"Nando Reis é um poeta! Jamais ousaria interpretar suas músicas, pela sua complexidade, mas posso sim, fazer a minha “leitura” acerca da mesma.
Posso dizer que estamos diante de uma belíssima declaração de amor, de um amor tão forte, que não coube em sua própria canção, suscitando desta forma,varias “leitu-
ras”.
RELICÁRIO
(Nando Reis)
“É uma índia com colar, a tarde linda, que não quer se pôr” (uma pessoa ligada à natureza, talvez uma bióloga, uma ambientalista ou surfista; Uma pessoa verdadeira, simples, frágil, mas ao mesmo tempo, cheia de atitude e força, que não permite ser corrompida pela dureza da vida)
“Dançam as ilhas sobre o mar, sua cartilha tem o ar de que cor?” (apesar dessa pessoa estar sempre rodeada de gente, é muito discreta e essa é uma das muitas afinidades entre os dois; Já a cartilha, faz alusão, à uma pessoa culta, inteligente, diferente da maioria, no quesito cultura, além de ser alguém com um caráter incontestável e que apesar de viver em um universo hostil, não carrega traços de violência, de rancor,de ódio, ou vingança e isto o deixa, ao mesmo tempo encantado e perplexo)
“O que está acontecendo, o mundo está ao contrário e ninguém reparou” (eles viveram uma paixão secreta, seus mundos particulares ficaram revirados, mas ninguém conseguiu perceber)
“O que está acontecendo? Eu estava em paz, quando você chegou” (ele tinha uma vida pacata, previsível, até o momento em que ela surgiu e mexeu com suas emoções mais fortes, o fez sorrir e chorar)
“Dançam os cílios em pleno ar, atrás do filho, vem o pai e o avô” (os cílios soltos no ar, dão a ideia de algo fora da realidade, uma paixão tão grande, que parecia irreal, que não parecia fazer parte da vida real dos apaixonados ditos normais; talvez nem fosse algo carnal, mas, uma paixão de alma; O filho-pai-avô, remetem à diferença muito grande de idade entre eles, mas que um estaria “coladinho” no outro como se fossem gêmeos, independente da diferença de gerações)
“Corre a lua, porque longe vai?” (porque o tempo passa e tudo fica tão distante? ele está cada vez mais, se distanciando daquela noite em que ele e a sua amada, experimentaram um amor incondicional)
“Sobe o dia tão vertical,” (os dias passam rápido)
“O horizonte anuncia com o seu vitral, que eu trocaria a eternidade por essa noite” (mas, se ele pudesse fazer voltar o tempo, ao invés de ficar apenas relembrando e resgatando lembranças, como quem, vê um filme desenhado na sua mente “os vitrais”, ele faria o impossível para que essa pessoa não o deixasse)
“Porque está amanhecendo, peço o contrário ver o sol, se pôr” (ele passava os dias desejando que logo anoitecesse, para vê-la)
“Porque está amanhecendo? Se não vou beijar seus lábios quando você se for” (Ele não queria que amanhecesse, pois, durante o dia eles ficavam separados um do outro, ou muito pouco mantinham contato)
“Quem nesse mundo faz o que há, durar, pura semente, dura, o futuro amor” (Ele acredita que, deve-se fazer com que as coisas boas e verdadeiras, perdurem, sejam permanentes; Ele gostaria que, a semente que fora plantada um dia por eles dois, pudesse germinar e durar “para sempre”)
“Eu sou a chuva pra você secar, Pelo zunido das suas asas você me falou” (É como se a pessoa o tivesse dito, que eles se completavam, como o sol completa a chuva e vice-versa; ou ainda, que ela o ajudaria sempre que ele estivesse passando por momentos de tempestade interior; O zunido de asas remete a anjo, como se ela tivesse o significado para ele, de um anjo)
“O que você está dizendo? Milhões de frases sem nenhuma cor” (talvez eles tivessem discutido e esta pessoa o tenha magoado com palavras duras, sem nenhuma emoção, sem romantismo, secas e frias, embora ele saiba, que no fundo, esta pessoa o ama muito, por isso mesmo, ele não compreende porque ela estava tão insegura e na defensiva).
