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Chico Buarque

Fado Tropical

Oh, musa do meu fado
Oh, minha mãe gentil
Te deixo consternado
No primeiro abril

Mas não sê tão ingrata
Não esquece quem te amou
E em tua densa mata
Se perdeu e se encontrou
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

“Sabe, no fundo eu sou um sentimental
Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo ( além da sífilis, é claro)
Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar
Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora…”

Com avencas na caatinga
Alecrins no canavial
Licores na moringa
Um vinho tropical
E a linda mulata
Com rendas do alentejo
De quem numa bravata
Arrebata um beijo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

“Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto
De tal maneira que, depois de feito
Desencontrado, eu mesmo me contesto

Se trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito
Me assombra a súbita impressão de incesto

Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadora à proa
Mas meu peito se desabotoa
E se a sentença se anuncia bruta
Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa”

Guitarras e sanfonas
Jasmins, coqueiros, fontes
Sardinhas, mandioca
Num suave azulejo
E o rio Amazonas
Que corre trás-os-montes
E numa pororoca
Deságua no Tejo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um império colonial
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um império colonial

10 respostas em “Fado Tropical”

Essa música retrata a época do colonialismo brasileiro, onde a aglutinação da cultura brasileira e do domínio português forma uma identidade confusa.
O colonizador adota a terra conquistada como pátria, ao mesmo tempo que trucida o colonizado. A ideia é a de transformar a terra conquistada (Brasil) na terra que estava sendo deixada (Portugal).
Talvez Chico também estivesse fazendo um paralelo entre a ditadura de Getúlio Vargas com a de Salazar.

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Essa música é show por completo.

Interessante ver como uma música dos anos 70 se adequam tão bem nos dias atuais.

Não faz tanto tempo, esteve no Brasil, o ex-presidente Bush queria participar das produções de canaviais de nossa terra.
Por causa do Etanol!

Sabendo que seria algo que daria lucro futuramente com toda certeza.

temos em nossas mãos uma matéria prima que forá valiosa no passado e é hoje uma das mais valiosas no mercado.

E ele alertava desde quando fez sta música ( Ai está terra ainda vai cumprir seu ideal, ainda vai tornar-se um imenso canavial).

Esta musica fala do paralelismo das ditaduras entre Portugal e o Brasil estando Portugal a travar a guerra colonial em Africa, contestada pelos próprios soldados obrigados a lutar nela.

A começar pelo próprio título “Fado Tropical”, fazendo menção ao Fado, música popular portuguesa e a palavra Tropical, referindo-se ao clima típico do Brasil. É uma clara relação entre o Brasil e Portugal. O letrista faz essa relação para tratar dos regimes totalitários porque ambas nações passaram.
Ao iniciar a música “oh musa do meu fado”, pode-se pensar que é uma bela mulher ou mesmo uma portuguesa, mas logo em seguida, “oh minha mãe gentil”, percebe-ce uma relação com o Hino Nacional Brasileiro. Pode-se então referir que trata-se da mãe Brasil. “Te deixo consternado no primeiro abril” ai o letrista trata de sua saída “consternada” do Brasil no primeiro abril, data do infeliz golpe militar de 1964. no dia 1 de abril daquele ano.

Depois comento o resto…

Acho uma tremenda demonstração do que Chico quis dizer na música o trecho ‘O rio amazonas que corre e trás os montes, e numa pororoca deságua no Tejo’!

É importante ressaltar que “fado” possui mais de um valor semântico. Especialmente se considerarmos as distinções culturais entre Brasil e Portugal.
Sim, o fado é um estilo musical português. Todavia também é fado o destino. Desse modo, é possível dar, no mínimo, duas leituras ao título – notando tal, já é possível perceber a magnitude poética da obra. São eles:
– Fado tropical: o destino dos países do hemisfério sul, colonizados e explorados pelos europeus;
– Fado tropical: uma canção portuguesa, porém brotada no complexo mar-sol-floresta, da nação brasileira.
O refrão “ainda vai tornar-se” confirma a leitura como o destino (ou a sina) do Brasil enquanto válida e riquíssima em valor poético.

Coincidentemente hoje, 3 de maio de 2020, lembrei-me de que é aniversário de nascimento de Geoges Moustaki. A canção “Fado Tropical” foi lançada em 1973 para a peça “Calabar” proibida pela censura. No ano seguinte, Georges Moustaki 03/05/1934-23/05/2013) lançou a versão em francês, numa referência à Revolução dos Cravos, ocorrida em Portugal. Um trecho da versão foi composta pelo autor em português, numa referência direta com a composição original do “Fado”. O autor da versão francês optou por chamar sua versão de “Portugal”.

E não nos esqueçamos da sífilis… De tudo um pouco veio de tudo para cá, até os mazombos, ainda hoje deambulando por aqui em bares, cachoeiras, camas de motéis (posto que bordeis do Alfama como na velha Lisboa boémia, e suas alcovas, e tabernas, não mais há) e quartos de apartamentos à luz da solidão de um ou de uns. O que era símbolo da doença vil de opressores ficou na lata do esquecimento nestes tempos de outras opressões, ainda bem, pois assim possamos nos ocupar com outros desafios. Acho que estes são mais graves no momento. Esse é o esplendor da arte, capaz de colocar tudo num saco só, coração e mente, espírito e corpo, pois tudo é como diz Ricardo Reis: apreciar o grande espetáculo do mundo, para que explicá-lo? Abraços, Ivar

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