Lô Borges

Paisagem da janela

Álbum: Álbum de Lô Borges • 2018

A Letra

Da janela lateral do quarto de dormir

Vejo uma igreja, um sinal de glória

Vejo um muro branco e um vôo pássaro

Vejo uma grade, um velho sinal

Mensageiro natural de coisas naturais

Quando eu falava dessas cores mórbidas

Quando eu falava desses homens sórdidos

Quando eu falava desse temporal

Você não escutou

Você não quer acreditar

Mas isso é tão normal

Você não quer acreditar

E eu apenas era

Cavaleiro marginal lavado em ribeirão

Cavaleiro negro que viveu mistérios

Cavaleiro e senhor de casa e árvores

Sem querer descanso nem dominical

Cavaleiro marginal banhado em ribeirão

Conheci as torres e os cemitérios

Conheci os homens e os seus velórios

Quando olhava da janela lateral

Do quarto de dormir

Você não quer acreditar

Mas isso tão normal

Você não quer acreditar

Mas isso tão normal

Um cavaleiro marginal

Banhado em ribeirão

Você não quer acreditar

Análises

Sua visão

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N

Nodimarques

17 Nov, 2023

0
"Muito boa sua interpretação, dessa música engajada que é lindamente poética."
M

Maria das Graças de Freitas Moraes

19 Jun, 2021

0
"Muito intetessante sua interpretação. Nunca imaginei que tivesse tantos eventos por detrás da letra. Outrora, tempos difíceis."
D

Denison Ribeiro

28 Nov, 2020

0
"Maravilha de interpretação dessa linda música que fez parte de minha adolescência, meus parabéns"
E

Elisabete

20 Abr, 2020

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"Obrigada, linda música e interpretação."
J

Joe

03 Jul, 2019

0
"Feita em parceira com Fernando Brant (letra), onde Lô fez a melodia. Fernando Brant, autor da letra, relembra, segundo a revista folha de São Paulo, 8 de abril 2002: "Compus essa música quando ainda morava na casa dos meus pais, em Belo Horizonte”. Brant faz uso da metalinguagem para falar de si mesmo dentro da canção. ”Da janela lateral do quarto de dormir Vejo uma igreja, um sinal de glória Vejo um muro branco e um vôo pássaro Vejo uma grade, um velho sinal” - Brant revela que esses primeiros versos são resultado de sua observação do quarto de sua casa no bairro dos funcionários em BH. Onde da janela ele vê a igreja de Lourdes, um muro branco, pássaros voando, uma grade (que pode ser da janela) e um velho sinal. “Mensageiro natural de coisas naturais Quando eu falava dessas cores mórbidas Quando eu falava desses homens sórdidos Quando eu falava deste temporal” - Aqui começa a imaginação, a recordação e a narração metafórica. Brant era repórter da revista “O cruzeiro” que lhe propiciou contato com as mais diversas realidades e se coloca como mensageiro (repórter e letrista) das coisas que acontecem na vida cotidiana. Quando ele expressa: “quando eu falava”, é provável que o autor se referisse a sua atividade como jornalista, como letrista. Ele, como jornalista, é o mensageiro dos diversos acontecimentos que rodeavam sua vida. Cores mórbidas e homens sórdidos podem fazer referência aos militares, governantes e ao contexto político de 1972, quando o Brasil vivia o regime militar que era visto pelo clube da esquina como algo terrível. Ressalta-se, assim, que temporais pode fazer referência a situação conflitante ocasionada pela ditadura militar. “Você não escutou Você não quer acreditar mas isto é tão normal Você não quer acreditar e eu apenas era” - Através destes versos o autor revela sua preocupação social com a humanidade. Os homens, por estarem tão acostumados à violência, fome e demais atribulações, já cauterizaram sua mente. São indiferentes e despreocupados. Brant, que é mensageiro, já falou e fala, mas não querem acreditar porque ele é um simples mensageiro natural, ao que parece. “Cavaleiro marginal lavado em ribeirão Cavaleiro negro que viveu mistérios Cavaleiro e senhor de casa e árvores sem querer descanso nem dominical” - Brant ao falar, mesmo que os homens não escutem, é, segundo ele mesmo, apenas um cavaleiro marginal, ou seja, alguém que vive nessa realidade triste, agonizante, mas não faz parte dela. A palavra cavaleiro tem sentido poético, metafórico, e pode significar uma luta para, através das palavras, denunciar as mazelas dessa realidade. Lavado em ribeirão denota o banho revigorante do cavaleiro que está em batalha e que não descansa nem aos domingos. Ao se referir a si mesmo como cavaleiro negro o autor pode estar fazendo alusão ao fato de ter que compor suas músicas tendo que esconder suas convicções políticas devido a censura do regime militar. Os mistérios podem ser as coisas que o autor viveu ao realizar seu trabalho como jornalista, sob a censura do regime militar. Pois sabe-se que durante o regime a atividade jornalística sofreu grande represália e pressão por parte dos militares. “Cavaleiro marginal banhado em ribeirão conheci as torres e os cemitérios conheci os homens e os seus velórios quando olhava da janela lateral do quarto de dormir” - Ele é o cavaleiro que vive dentro dessa realidade de Minas Gerais, mas não faz parte dela, pois se coloca como marginal, está à margem. Revela que participa de fatos desagradáveis, mas que apesar de tudo se banha “no ribeirão”. Neste último verso Brant revela que, através da janela de seu quarto, ele vê as torres, os prédios, — pois o bairro dos funcionários, no qual ele morava, era um bairro em construção e abrigava os funcionários públicos de Minas — os habitantes. De sua janela era possível ver um cemitério, onde se realizavam velórios, obviamente. Tudo isso enquanto ele olhava da janela do seu quarto, da janela lateral."