De Racionais Mcs a Guimaraes Rosa
Pode ser que você não seja da periferia, não seja negro e não tenha nascido em uma família problemática. Ainda assim há muitos motivos para admirar os Racionais Mcs. Já explico o porque.
O quarteto, formado por Mano Brown, KL Jay, Ice Blue e Edy Rock se formou nas ruas de São Paulo em 1988, sob influência dos bailes funk da época e do nascente hip hop, e já narrava as dificuldades de se nascer negro e pobre em uma sociedade racista e aristocrática.
Desde então o grupo lançou 8 discos e a evolução se faz evidente. Kl Jay produzindo cada vez mais batidas precisas nas pickups, e as rimas cada vez mais precisas na voz de Mano Brown e Edi Rock. Brown carregou um estilo de rap mais agressivo, emotivo; Já Edi Rock propos uma levada mais cadenciada, rimas justas com o tempo e um tom de voz constante. Dois estilos que se complementam, que fizeram dos Racionais Mcs o maior grupo de rap do Brasil.
O sucesso nas periferias foi estrondoso a partir do quinto disco, “Sobrevivendo no Inferno”. A música e clipe de Diário de um Detento eram sucessos nas rádios e MTV, levando o grupo a ser o representante das periferias entre os gigantes da música.
“Aqui estou mais um dia/Sob o olhar sanguinário do vigia/Você não sabe como é caminhar/Com a cabeça na mira de uma HK” - Diário de um Detento
O rap do grupo mescla testemunhos de violência urbana, pobreza e lições de vida, passando assim a ser um espécie de guia para a nova juventude dos subúrbios. Esta, que procurava uma identidade própria e ídolos que falassem a língua das favelas, encontrou no Racionais Mc´s uma mensagem de esperança e força para superar os obstáculos da vida nas regiões mais pobres das grandes cidades. Uma responsabilidade que o grupo não pediu, mas que veio em forma de reconhecimento por tantos anos escrevendo pras massas.
“Fé em Deus que Ele é justo, ei irmão nunca se esqueça / Na guarda, guerreiro, levanta a cabeça / Seja lá onde estiver, como for / Tenha fé, porque até no lixão nasce flor” - Vida Loka parte 1 – Mano Brown
Mas a mensagem dos Racionais é muito maior, e não se faz somente para as periferias. Os Racionais Mc´s tecem música assim como Guimarães Rosa produz texto. São capazes de falar dos becos violentos do Capão Redondo e discutir a natureza humana, as relações interpessoais de qualquer classe social, raça ou religião. Guimarães Rosa, por sua vez, tratou do interior inóspito de Minas Gerais ao mesmo tempo em que narrou os mais inconfessáveis desejos do ser humano - uma tarefa árdua e genial.
Os temas humanos são tratados em diversas letras do Racionais Mcs. Falam de machismo, racismo, hipocrisia, religião com a mesma sabedoria de quem escreve em diversas línguas e tem diplomas. A diferença é que não tiveram as lições na cadeira da faculdade, mas no dia-a-dia - principal tema da arte do Racionais.
O que é, o que é, clara e salgada / Cabe em um olho e pesa uma tonelada / Tem sabor de mar, pode ser discreta,Inquilina da dor, morada predileta, / Na calada ela vem, refém da vingança, / Irmã do desespero, rival da esperança, / Pode ser causada por vermes e mudanas / É o espinho da flor, cruel que você ama, / E eu que me julguei forte, eu que me senti / Serei um fraco quando outras delas virem / Você diz que homem não chora, ta bom, falou / Não vai pra grupo não, Jesus chorou - Jesus Chorou – Mano Brown
