Relicario
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Nando Reis
É uma índia com colar
A tarde linda que não quer se pôr
Dançam as ilhas sobre o mar
Sua cartilha tem o A de que cor?
O que está acontecendo?
O mundo está ao contrário e ninguém reparou
O que está acontecendo?
Eu estava em paz quando você chegou
E são dois cílios em pleno ar
Atrás do filho vem o pai e o avô
Como um gatilho sem disparar
Você invade mais um lugar
Onde eu não vou
O que você está fazendo?
Milhões de vasos sem nenhuma flor
O que você está fazendo?
Um relicário imenso deste amor
Corre a lua porque longe vai?
Sobe o dia tão vertical
O horizonte anuncia com o seu vitral
Que eu trocaria a eternidade por esta noite
Porque está amanhecendo?
Peço o contrario, ver o sol se por
Porque está amanhecendo?
Se não vou beijar seus lábios quando você se for
Quem nesse mundo faz o que há durar
Pura semente dura: o futuro amor
Eu sou a chuva pra você secar
Pelo zunido das suas asas você me falou
O que você está dizendo?
Milhões de frases sem nenhuma cor, ôôôô…
O que você está dizendo?
Um relicário imenso deste amor
O que você está dizendo?
O que você está fazendo?
Por que que está fazendo assim?
…está fazendo assim?
Desde que você chegou
o meu coração se abriu
hoje eu sinto mais calor
e não sinto nem mais frio!
o que os olhos não veem
o coração precente,
mesmo na saudade você não está ausente!
Em cada beijo seu,
e em cada estrela no céu,
em cada flor no campo,
e em cada letra no papel!
Que cor terão seus olhos
E a luz do seu cabelo
Só sei que vou chama-lo de Ismael!
Ismael…Ismael…Ismael
Quando questionado sobre o significado desta musica no BP da UOL, Nando Reis respondeu o seguinte:
“Primeira coisa é que eu não gosto muito da idéia de uma música conter uma mensagem, ter uma interpretação. Acho que a riqueza de qualquer expressão artística é da mesma liberdade de ter o criador ela é para quem interpreta, ela é de forma diferente. É uma música que fala de uma separação, uma inviabilidade e usa como imagem o transcorrer do tempo que passa da noite para o dia. O nascer do dia leva embora a noite e esta noite leva junto a mulher que está inacessível para mim. O senhor X quer a Senhora Y que não está disponível. O Senhor X sofre pela indisponibilidade da Senhora Y que está indo embora para encontrar Senhor W. O Senhor X gostaria de ser o Senhor W para ter a Senhora Y. E eu não queria que a noite nunca acabasse para ter a senhora Y. A Senhora Y em questão depois passou a ser a Senhora L. E depois de muitos anos a Senhora Y se concretizou com uma realidade. A música é muito louca, pois fala “semente do futuro amor” que ao meu entender se deu na figura do meu filho Ismael que nasceu depois. Por isso que incluí na versão seguinte do “Relicário” uma estrofe, um apêndice que fala do nascimento do Ismael que é filho da Senhora Y. É uma história de amor. É o manifesto do otimista, aquele que crê que o amor um dia há de vingar. Tem outra coisa bonita. Eu comecei a fazê-la em 17 de agosto que é dia do aniversário de minha mãe que já faleceu. Ela gostava muito de um bolero com esse nome. E eu queria fazer uma música com esta palavra. E começou por conta da minha emoção de estar com a Senhora Y no dia do aniversário da minha mãe e passou ser a fonte das imagens para descrever o momento X.”
Fonte: http://musica.uol.com.br/ultnot/2007/05/15/ult89u7642.jhtm
Só faltou você citar a fonte, já que “sua” análise é uma síntese cópia do trabalho intitulado “DO AMOR, DA MALDIÇÃO DE QUERER SER AMADO E DE MILHÕES DE VASOS SEM NENHUMA FLOR”, do prof. Edson Soares Martins.
Professor Adjunto IX do Departamento de Línguas e Literaturas da Universidade Regional do Cariri
(URCA), no Ceará. Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal da
Paraíba. Pesquisador líder do Núcleo de Estudos Literários (NETLI/URCA). Contato:
edsonmartins65@hotmail.com
parabéns pela análise da poesia, sim, porque não acredito que alguém esperava ver apenas a análise de uma música sem se atentar que a mesma se trata de uma linda poesia… sempre amei essa música e me intrigava com a letra complexa típica de poesia atemporal. Poeta é isso, transpor para o papel com maestria o que sentimos no coração!
faz 1hr e meia que procuro análise de alguma música que a cassia eller canta. OBRIGADA!
