B
Bruno Martelli
06 Mar, 2018
"Da lama ao caos, faixa de número três do disco homônimo de 1994, de Chico Science & Nação Zumbi. Composição: Chico Science.
“Posso sair daqui para me organizar
Posso sair daqui para desorganizar
Posso sair daqui para me organizar
Posso sair daqui para desorganizar
Da lama ao caos, do caos à lama
Um homem roubado nunca se engana
Da lama ao caos, do caos à lama
Um homem roubado nunca se engana”
Posso sair daqui para me organizar (eu), posso sair daqui para desorganizar (O sistema).
Se a massa se organiza, ela pode desorganizar muita coisa (exemplo as revoluções mundo a fora).
"O sol queimou, queimou a lama do rio
Eu ví um chié andando devagar
E um aratu pra lá e pra cá
E um carangueijo andando pro sul
Saiu do mangue, virou gabiru"
Homem-caranguejo x homem-gabiru.
Antes é preciso entender os termos. O primeiro é o homem que vive do mangue, passa fome, tal qual o eu lírico da musica (fala-se mais sobre isso na faixa número 10 do mesmo disco, “Antene-se”. "Gabiru” é o termo atribuído ao nordestino do sertão, subnutrido, de baixa estatura, que vive da seca, passa fome, tal qual o Severino (de Morte e Vida Severina). No livro da década de 50, o autor conta a vida de um homem que contraria sua própria história, saindo da seca e indo pro mangue tentar melhorar de vida. Porém seria inútil fazer o caminho contrário, fome por fome, melhor deixar pra lá. E por falar em fome, o verso seguinte frisa exatamente isso.
“Ô Josué, eu nunca ví tamanha desgraça
Quanto mais miséria tem, mais urubu ameaça”
Ou seja, quanto mais pobre um povo, mais gente querendo sua morte há.
Peguei um balaio, fui à feira roubar tomate e cebola
Ia passando uma véia, pegou a minha cenoura
“Aí minha véia, deixa a cenoura aqui
Com a barriga vazia não consigo dormir”
E com o bucho mais cheio comecei a pensar
Que eu me organizando posso desorganizar
Que eu desorganizando posso me organizar
Que eu me organizando posso desorganizar
A situação de miséria era tão grande, que além de roubar comida para sobreviver, estavam roubando comida uns dos outros. Quando o eu lírico se vê aliviado da fome, o pensamento revolucionário que o pegou no primeiro verso volta ainda mais claro (confirmando a explicação da primeira estrofe).
“Da lama ao caos, do caos à lama
Um homem roubado nunca se engana
Da lama ao caos, do caos à lama
Um homem roubado nunca se engana”
Ao final da primeira parte da música, o refrão, o título e o propósito da letra ficam enfim claros, Da lama ao caos, se não for assim, nada se resolve, só com briga e revolução se faz a mudança, caso contrário só se troca uma miséria por outra.
Por Bruno Martelli"