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Walter Portela
09 Jul, 2013
"RELEMBRANDO O MMDC
O dia 23 de maio de 1932 ficou marcado na história do país pela sigla MMDC, que são as iniciais dos nomes de quatro estudantes mortos em choque com a polícia getulista e que tornaram-se mártires da revolução constitucionalista, dando origem ao Movimento MMDC. Anos depois, a data foi oficializada como o "Dia da Juventude Constitucionalista", que lembra a participação dos jovens na revolução.
Na noite do dia 23, um grupo de populares saiu da Praça do Patriarca e se dirigiu para a sede do Partido Popular Paulista (PPP) e da Legião Revolucionária, um clube de tenentes favorável a Getúlio Vargas, na Praça da República, em São Paulo. Dentro do prédio, os legalistas resistiram. Como os revolucionários não conseguiam entrar, chegaram duas escadas para que populares invadissem. Um jovem subiu e tomou um tiro. Mais três tentativas foram feitas e os jovens foram baleados, resultando em quatro mortos: Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo (MMDC). Um outro jovem, Orlando Oliveira Alvarenga, também foi baleado, mas faleceu meses depois, ficando fora da sigla MMDC. Para homenageá-lo e a outros estudantes anônimos, o governo do Estado criou o Colar Cruz de Alvarenga e dos Heróis Anônimos".
No dia seguinte ao tumulto, num jantar no restaurante Posilipo, foi fundado o MMDC, uma organização civil que passou a atuar na clandestinidade e exerceu importante papel na organização, apoio e treinamento aos revolucionários paulistas.
A morte dos jovens estimulou mais ainda a articulação dos paulistas. Minas Gerais e Rio Grande do Sul acenaram com apoio ao movimento armado em São Paulo. Flores da Cunha, interventor no Rio Grande do Sul, chegou a prometer pegar em armas contra Vargas. A data da revolução foi marcada para o dia 14 de julho, mas os acontecimentos se anteciparam. Bertoldo Klinger, comandante militar do Mato Grosso, que garantira apoio ao movimento, foi destituído do posto e transferido para a reserva. Diante do imprevisto, os paulistas resolveram apressar o início da revolução, que acabou estourando no dia 9 de julho.
TESTEMUNHA: O jornalista e escritor Silveira Peixoto testemunhou a morte dos estudantes Miragaia, Martins, Dráusio e Camargo, durante o confronto com a Legião Revolucionária em 23 de maio. Durante a Revolução, Peixoto fez a cobertura jornalística pelo Diário Nacional e numa entrevista publicada em julho de 1999 contou o que aconteceu.
"Na noite do dia 23, alguém lembrou que a Legião Revolucionária, o Partido Popular Paulista, ficava na Praça da República. Uma multidão partiu para lá. Já era noite fechada. Quando chegamos, mais ou menos na esquina da Dom José de Barros, veio uma rajada de metralhadora, dispersando o grupo. Juntamo-nos de novo e fomos correndo para lá, o último prédio à direita de quem vai para a Praça da República, na esquina com a Barão de Itapetininga. Tentamos abrir o portão reforçado e não conseguimos. Arrumamos escadas para subir à sede do PPP na sobreloja. Subiu um, que tenho a impressão que foi o Martins e... teve o peito picotado pela metralhadora. Eu ajudei a socorrê-lo, carregando-o dali mas já devia estar morto. Enquanto isto, subiram outros e aconteceu a mesma coisa. Nisso, a Força Pública, cercou o quarteirão e na base da conversa, conseguiu resolver o problema. Fomos então tratar dos baleados. Quatro estavam mortos e o Alvarenga ainda estava vivo. Imediatamente tratamos de levá-lo ao hospital. Ficou 15 dias internado e morreu. A sigla MMDC aproveitou Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo. Foi fundada antes da morte do Alvarenga, mas mesmo assim, nós o reverenciamos também."
- Mário MARTINS de Almeida
31 anos, solteiro, fazendeiro em Sertãozinho.
Nascido em São Manoel (SP).
- Euclydes Bueno MIRAGAIA
21 anos, solteiro, auxiliar de Cartório em São Paulo.
Nascido em S. José dos Campos(SP).
- DRÁUSIO Marcondes de Souza
14 anos, ajudante de farmácia em S. Paulo.
Nascido em São Paulo.
- Antonio Américo de CAMARGO Andrade
30 anos, casado, 3 filhos, comerciário em S. Paulo.
Nascido em São Paulo."