"Eu realmente gosto de analisar poesias e às vezes eu vou um pouco longe demais. Mas neste caso específico, a culpa é do Poeta: o texto brinca de deixar easter eggs pra serem descobertos pelo leitor/ouvinte: a "mesa posta" /" posta de peixe"; "ela vive parada no sucesso do rádio"/ "parada de sucesso"; "ver passar ela" / "passarela" (porque ela desfila). E até "pra ver maria" me traz foneticamente a interjeição "ave Maria". Cada um é um convite pra continuarmos buscando significados adicionais.
Com isso a poesia, apesar de curta, parece contar uma história maior, se adensa e, mesmo subconscientemente, deixa a impressão de querer comunicar mais.
Entendo que a correspondência entre o cheiro da posta de peixe e o cheiro da vagina nem mesmo se qualifica como duplo sentido, ja que a próprio texto se encarrega de dizer que o peixe "deixa o cheirinho da sua filha" . É tão transparente que serve apenas pra comunicar que o corpo e a sexualidade da jovem musa continuam sendo o assunto; o prato principal do texto, por assim dizer.
"A casa aberta / o pijama aberto" primeiro sugere uma progressão (abre a casa, abre a roupa e a poesia achou óbvio e, portanto, desnecessário dizer, qual seria a abertura seguinte). Mais: o paralelismo (casa aberta/pijama abert - e, implicitamente, corpo aberto) sugere equivalência entre os termos: quando falo da casa e da roupa, aludo à moça, a seu corpo e a sua sexualidade.
Isso se evidencia em um outro paralelismo da canção: o primeiro copo leva ao primeiro corpo e a primeira festa leva à primeira fresta. Mas se "o primeiro copo" (experimentar bebida alcolica) é metonímia para "primeira festa", é necessário que a "a primeira fresta" corresponda metaforicamente ao "primeiro corpo". E esta primeira fresta já não pode significar mais a apenas a fresta do voyeurismo coletivo dos moleques (que não poderia ser a primeira, porque claramente acontecia rotineiramente) da qual ela nem desconfia, mas a fresta consentida, da porta aberta que convida a entrar.
E por toda a poesia, as alusões às roupas e aos elementos da casa (que deveriam impedir a vista e a entrada, mas não faz nem um nem outro) parecem sempre remeter ao corpo e à sexualidade da jovem: andar seminua, abrir o pijama, lavar roupa suja no meio da rua, sugerem uma sexualidade que pode ser vista (despudorada, exposta, como uma janela sem gelosia), enquanto a porta sem tramela, aberta, sugere que pode ser acessada, uma fresta que permite a entrada... depois disto notamos que no início da historia inserimos por conta própria, por força do hábito, que "a porta (da casa ou do quarto) dela não tem tramela...", quando o que a poesia nos diz textualmente que a porta DELA não tem tramela, com significados potencialmente diferentes.
Como falei demais sobre a primeira parte, basta dizer que a segunda é, claro, um caso de intertextualidade com o poema de Drummond: não apenas brincando com a mesma estrutura de "fulano amava sicrano", mas ainda terminando com a palavra "quadrilha", que é o nome do poema de Drummond. Mas a "moral da história" é muito diferente: no poema de Drummond os amores, vistos em retrospectiva, numa visao pessimista, "adulta" , são sempre unidirecionais e não correspondidos. O poema acaba de maneira triste, inclusive com duas mortes trágicas (spoiler!) e a única que se casa, com alguém que não tinha entrado no início da história, é justamente Lili, "que não amava ninguém".
Já a parte final de a "flor da idade", traz a experimentação da juventude, um clima de pegação geral, (mesmo os vários amores correspondidos não são exclusivos. Dora, inclusive, amava toda a quadrilha), sem regras, com muitas sugestões de amores homossexuais entre mulheres e homens (embora nenhum caso explícito de reciprocidade, nesses casos). Começa invocando "Carlos" (Drummond?), mas conta uma história de amores juvenis, intensos, mas leves, efêmeros. E atravez das repeticoes e recombinações, sugerem não uma memória distante que deixou marcas, mas um movimento frenético, em ritmo de análise combinatória, que talvez ainda esteja acontecendo quando é contado, sem previsão de término.
Por último, uma coisa que só notei agora, relendo as obras: "Maria" é o unico nome mencionado tanto no poema de Chico como no de Drummond. A Maria que parece ser a musa do início de "flor da idade" não aparece no final, na hora que a turma começa a se pegar. Já a Maria de Drummond ficou pra tia... o que isso significa? Não tenho ideia! Vocês me dizem!"