Belchior

Na Hora do Almoço

Álbum: Álbum de Belchior • 2018

A Letra

No centro da sala, diante da mesa
No fundo do prato, comida e tristeza
A gente se olha, se toca e se cala
E se desentende no instante em que fala

Medo, medo, medo, medo, medo, medo

Cada um guarda mais o seu segredo
A sua mão fechada, a sua boca aberta
O seu peito deserto, sua mão parada
Lacrada e selada
E molhada de medo

Pai na cabeceira: É hora do almoço
Minha mãe me chama: É hora do almoço
Minha irmã mais nova, negra cabeleira
Minha avó me reclama: É hora do almoço!

Ei, moço!
E eu inda sou bem moço pra tanta tristeza
Deixemos de coisas, cuidemos da vida
Senão chega a morte ou coisa parecida
E nos arrasta moço sem ter visto a vida

Ou coisa parecida, ou coisa parecida
Ou coisa parecida, aparecida
Ou coisa parecida, ou coisa parecida
Ou coisa parecida, aparecida

Análises

Sua visão

R

Renan

12 Nov, 2021

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""No centro da sala, diante da mesa No fundo do prato comida e tristeza A gente se olha, se toca e se cala E se desentende no instante em que fala" Típica reunião de família onde todos fingem estar bem quando estão no seu canto, mas quando se encontram com a própria família começam a brigar entre si, e o que era pra ser legal (almoço) acaba virando um desentendimento enorme "Cada um guarda mais o seu segredo A sua mão fechada, a sua boca aberta No peito deserto, sua mão calada Lacrada, selada e molhada de medo" Pode-se interpretar como um encontro das mãos em um momento de oração antes de almoçar (bem comum antigamente), onde a pessoa pede alguma coisa mas ao mesmo tempo sabe que ela mesma é escrava dos seus segredos mais sujos e que, portanto, não é merecedora de tal. O peito deserto, vazio, oco, sem nada para se orgulhar. Apenas a mão tentando disfarçar o vazio interior "Pai na cabeceira: é hora do almoço Minha mãe me chama: é hora do almoço Minha irmã mais nova, negra cabeleira Minha avó reclama: é hora do almoço" Aqui mostra como cada um interpreta essa reunião familiar. Para uns, como o pai, finalmente é hora de almoçar e que não aguentava mais. Para a mãe, hora da reunião em família. Para a irmã, ela não liga pois não faz questão. Para a avó, ela reclama pois o almoço já deveria estar servido. "E eu inda sou bem moço pra tanta tristeza Deixemos de coisas, cuidemos da vida Se não vem a morte ou coisa parecida E nos arrasta moço sem ter visto a vida" Uma crítica do autor para a sociedade em que está inserido onde tem que levar os problemas para casa e quando chega em casa estes problemas continuam aparecendo, só que trazidos pelos outros membros da família. Por isso ele expressa que devemos cuidar da vida para que não percamos tempo falando/fazendo o mal ou fofocando sobre a vida alheia. Não somente mas também um possível "choque" do autor com o falecimento de alguém próximo, pois nunca se sabe quem a morte vai levar. Pode muito bem ser alguém jovem cheio de saúde (na qual nós de fato não esperamos que a vida seja ceifada tão cedo) como uma pessoa já de idade (na qual já nos inserimos no processo de preparação para a perda)"