Até quem sabe a voz do dono
Gostava do dono da voz
Casal igual a nós, de entrega e de abandono
De guerra e paz, contras e prós
Fizeram bodas de acetato – de fato
Assim como os nossos avós
O dono prensa a voz, a voz resulta um prato
Que gira para todos nós
O dono andava com outras doses
A voz era de um dono só
Deus deu ao dono os dentes
Deus deu ao dono as nozes
Às vozes Deus só deu seu dó
Porém a voz ficou cansada após
Cem anos fazendo a santa
Sonhou se desatar de tantos nós
Nas cordas de outra garganta
A louca escorregava nos lençóis
Chegou a sonhar amantes
E, rouca, regalar os seus bemóis
Em troca de alguns brilhantes
Enfim a voz firmou contrato
E foi morar com novo algoz
Queria se prensar, queria ser um prato
Girar e se esquecer, veloz
Foi revelada na assembléia – atéia
Aquela situação atroz
A voz foi infiel, trocando de traquéia
E o dono foi perdendo a voz
E o dono foi perdendo a linha – que tinha
E foi perdendo a luz e além
E disse: minha voz, se vós não sereis minha
Vós não sereis de mais ninguém
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Esta música foi feita para denunciar que não queria mais manter o contrato com a sua gravadora e contatar outra, porém, esta não aceitou, resultando em uma guerra judicial.
Parece tratar-se da relação da então poderosa indústria fonográfica com os seus artistas contratados , con-tratados pelos “algozes” como apenas mais uma voz.
acho muito legal a duplicidade de sentido do termo “voz” no coro final:
– “oq é bom para o dono é bom para voz”,
além do sentido evidente (a voz como personagem da história) podemos deduzir um sentido implicito: o termo “vós”, assim temos, aquilo que é bom para o dono é bom para vocês.
brilhante Chico!
Essa música faz parte do LP “Almanaque”, que foi gravado pelo Chico numa situação sui generis. Depois de muitos anos na gravadora Philips, ele saiu de uma forma não muito amigável, salvo engano por discussões sobre a frequência de gravação de discos (numa época sem internet, MP3 e Youtube, as gravadoras exerciam um poder absurdo sobre os artistas). Daí a estrofe “Queria se prensar, queria ser um prato / Girar e se esquecer, veloz”. Também sobre seu passado na Philips, canta: “Fizeram bodas de acetato – de fato / Assim como os nossos avós” e “Porém a voz ficou cansada após
Cem anos fazendo a santa / Sonhou se desatar de tantos nós / Nas cordas de outra garganta”.
Após assinar contrato com outra gravadora, cujo nome não recordo (“Enfim a voz firmou contrato
E foi morar com novo algoz”), Chico ficou inconformado com a compra dessa gravadora por ninguém menos que a própria Philips. Ou seja, “E [o dono] disse: minha voz, se vós não sereis minha
Vós não sereis de mais ninguém”
A nova gravadora foi a ARIOLA… Depois, Chico lança discos independentes… Início da década de 80
Ariola Discos Fonográficos e Fitas Magnéticas Ltda
Preciso interpretar essa música e para tal, preciso de o mais próximo da ideia do compositor.
É uma analogia, e pode ser interpretada de muitas formas.
Sempre entendi como uma analogia ao gênesis, onde a Voz é a criatura, e o dono da Voz é o criador.
Até quem sabe a voz do dono gostava do dono da voz (quando Deus fez o Homem).
Casal igual a nós…(Adão e Eva)
O dono andava com outras doses (anjos)
A voz era de um dono só (Deus)
Às vozes deu só deu seu dó (só deu o paraíso mas não pecado, o conhecimento do bem e do mal).
A voz sonhou se desatar de tantos nós(…)
A louca escorregava nos lençóis ..(sexo)
etc.
Chico também teve a inspiração no antigo selo da RCA VICTOR, onde um cachorrinho inglês chamado Nipper – sem raça definida está ouvindo a voz do seu dono, que era um cenógrafo e morreu. E como herança deixou sua voz gravada em fonógrafo de cilindro. E toda vez que o cachorrinho ouvia a voz de seu dono, ele se alegrava. Mas tarde a figura do cãozinho foi pintada numa tela e transformado- a em um selo exclusivo da gravadora e o autor da pintura, que acrescentou o slogan : ” HIS MASTER VOICE ” – “A VOZ DO SEU MESTRE “