A Ponte

Lenine

2 comentários

Como é que faz pra lavar a roupa?
Vai na fonte, vai na fonte
Como é que faz pra raiar o dia?
No horizonte, no horizonte
Este lugar é uma maravilha
Mas como é que faz pra sair da ilha?
Pela ponte, pela ponte

A ponte não é de concreto, não é de ferro
Não é de cimento
A ponte é até onde vai o meu pensamento
A ponte não é para ir nem pra voltar
A ponte é somente pra atravessar
Caminhar sobre as águas desse momento

A ponte nem tem que sair do lugar
Aponte pra onde quiser
A ponte é o abraço do braço do mar
Com a mão da maré
A ponte não é para ir nem pra voltar
A ponte é somente pra atravessar
Caminhar sobre as águas desse momento

Nagô, nagô, na Golden Gate
Entreguei-te
Meu peito jorrando meu leite
Atrás do retrato-postal fiz um bilhete
No primeiro avião mandei-te
Coração dilacerado
De lá pra cá sem pernoite
De passaporte rasgado
Sem ter nada que me ajeite

Nagô, nagê, na Golden Gate
Coqueiros varam varandas no Empire State
Aceite
Minha canção hemisférica
A minha voz na voz da América
Cantei-te, ah
Amei-te
Cantei-te, ah
Amei-te




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2 comentários para a letra “A Ponte

  1. fabiolins disse:

    É um paralelo figurado com as pontes, a obra por sobre rios e as pontes ideológicas. Ex.: um filho do sertão que vem pra cidade tentar uma vida melhor, provavelmente cruzou alguma ponte sobre algum rio, mas, seguramente cruzou a ponte do seu ideal.

  2. Michael Victor disse:

    A ponte é tudo aquilo que serve para ‘atravessar’. Pode ser o ponto em que as coisas podem mudar. Pode ser também uma ligação entre coisas diferentes.

    Porém, aqui Lenine parece se interessar mais pela travessia em si, pelo prazer de estar num lugar que não é aqui e nem é lá. Ele quer chamar atenção para o ‘espírito aventureiro’, de descobrir, de se atirar para o desconhecido:

    “A ponte não é para ir nem pra voltar
    A ponte é somente atrevessar
    Caminhar sobre as águas desse momento”.

    Ou seja, uma forma mais aberta de se colocar perante a vida.