“O que você esta fazendo? Um relicário imenso deste amor” (ele não se conforma ao ver que esta pessoa está tentando sucumbir esse amor)
“O que você está dizendo? O que você está fazendo? Porque está fazendo assim?” (ele está inconformado, principalmente por saber que ela o ama e o está tratando como se não o amasse, sendo rude no modo de falar e indo embora, com tanto amor ainda para ser vivido; Porque?)
“Desde que você chegou, o meu coração se abriu, eu não sinto mais calor e não sinto mais frio” (ela conseguiu torna-lo uma pessoa mais sensível, o fez sentir-se bem, independente dos problemas ou das dificuldades da vida, não se abala mais com as dificuldades que por ventura venha a enfrentar e, à partir dessa confiança que ela o fez sentir, ele acabou deixando transparecer seus sentimentos, coisa que já não fazia há tempo.)
“O que os olhos não veem, o coração pressente, mesmo na saudade, você não está ausente; Em cada beijo seu, em cada estrela do céu, em cada flor no campo, em cada letra no papel.” (mesmo longe, ele sente a presença da pessoa amada em tudo que o rodeia e não consegue ficar sem pensar nela em nenhum momento)
“Que cor terão seus olhos e a luz do seu cabelo, só sei que vou chama-lo de Ismael” (sabemos que esta estrofe refere-se a um filho que talvez ele tivesse vontade de ter com essa pessoa, mas seguindo o raciocínio que construí acerca da música, poderia interpretar esse ultimo parágrafo, dizendo, que ele adoraria saber, depois de tanto tempo sem ver a sua amada, como ela estaria, mas se não pode vê-la, sua amada ficará em sua memória, da forma que ele a idealizou, recriou, construiu; “Ismael” é como se ele dissesse: não me importa se você mudou, vou enxerga-la da maneira que eu quiser, como sempre a enxerguei..) (By Laíse Maia)
Espero ter podido contribuir."
M
Maicon Dias
10 Maio, 2011
"Palavras chaves: amor, separação, filho, mãe, fim de relacionamento amoroso, presença de terceira pessoa, sol, lua, dia, noite, saudade, esperança
Não pretendo analisar a música, mas sim apresentar meu ponto de vista, pois acredito que poesias são textos únicos e não cabe interpretações extensivas, sob pena de fugir completamente da proposta do autor, resumindo, poesias não podem ser interpretadas, pois insurge na experiência única de que as escreveu, mas como estamos nos divertindo com as palavras, eu ouso tentar minimizar o nosso sofrimento por não compreender o pensamento de quem escreveu isso.
Para que fiquem bem claro, quase todas as músicas falam de conflitos internos e relacionamentos amorosos ou até mesmo, problemas mal resolvidos, não se preocupem, só muda a forma de falar, mas no final é o mesmo: “amor, separação, fim de relacionamento, filhos, sexo, droga, etc..”
Como percebem, Nando Reis escreveu essa música em três ocasiões simultâneas ou não: saudade da mãe, fim de relacionamento com a chegada de “um terceiro”, ou “uma terceira”, não se espantem, ele é bissexual, como a maioria dos cantores de MPB e artistas em geral e também outro fato que o inspirou foi o nascimento de um filho.
Aquilo que para nós não tem sentido na forma como ele joga com as palavras, para ele tem, pois essa música fala da experiência dele, a presença do relicário, representa que a pessoa poderia estar “nem aí” para os sentimentos dele e se você prestar bem atenção, vai ver que existem tempos: dia, noite, sol, lua. Outra coisa é um hiperlink com uma música antiga “O Relicário”, da qual a mãe dele gostava muito.
Relicário serve para guardar restos mortais, talvez a pessoa colocou o amor e experiências amorosas e/ou sexuais vividas no esquecimento e o trocou por outra ou outro."
