Chico Buarque e as referências de Picasso
Na letra “A Banda”, Chico Buarque narra a entrada na cidade do conjunto de circo que se apresenta nos próximos dias. Esta cena é muito comum em cidades do interior até um tempo atrás, quando as caravanas viajavam e, para fazer uma espécie de propaganda e anúncio de que iriam se apresentar nos próximos dias, passeavam em bloco pela cidade convocando os moradores a assistires os espetáculos com sua banda.
Ainda na letra, durante os versos Chico narra a mudança que essa caravana lidera nos olhos da pacata cidade. “O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou / Que ainda era moço pra sair no terraço e dançou /A moça feia debruçou na janela / Pensando que a banda tocava pra ela”. Essas mudanças são momentâneas e têm um período de duração limitado, mas promovem uma alteração importante dos participantes da cena - que se no momento anterior se viam incapazes e desmotivados agora são principais e têm uma nova perspectiva da realidade.
Picasso - entre outros artistas - pintou o mesmo tema em seu quadro ‘Parade’ - a tranformação. Depois que fundou o cubismo e passou por algumas vertentes, Picasso voltou às origens e pintou quadros de diversos estilos: da sua fase azul, rosa e, principalmente, com temas folclóricos e cotidianos.
Em ‘Parade’, Picasso deixou de lado os traços cubistas e mostrou uma tela gigante um tema extremamente prosaico com um charme não utilizado pelos cubistas, acostumados com colagens e materiais que simulam texturas. A cena é cercada por cortinas vermelhas, que espetacularizam uma ação quase mitológica: arlequim, pierrot e colombina estão em ação ao lado de Pégasus - o mesageiro de deus.
As duas obras se encaixam na medida em que desafiam o público a enxergar a vida sob outra perspectiva, apreciando temas não grandiosos mas importantes - uma das funções da Arte. Abrir os horizontes para novos pensamentos, além da reavaliação de princípios são iniciativas abandonadas e altamente caricaturais no contexto midiático que vivemos.










