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Chico Buarque

Januária

Toda gente homenageia
Januária na janela
Até o mar faz maré cheia
Pra chegar mais perto dela
O pessoal desce na areia
E batuca por aquela
Que malvada se penteia
E não escuta quem apela
Quem madruga sempre encontra
Januária na janela
Mesmo o sol quando desponta
Logo aponta os lábios dela
Ela faz que não dá conta
De sua graça tão singela
O pessoal se desaponta
Vai pro mar, levanta vela

6 respostas em “Januária”

“Até o mar faZ maré CHeia para Chegar maiS perto dela.” Aliteração perfeita para expressar o barulho das ondas do mar.

Januária, na minha concepção, é uma metáfora para o Brasil. Vários escritores, poetas, artistas, cantores que homenageiam o Brasil, até o mar fazendo maré cheia para se aproximar deste país (é até interessante pensarmos que o Brasil abriu seus portos para grandes investimentos de capital estrangeiro na época desta música). Os cantores “batucam” ou seja, fazem sua música para a pátria, que malvada se penteia (uma referências às obras faraônicas feitas no Regime Militar, penso – “se penteia” ou seja, se enfeita) e não escuta o canto daqueles que ainda tentam chamar a atenção para os diversos problemas sociais da nação. É interessante que mesmo assim, o Brasil “não dá conta de sua graça tão singela”: não percebe que mesmo com vários problemas, possui uma cultura extremamente rica, um folclore amplo e uma grande produção artística (pelo menos na época da música). O pessoal se desaponta com a falta de incentivo brasileiro, com um país que se preocupa mais com censura do que com a arte, e vai pro mar, levanta vela – sai do país, como vimos vários intelectuais fazendo (a exemplo do próprio Chico Buarque).

A música homenageia a Januária, moça bonita mas “com graça singela”,
que como Carolina, também fica na janela. Ela recebe homenagem dos
humanos (pescadores) e da natureza (mar, sol).
O nome foi inspirado no quadro homônimo (1967) que o Chico recebeu do famoso pintor Cavalcanti.
Curiosamente o belo quadro é em preto e branco.

Muito interessante todos os comentários. A Thaís chamou a atenção para a aliteração perfeita feita pelas palavras “faZ maré CHeia”. A canção é cheia de sutilezas como esta e, de cara, revela a ligação poética de Chico com Fernando Pessoa. “Toda gente” é expressão corrente nos poemas do bardo português. Aqui no Brasil o usual é falarmos “todo o mundo” mas, além do mais (além do mar) “gente” combina foneticamente com “homenageia Januária na janela”. A idéia nasceu mesmo a partir da tela do Di Cavalcanti doada pelo próprio ao Chico. Mas a figura feminina retratada não tinha nome, foi Chico quem a nomeou a partir exatamente da sonoridade entre “JANela” e “JANuária”. Na primeira parte os versos terminam em “eia” e “ela”. Na segunda, em “onta” e “ela”. São alguns aspectos formais, são a moldura que, assim como na tela ou no vão da janela, realçam a beleza das imagens. A análise do André foi muito interessante, acho que ninguém havia visto por este viés político.

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