"Atendendo a solicitação da Silavne, Vou tentar fazer minha análise para "Relicário". Esse texto do Nando Reis é muito complexo. Acho que ele usa o desamparo como sendo uma vocação do ser humano. É a maldição de querer ser amado.
Afinal, o que o relicário anuncia em seu vitral?
Analisando os primeiros versos temos a idéia de uma mulher integrada à natureza: a índia é a mulher seminua ou nua (sexualmente disponível) e a propositada citação do colar induz a idéia de integração total à natureza.
As ilhas sugerem algo imóvel e isolado e a “dança” das mesmas, algo coletivo, plural. Aí surge a referência humana de forma desfigurada: a cultura letrada: a cartilha importa pela cor de uma letra específica, que faz parte, talvez, de uma confirmação de afinidades, de preferências comuns no jogo do amor que são tão importantes quanto a função do letramento.
A natureza, que parecia estática, de repente subverte suas leis universais e tudo se torna caótico. Algo extraordinário deve ter ocorrido, e esse evento vem a seguir: antes de alguém chegar, ele estava em paz. Nessa parte ele sugere estar em dúvida: ou ele não percebia o caos da natureza ou a mesma não se havia tornado caótica, era apenas sua impressão.
No segundo verso, diante dos dois cílios que pairam, descolados do corpo, surge outro elemento comum do caos: a fragmentação do corpo. Esta característica é recorrente aos autores, quando abordam o desamparo.
O verso seguinte sugere ancestralidade, de vínculo sanguíneo, que também indica uma permanência de valores culturais. Ele também sugere que a dita pessoa tem um ótimo caráter, um ser que é capaz de se armar, mas que prescinde da violência ou que pode usar de mecanismos e não o faz. Isso aumenta sua perplexidade. Agora não é mais um fenômeno impessoal que está acontecendo; é alguém que está fazendo algo. Ele sugere que ela pode estar disseminando a morte, ou mostrando a potencialidade contida no amor (como sugerem os milhões de vasos).
A palavra “relicário”, indica uma urna, vaso, que contêm partes do cadáver de um santo. Vasos sem flor e relicário compartilham a capacidade de conter, mas também sacralizam a morte, a dor ou o sofrimento.
A estrofe seguinte retoma a contemplação de elementos da natureza:
A Lua, ícone feminino e o perigo que este ser representa (tal qual Eva). O “dia vertical” é para fazer confronto com o horizonte (horizontal). As imagens (vitrais) formadas no céu num fim de tarde também dão a idéia de caos e desamparo.
A seguir, na outra oposição, entre amanhecer e pôr-do-sol ele se impõe uma confissão: o primado da morte (posição horizontal) sobre a vida (posição vertical).
Nos versos finais ele sugere uma inconformidade com a pouca duração das coisas, na verdade ele desejava que tudo durasse mais, talvez eternamente. A semente pura é dura, assim como o amor verdadeiro?
Nos terceiro verso, a chuva que fertiliza e refresca serve de ponto de auto-referência, embora isso implique sua dissolução pelo outro; ela o secará! Isto sugere que doar-se ao amor é destruir-se, repor-se no ciclo de retorno ao caos.
Neste momento ele sugere que aquela pessoa se despiu de sua condição humana, dotada de asas que zunem, mas que, ao mesmo tempo, comunicam. Aí ele sugere uma regressão ao tempo de Adão e Eva, que se comunicavam com os animais pela palavra.
Os quatro versos finais retomam a perplexidade, agora pelo discurso: “o que você está dizendo?”.
As frases sem nenhuma cor sugerem a estratégia de eliminar a função da linguagem, enquanto os dois versos finais indicam a função do outro, que pode destruir o amante através da linguagem despida de poesia.
Enfim, o Nando quer dizer que o desamparo não é vivenciado unicamente nas situações que envolvem o amor, embora sempre que o assunto for o amor, ninguém será incapaz de notar quando a onda que bateu foi aquela de um coração sofrendo."