".
Ainda triste, o narrador se compara a uma flor artificial, inferior a uma flor de verdade e que não é capaz de morrer justamente por já estar vazia de vida. "As flores de plástico não morrem"."