"Folhetim
21 ago 2013, por Marcelo Vitorino
Em: Crônicas, MPB | Tags: casamento, chico buarque, crônica, esposa, evangélica, folhetim, gal costa, marido, moriael, mpb, naquela mesa, traição, virgem
Um casamento que se desmonta em reviravoltas é o palco para a crônica baseada na música "Folhetim", de Chico Buarque, na voz de Gal Costa
De família muito simples, evangélica, Dora casou-se virgem aos vinte anos. O noivo era frequentador da mesma igreja e desde a adolescência nutria desejo pela moça. Na verdade, desejo era pouco, Moriael era realmente obcecado por ela.
Beirando aos trinta, bem mais experiente que Dora, mandava presentes e pequenos mimos, tudo no interesse de chamar sua atenção. Para a tristeza do rapaz, nada parecia surtir efeito. Dora o ignorava sem o menor traço de piedade.
Como as famílias de ambos tinham proximidade, um casamento entre os dois seria visto com bons olhos por todos, mas isso não interessava a principal parte do enlace. A moça nem sequer cogitava a opção de namorar, quanto mais casar-se com ele.
O desdém que ela mostrava estimulava ainda mais Moriael, que já reparava nela desde sua adolescência, quando começou a tomar corpo e jeito de mulher.
Dora queria sair de casa, conhecer o mundo, namorar bastante e depois ver o que faria da vida. Como toda menina que entra na puberdade, tinha fantasias em como seria o sexo, mas por causa de sua religião, preferia reprimir tais desejos.
Certo dia, ao chegar em casa, recebe a notícia de uma tragédia que mudaria sua vida: seu pai fora assassinado. Vítima de um assalto no centro da cidade, enquanto esperava o ônibus para voltar para casa.
Como se fosse um parente muito próximo, Moriael se encarregou de cuidar de tudo, amparando a família naquele momento triste. Usou seus contatos para agilizar a liberação do corpo, comprou o caixão e conseguiu vaga para o enterro. Durante todo o velório fez questão de permanecer ao lado de Dora, amparando-a.
Sua dedicação foi recompensada. Não imediatamente, mas foi. O coração de Dora, que antes parecia impenetrável, começou a dar mostras de fragilidade.
Sem o patriarca e com irmãs mais novas para sustentar, a pressão pelo casamento intensificou-se. Até o pastor decidiu engrossar o coro para que os jovens tivessem alguma coisa.
Não demorou muito para que Dora cedesse, a necessidade que sua família passava acelerou o processo. Namoraram cerca de seis meses, seguindo a risca todas as limitações impostas pela religião, mesmo contra a vontade do noivo, e em seguida casaram-se.
Na noite de núpcias teve uma surpresa: continuou virgem! O então marido bebeu tanto na festa do casamento que passou a noite no banheiro, debruçado em cima do vaso sanitário, esgoelando-se em vômitos.
Tudo o que se esperava para aquela noite, aconteceu na noite seguinte. Mas aquele ato não poderia ser chamado de amor entre duas pessoas, parecia mais um estupro silencioso. Moriael arrancou-lhe a roupa, deitou-a de bruços na cama e foi para cima dela como se fosse um boi cobrindo uma vaca.
Com medo de decepcionar o marido, Dora tentava disfarçar o choro. Para sua sorte, seu sofrimento não durou mais do que cinco minutos. Assim que se saciou, o marido deu-lhe beijo na nuca, deitou ao seu lado e dormiu. Tudo sem dizer uma única palavra.
Ao conversar com sua mãe sobre o que aconteceu, Dora foi orientada a se calar, pois devia isso ao marido, também disse-lhe que esse tipo de coisa era normal, com o tempo melhoraria.
Passados mais seis meses a situação não melhorou. Aliás, piorou! Já nas semanas seguintes ao casamento alguns traços de violência puderam ser notados. Em um jantar, Moriael não gostou da comida e jogou o prato ainda cheio na parede, que por pouco não acertou Dora. No dia seguinte deixou claro que não queria mais essa proximidade dela com a família, não desejava mais vê-la enfurnada na casa das irmãs ou da mãe.
A vida do casal era horrível, ao menos para Dora. Com medo de engravidar do marido, passou a tomar anticoncepcionais escondido. O que parecia ser uma solução, com o passar dos meses também se tornou um problema. Moriael queria ter filhos e, diante da ausência de uma gravidez, passou a trata-la ainda pior.
Separar não era uma possibilidade para Dora. Àquela altura o marido era quem sustentava a família dela inteira. Romper significaria o abandono de sua mãe e irmãs, decidiu então que seria melhor engolir o orgulho e seguir adiante.
Cada vez mais distante, Moriael passou a chegar tarde em casa, depois das duas ou três da madrugada. Parecia se esforçar para encontrar a esposa dormindo. Depois de algum tempo, Dora resolveu confrontá-lo:
— Mori, noto que você está chegando tarde. Está acontecendo alguma coisa?
— Está! — respondeu secamente.
— Então me conte!
— Eu até poderia responder, mas isso não é da sua conta! — fez uma pequena pausa e continuou — Aliás, Dora, mesmo se eu explicasse você não entenderia, é coisa de homem!
Pensou em mandar Moriael para o quinto dos infernos, retrucar dizendo que ele é que não entenderia visto que o assunto era “coisa de homem”, pois não passava de um moleque, mas lembrou-se de toda a situação e, com muita tristeza, se calou.
Após alguns meses com o marido ausente, em uma das noites de solidão, Dora liga para a casa de uma de suas irmãs. Foi surpreendida de tal forma que seu coração quase parou.
As mãos ficaram trêmulas ao ouvir a voz de Moriael do outro lado da linha. Não conseguiu esboçar reação alguma, estava completamente passada. Dora não era ingênua, sempre imaginou que o marido tivesse lá os seus rabos de saia, mas nunca pensaria que ele pudesse ter algo com sua própria irmã.
As horas seguintes pareceram anos, com os minutos passando vagarosamente. Pensou em cometer uma loucura, matar o marido e depois dar fim a própria vida, mas o tempo serviu para que a crise de choro cessasse e lhe acalmasse os ânimos.
Quando Moriael chegou, fingiu que estava dormindo, não teria como encará-lo. No dia seguinte serviu o café como se nada tivesse acontecido, seu jeito permanecia o mesmo, sem despertar a menor desconfiança do marido. Mas, dentro dela tudo havia mudado.
Durante uma semana inteira, recebeu a visita de quase todos os homens do bairro. Para todos entregou-se completamente, sem pudor algum, sem remorso, sem freios. Entre os visitantes, fez questão de incluir até mesmo os amigos do marido.
Sabia que suas aventuras não ficariam impunes por muito tempo, mas não se importava. Era o sabor da vingança que a motivava. A traição com a irmã corroeu sua alma, mas ter se mantido casta, mesmo sendo maltratada e traída é que lhe revoltou.
Decidiu que deveria sair sem rumo no mundo. Num ato de rebeldia, pegou a tesoura e cortou, ela mesma, os próprios cabelos. Aproveitou o instrumento para transformar suas saias cumpridas em micro-saias.
Antes de sair definitivamente, de malas prontas, passou na casa da irmã, deu-lhe um forte abraço e um beijo na boca, mas nenhuma palavra. Não havia o que ser dito.
A partir daquele dia, nunca mais foi de um homem só, nem quis mais ninguém que lhe pudesse botar cabresto."