Bom Tempo

Chico Buarque

1 comentários

Um marinheiro me contou
Que a boa brisa lhe soprou
Que vem aí bom tempo
O pescador me confirmou
Que o passarinho lhe cantou
Que vem aí bom tempo

Do duro toda semana
Senão pergunte à Joana
Que não me deixa mentir
Mas, finalmente é domingo
Naturalmente, me vingo
Eu vou me espalhar por aí

No compasso do samba
Eu disfarço o cansaço
Joana debaixo do braço
Carregadinha de amor
Vou que vou
Pela estrada que dá numa praia dourada
Que dá num tal de fazer nada
Como a natureza mandou
Vou
Satisfeito, a alegria batendo no peito
O radinho contando direito
A vitória do meu tricolor
Vou que vou
Lá no alto
O sol quente me leva num salto
Pro lado contrário do asfalto
Pro lado contrário da dor

Um marinheiro me contou
Que a boa brisa lhe soprou
Que vem aí bom tempo
Um pescador me confirmou
Que um passarinho lhe cantou
Que vem aí bom tempo
Ando cansado da lida
Preocupada, corrida, surrada, batida
Dos dias meus
Mas uma vez na vida
Eu vou viver a vida
Que eu pedi a Deus




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Um comentário para a letra “Bom Tempo

  1. Lumarfir disse:

    O operário, deslumbrado com a belezura da manhã, de sua janela cantava em alto e bom tom: “Um marinheiro me contou / que a boa brisa lhe soprou / que vem aí bom tempo/ o pescador me confirmou / que o passarinho lhe cantou / que vem aí bom tempo”. O vizinho abriu sua porta, surpreso com a voz alegrada do operário, e perguntou-lhe o porquê de tamanha euforia. Ele lhe respondeu: “Dou duro toda a semana / senão pergunte a Joana / que não me deixa mentir / mas finalmente é domingo / naturalmente me vingo / eu vou me espalhar por aí / no compasso do samba / eu disfarço o cansaço / Joana debaixo do braço / carregadinha de amor / vou que vou / pela estrada que dá numa praia dourada / que dá num tal de fazer nada / como a natureza mandou / vou / Satisfeito, a alegria batendo no peito/ O radinho cantando direito/ A vitória do meu tricolor/ vou que vou / lá no alto / o sol quente me leva num salto / ro lado contrário do asfalto / pro lado contrário da dor”. O operário, sempre sem dinheiro para um cinema ou teatro, já há muitos domingos na sua casinha, engaiolado, era pura alegria e amor. Enquanto ajuntava as tralhas para usufruir do dia ensolarado, continuava cantando sua prazenteira canção: “Ando cansado da lida / preocupada, corrida, surrada, batida / dos dias meus / mas uma vez na vida / eu vou viver a vida / que pedi a Deus”. E alguns que o ouviam cantar, entre sorrisos diziam: – O pobre fica feliz com tão pouco, E assim, equilibrando-se em meio às correntezas bravias, vai levando a sua insignificante vida.