.não entendi bulhufas do qe esse cara quis dizer , da pra ser mais objetivo , filosofo , fale em palavras claras e objetivas .
Realmente,uma interpretação tão completa,que acho que chega a extrapolar um pouco…Mas a poesia deixa esse espaço,não é mesmo? Talvez ai esteja a beleza maior…Já que algumas partes possuem várias vertentes…gostei muito do comentário do sérgio!
você fez uma analise complexa demais,que acho alguns itens que você “filosofou” não são valido,mas falou bonito XD
Ronaldo !!
Atendendo a solicitação da Silavne, Vou tentar fazer minha análise para “Relicário”. Esse texto do Nando Reis é muito complexo. Acho que ele usa o desamparo como sendo uma vocação do ser humano. É a maldição de querer ser amado.
Afinal, o que o relicário anuncia em seu vitral?
Analisando os primeiros versos temos a idéia de uma mulher integrada à natureza: a índia é a mulher seminua ou nua (sexualmente disponível) e a propositada citação do colar induz a idéia de integração total à natureza.
As ilhas sugerem algo imóvel e isolado e a “dança” das mesmas, algo coletivo, plural. Aí surge a referência humana de forma desfigurada: a cultura letrada: a cartilha importa pela cor de uma letra específica, que faz parte, talvez, de uma confirmação de afinidades, de preferências comuns no jogo do amor que são tão importantes quanto a função do letramento.
A natureza, que parecia estática, de repente subverte suas leis universais e tudo se torna caótico. Algo extraordinário deve ter ocorrido, e esse evento vem a seguir: antes de alguém chegar, ele estava em paz. Nessa parte ele sugere estar em dúvida: ou ele não percebia o caos da natureza ou a mesma não se havia tornado caótica, era apenas sua impressão.
No segundo verso, diante dos dois cílios que pairam, descolados do corpo, surge outro elemento comum do caos: a fragmentação do corpo. Esta característica é recorrente aos autores, quando abordam o desamparo.
O verso seguinte sugere ancestralidade, de vínculo sanguíneo, que também indica uma permanência de valores culturais. Ele também sugere que a dita pessoa tem um ótimo caráter, um ser que é capaz de se armar, mas que prescinde da violência ou que pode usar de mecanismos e não o faz. Isso aumenta sua perplexidade. Agora não é mais um fenômeno impessoal que está acontecendo; é alguém que está fazendo algo. Ele sugere que ela pode estar disseminando a morte, ou mostrando a potencialidade contida no amor (como sugerem os milhões de vasos).
A palavra “relicário”, indica uma urna, vaso, que contêm partes do cadáver de um santo. Vasos sem flor e relicário compartilham a capacidade de conter, mas também sacralizam a morte, a dor ou o sofrimento.
A estrofe seguinte retoma a contemplação de elementos da natureza:
A Lua, ícone feminino e o perigo que este ser representa (tal qual Eva). O “dia vertical” é para fazer confronto com o horizonte (horizontal). As imagens (vitrais) formadas no céu num fim de tarde também dão a idéia de caos e desamparo.
A seguir, na outra oposição, entre amanhecer e pôr-do-sol ele se impõe uma confissão: o primado da morte (posição horizontal) sobre a vida (posição vertical).
Nos versos finais ele sugere uma inconformidade com a pouca duração das coisas, na verdade ele desejava que tudo durasse mais, talvez eternamente. A semente pura é dura, assim como o amor verdadeiro?
Nos terceiro verso, a chuva que fertiliza e refresca serve de ponto de auto-referência, embora isso implique sua dissolução pelo outro; ela o secará! Isto sugere que doar-se ao amor é destruir-se, repor-se no ciclo de retorno ao caos.
Neste momento ele sugere que aquela pessoa se despiu de sua condição humana, dotada de asas que zunem, mas que, ao mesmo tempo, comunicam. Aí ele sugere uma regressão ao tempo de Adão e Eva, que se comunicavam com os animais pela palavra.
Os quatro versos finais retomam a perplexidade, agora pelo discurso: “o que você está dizendo?”.
As frases sem nenhuma cor sugerem a estratégia de eliminar a função da linguagem, enquanto os dois versos finais indicam a função do outro, que pode destruir o amante através da linguagem despida de poesia.
Enfim, o Nando quer dizer que o desamparo não é vivenciado unicamente nas situações que envolvem o amor, embora sempre que o assunto for o amor, ninguém será incapaz de notar quando a onda que bateu foi aquela de um coração sofrendo.
quero entender a letra da música relicário