Patativa do Assaré

A morte de Nanã

Álbum: Álbum de Patativa do Assaré • 2019

Letra

Eu vou contá uma históra



Que eu não sei como comece,



Pruque meu coração chora,



A dô no meu peito cresce,



Omenta o meu sofrimento



E fico uvindo o lamento



De minha arma dilurida,



Pois é bem triste a sentença,



De quem perdeu na insistença



O que mais amou na vida.



Já tou véio, acabrunhado,



Mas inriba deste chão,



Fui o mais afurtunado



De todos fios de Adão.



Dentro da minha pobreza,



Eu tinha grande riqueza:



Era uma querida fia,



Porem morreu muito nova.



Foi sacudida na cova



Com seis ano e doze dia.



Morreu na sua inocença



Aquele anjo incantadô,



Que foi na sua insistença,



A cura da minha dô



E a vida do meu vivê.



Eu beijava, com prazê,



Todo dia demenhã,



Sua face pura e bela.



Era Ana o nome dela,



Mas eu chamava Nanã.



Nanã tinha mais primo



De que as mais bonita jóia,



Mais linda do que as fulo



De um tá de Jardim de Tróia



Que fala o dotô Conrado.



Seu cabelo cachiado,



Preto da cô de viludo.



Nanã era meu tesôro,



Meu diamante, meu ôro,



Meu anjo, meu céu, meu tudo.



Pelo terrêro corria,



Sempre sirrindo e cantando,



Era lutrida e sadia,



Pois, mesmo se alimentando



Com feijão, mio e farinha,



Era gorda, bem gordinha



Minha querida Nanã,



Tão gorda que reluzia.



O seu corpo parecia



Uma banana maçã.



Todo dia, todo dia,



Quando eu vortava da roça,



Na mais compreta alegria,



Dentro da minha paioça



Minha Nanã eu achava.



Por isso, eu não invejava



Riqueza nem posição



Dos grande deste país,



Pois eu era o mais feliz



De todos fio de Adão.



Mas, neste mundo de Cristo,



Pobre não pode gozá.



Eu, quando me lembro disto,



Dá vontade de chorá.



Quando há seca no sertão,



Ao pobre farta feijão,



Farinha, mio e arrôis.



Foi isso que aconteceu:



A minha fia morreu,



Na seca de trinta e dois.



Vendo que não tinha inverno,



O meu patrão, um tirano,



Sem temê Deus nem o inferno,



Me dexou no desengano,



Sem nada mais me arranjá.



Teve que se alimentá,



Minha querida Nanã,



No mais penoso martrato,



Comendo caça do mato



E goma de mucunã.



E com as braba comida,



Aquela pobre inocente



Foi mudando a sua vida,



Foi ficando deferente.



Não sirria nem brincava,



Bem pôco se alimentava



E inquanto a sua gordura



No corpo diminuía,



No meu coração crescia



A minha grande tortura.



Quando ela via o angu,



Todo dia demenhã,



Ou mesmo o rôxo beju



Da goma da mucunã,



Sem a comida querê,



Oiava pro dicumê,



Depois oiava pra mim



E o meu coração doía,



Quando Nanã me dizia:



Papai, ô comida ruim!



Se passava o dia intero



E a coitada não comia,



Não brincava no terrêro



Nem cantava de alegria,



Pois a farta de alimento



Acaba o contentamento,



Tudo destrói e consome.



Não saía da tipóia



A minha adorada jóia,



Infraquecida de fome.



Daqueles óio tão lindo



Eu via a luz se apagando



E tudo diminuindo.



Quando eu tava reparando



Os oinho da criança,



Vinha na minha lembrança



Um candiêro vazio



Com uma tochinha acesa



Representando a tristeza



Bem na ponta do pavio.



E, numa noite de agosto,



Noite escura e sem luá,



Eu vi crescê meu desgosto,



Eu vi crescê meu pená.



Naquela noite, a criança



Se achava sem esperança.



E quando vêi o rompê



Da linda e risonha orora,



Fartava bem pôcas hora



Pra minha Nanã morrê. 



Por ali ninguém chegou,



Ninguém reparou nem viu



Aquela cena de horrô



Que o rico nunca assistiu,



Só eu e minha muié,



Que ainda cheia de fé



Rezava pro Pai Eterno,



Dando suspiro maguado



Com o seu rosto moiado



Das água do amô materno.



E, enquanto nós assistia



A morte da pequenina,



Na manhã daquele dia,



Veio um bando de campina,



De canaro e sabiá



E começaro a cantá



Um hino santificado,



Na copa de um cajuêro



Que havia bem no terrêro



Do meu rancho esburacado.



Aqueles passo cantava,



Em lovô da despedida,



Vendo que Nanã dexava



As miséra desta vida.



Pois não havia ricurso,



Já tava fugindo os purço.



Naquele estado misquinho,



Ia apressando o cansaço,



Seguindo pelo compasso



Das musga dos passarinho.



Na sua pequena boca



Eu vi os laibo tremendo



E, naquela afrição lôca,



Ela também conhecendo



Que a vida tava no fim,



Foi regalando pra mim



Os tristes oinho seu,



Fez um esforço ai, ai, ai,



E disse: “abença papai!”



Fechô os óio e morreu.



Enquanto finalizava



Seu momento derradêro,



Lá fora os passo cantava,



Na copa do cajuêro.



Em vez de gemido e chôro,



As ave cantava em coro.



Era o bendito prefeito



Da morte de meu anjinho.



Nunca mais os passarinho



Cantaro daquele jeito.



Nanã foi, naquele dia,



A Jesus mostrá seu riso



E omentá mais a quantia



Dos anjo do Paraíso.



Na minha maginação,



Caço e não acho expressão



Pra dizê como é que fico.



Pensando naquele adeus



E a curpa não é de Deus,



A curpa é dos home rico.



Morreu no maió matrato



Meu amô lindo e mimoso.



Meu patrão, aquele ingrato,



Foi o maió criminoso,



Foi o maió assarsino.



O meu anjo pequenino



Foi sacudido no fundo



Do mais pobre cimitero



E eu hoje me considero



O mais pobre deste mundo.



Saluçando, pensativo,



Sem consolo e sem assunto,



Eu sinto que inda tou vivo,



Mas meu jeito é de defunto.



Invorvido na tristeza,



No meu rancho de pobreza,



Toda vez que eu vou rezá,



Com meus juêio no chão,



Peço em minhas oração:



Nanã, venha me buscá!